China e Índia buscam administrar rivalidade e evitar novas rupturas, aponta análise da Vivekananda International Foundation
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – A visita do presidente chinês, Xi Jinping, a Nova Délhi nos dias 12 e 13 de setembro, durante a cúpula dos BRICS, em Nova Déli, a primeira em sete anos e também a primeira desde o confronto de Galwan, em 2020, marcou uma nova etapa na tentativa de estabilização das relações entre China e Índia. A avaliação, no entanto, é de que o encontro não representou um “reset” nas relações entre as duas potências asiáticas, mas uma tentativa pragmática de administrar divergências e evitar novas rupturas.
A análise é de Rahul Pandey, pesquisador associado da Vivekananda International Foundation (VIF), que examinou fontes em língua chinesa para identificar como a visita de Xi e a atual aproximação sino-indiana são percebidas pela comunidade estratégica de Pequim. Segundo Pandey, apesar da melhora do ambiente diplomático, acadêmicos chineses continuam cautelosos diante das profundas divergências que marcaram a relação bilateral nos últimos anos.
A posição oficial chinesa é mais otimista. Durante o encontro entre Xi e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, Pequim enfatizou que China e Índia devem enxergar uma à outra como “parceiras, e não rivais” e como oportunidades de desenvolvimento, em vez de ameaças. A estratégia chinesa está apoiada em quatro prioridades: percepção estratégica adequada, cooperação mutuamente benéfica, administração das divergências — incluindo a questão fronteiriça — e maior coordenação nas instituições multilaterais.
Confiança continua sendo principal obstáculo
Entre os especialistas chineses, porém, prevalece uma avaliação mais cautelosa. Há um reconhecimento de que as relações se afastaram do ambiente de confronto estabelecido após os choques no vale de Galwan, mas poucos analistas descrevem a atual fase como uma verdadeira redefinição dos vínculos bilaterais. Em vez disso, falam em estabilização cautelosa, reaproximação econômica pragmática e continuidade da competição estratégica.
Lin Minwang, vice-diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade Fudan, avalia que as relações melhoraram em termos gerais, mas considera que reconstruir a confiança continua sendo um dos problemas mais difíceis. Divergências históricas, a disputa fronteiriça e as consequências políticas dos confrontos recentes enfraqueceram as bases sociais e políticas da relação. Cúpulas de alto nível podem estabilizar os vínculos, mas não são suficientes para apagar anos de desconfiança.
A economia aparece como um dos principais motores da reaproximação. Xie Chao, pesquisador do Centro de Estudos do Sul da Ásia da Universidade Fudan, relaciona a mudança de ambiente ao debate ocorrido na própria Índia sobre os custos econômicos da confrontação com a China. Setores da indústria eletrônica indiana, por exemplo, manifestaram preocupação com os impactos das restrições às empresas chinesas sobre a produção e o emprego.
Segundo essa interpretação, Nova Délhi continua interessada em desenvolver sua própria capacidade industrial e diminuir uma dependência excessiva da China, mas enfrenta dificuldades porque empresas chinesas ocupam posições importantes em segmentos como máquinas, componentes, eletrônicos, energias renováveis e cadeias industriais. A retomada seletiva das relações econômicas com Pequim seria, portanto, compatível com uma estratégia indiana de diversificação.
Índia busca coexistir e competir
Liu Zongyi, diretor do Centro de Estudos do Sul da Ásia do Instituto de Estudos Internacionais de Xangai, utiliza a expressão “coexistência competitiva” para descrever a estratégia indiana. Em sua avaliação, a Índia não pretende realizar um desacoplamento econômico completo da China, mas também não deseja ingressar no campo estratégico de Pequim. Nova Délhi procura manter o diálogo enquanto continua competindo com a China nos terrenos econômico, político e estratégico.
Nesse contexto, o BRICS oferece um espaço especialmente relevante. O bloco permite que China e Índia cooperem em áreas como finanças, comércio, pagamentos transfronteiriços, moedas locais, clima e financiamento do desenvolvimento mesmo quando persistem divergências sobre fronteiras, investimentos, tecnologia e estratégias regionais. A cooperação, porém, continuará sujeita a negociações e disputas, sem eliminar automaticamente os pontos de atrito.
A participação indiana no BRICS tampouco deve ser interpretada como um afastamento dos Estados Unidos. Zhu Jiejin, da Universidade Fudan, considera que a Índia procura se posicionar como um polo autônomo no sistema internacional, preservando liberdade de movimento entre diferentes centros de poder. Assim, uma melhora nas relações com Pequim não significa necessariamente distanciamento de Washington, da Europa, do Japão ou de outros parceiros do Indo-Pacífico.
Essa autonomia ajuda a explicar por que a Índia consegue participar simultaneamente de diferentes arranjos internacionais. O objetivo de Nova Délhi, nessa interpretação, seria evitar dependência excessiva de qualquer grande potência e preservar espaço para defender seus próprios interesses em uma ordem internacional cada vez mais multipolar.
Competição sem ruptura
A leitura oficial de Pequim enfatiza as possibilidades de cooperação. Durante o encontro em Nova Délhi, Xi e Modi concordaram que China e Índia devem se enxergar como parceiras, e não adversárias. Analistas chineses também destacam que os encontros sucessivos entre os dois líderes — em Kazan, em 2024; Tianjin, em 2025; e Nova Délhi, em 2026 — indicam maior continuidade do diálogo político entre as duas maiores nações da Ásia.
Para Pandey, a visita de Xi não significou um retorno ao período de maior otimismo nas relações sino-indianas, mas tampouco pode ser reduzida a um encontro meramente cerimonial. Ela faz parte de uma tentativa mais modesta e potencialmente relevante de estabelecer regras para administrar a rivalidade.
A comunidade estratégica chinesa parece reconhecer que a Índia dificilmente se alinhará a Pequim, assim como Nova Délhi não aceitará que suas preocupações de segurança sejam simplesmente ignoradas. O terreno possível para a relação passa, portanto, por permitir que a competição continue sem provocar sucessivos colapsos políticos e diplomáticos — uma fórmula de coexistência que pode ganhar importância não apenas para China e Índia, mas também para o BRICS e para o conjunto do Sul Global.
Fonte: Brasil 247