Índia aposta em inteligência artificial para todos e mira desenvolvimento inclusivo até 2047

0

Por Redação Brasil 247 — Brasil 247

247 – A Índia está construindo uma estratégia de inteligência artificial baseada no princípio de “IA para todos”, com o objetivo de democratizar o acesso à tecnologia, reduzir desigualdades e utilizar as novas ferramentas digitais para enfrentar alguns dos principais desafios sociais e econômicos do país. A iniciativa está vinculada ao horizonte de desenvolvimento da Índia até 2047, ano em que o país completará um século de independência.

A avaliação é de Anirban Sarma, diretor da Digital Societies Initiative do Observer Research Foundation (ORF), e da Dra. Vanita Sharma, assessora de Iniciativas Estratégicas da Reliance Foundation. Em análise sobre o desenvolvimento da inteligência artificial na Índia, os especialistas destacam que o país busca combinar inovação tecnológica, infraestrutura compartilhada, capacitação da população e aplicações práticas voltadas às necessidades das comunidades.

O avanço ocorre em um momento de rápida expansão do ecossistema indiano de IA. A Índia já ocupa posições de destaque internacional em competências profissionais e dinamismo do setor, enquanto empresas ampliam a adoção de soluções baseadas em inteligência artificial e startups atraem investimentos. Estimativas citadas pelos autores indicam que a tecnologia poderá acrescentar cerca de US$ 1,7 trilhão à economia indiana até 2035.

Um dos pilares dessa estratégia é a construção de infraestrutura acessível. Por meio de sua missão nacional de inteligência artificial, o governo indiano disponibiliza capacidade computacional subsidiada e desenvolve repositórios compartilhados de dados e modelos. A intenção é diminuir as barreiras de entrada para startups, universidades, pesquisadores, empresas e instituições públicas, evitando que o desenvolvimento da IA fique restrito às grandes corporações capazes de financiar infraestrutura própria.

A prioridade, no entanto, não é apenas desenvolver modelos cada vez mais sofisticados. A Índia procura transformar a inteligência artificial em instrumento para resolver problemas concretos. Projetos já exploram aplicações em áreas como agricultura, saúde, educação, gestão de desastres, sistema de Justiça e inclusão social, criando soluções que, segundo Sarma e Sharma, também poderão ser adaptadas às necessidades de outros países em desenvolvimento.

Essa característica torna a experiência indiana especialmente relevante para o Sul Global. Muitos dos desafios enfrentados pela Índia — grande diversidade linguística, desigualdade de renda, diferenças regionais, conectividade limitada e necessidade de oferecer serviços públicos em grande escala — também estão presentes em países da África, América Latina e outras regiões da Ásia. Tecnologias desenvolvidas nessas condições podem, portanto, produzir modelos mais facilmente replicáveis em outras economias emergentes.

IA em centenas de línguas

A diversidade linguística aparece como um dos grandes desafios e, ao mesmo tempo, como um dos campos mais promissores da experiência indiana. Modelos treinados com dados locais, sistemas de tradução e interfaces adaptadas aos diferentes idiomas buscam permitir que pessoas que não dominam o inglês também tenham acesso aos benefícios da inteligência artificial.

A estratégia é acompanhada por programas de formação destinados a preparar cidadãos não apenas para utilizar ferramentas de IA, mas também para participar de sua criação. Dessa forma, o país procura ampliar a base social capaz de produzir inovação tecnológica e evitar que a nova economia digital aprofunde desigualdades já existentes.

Os projetos analisados por Sarma e Sharma também indicam que a tecnologia funciona melhor quando é construída em diálogo com as próprias comunidades. Em vez de simplesmente introduzir uma ferramenta externa, iniciativas bem-sucedidas procuram integrar a inteligência artificial a serviços e instituições nos quais os usuários já confiam, além de desenvolver interfaces adequadas aos idiomas, à realidade cultural e às condições materiais de cada região.

Outro princípio considerado fundamental é a manutenção da supervisão humana. Sistemas de IA podem analisar grandes quantidades de dados, identificar padrões e produzir recomendações, mas decisões sensíveis não devem ser automaticamente transferidas aos algoritmos. Áreas como cuidados veterinários ou definição de beneficiários de políticas sociais, por exemplo, exigem mecanismos de revisão humana.

Tecnologia precisa chegar a quem não tem computador

A democratização da IA também depende da capacidade de superar limitações básicas de infraestrutura. Em comunidades onde a internet é instável ou o acesso a computadores é reduzido, soluções exclusivamente baseadas em serviços sofisticados na nuvem podem ampliar, em vez de reduzir, a exclusão digital.

Por isso, iniciativas indianas vêm explorando ferramentas capazes de funcionar offline, aplicações adaptadas a telefones celulares e diferentes formas de interação que não dependam necessariamente de computadores pessoais. A lógica é fazer com que a tecnologia se adapte às condições dos usuários, e não exigir que as comunidades se adaptem previamente às exigências da tecnologia.

A expansão acelerada da inteligência artificial, entretanto, também produz novos desafios. Grandes centros de dados demandam quantidades significativas de energia e água, colocando questões ambientais no centro do debate. Ao mesmo tempo, será necessário estabelecer mecanismos capazes de garantir segurança, equidade, preços acessíveis e retorno para as comunidades cujos dados, idiomas e conhecimentos são utilizados no treinamento dos modelos.

A experiência indiana também aponta para a importância das parcerias entre Estado, empresas e organizações da sociedade civil. A combinação de infraestrutura pública, conhecimento tecnológico privado e experiência das organizações que atuam diretamente nas comunidades pode reduzir custos e acelerar a transformação de projetos experimentais em serviços disponíveis para milhões de pessoas.

Mais do que participar da corrida internacional pelos modelos mais poderosos, a estratégia indiana sugere uma concepção distinta para o futuro da inteligência artificial: medir seu sucesso também pela capacidade de melhorar serviços públicos, ampliar oportunidades e alcançar populações historicamente excluídas das grandes transformações tecnológicas.

Para países do Sul Global, a experiência pode representar uma referência importante. Em vez de serem apenas consumidores das tecnologias produzidas pelas grandes potências digitais, países emergentes podem desenvolver modelos próprios, treinados com seus dados, adaptados às suas línguas e orientados para seus desafios sociais. É nessa combinação entre soberania tecnológica, inclusão e cooperação que a Índia pretende transformar a inteligência artificial em uma ferramenta de desenvolvimento.

Fonte: Brasil 247

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *