O personagem mais famoso da literatura mundial estava fechado com o genocida?
Por João Victor Sampaio — Carta Capital
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Ricardo Pieralini é escritor. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2024.
Não confunda Jesus com Genésio e jamais seja ovelha, bicho, que todo pastor está de olho é na lã que você veste
O personagem mais famoso da história da literatura mundial foi um revolucionário que resolveu encarar os grupos dominantes e defender os oprimidos, os que estavam à margem. Como quase todos os revolucionários, da literatura ou não, acabou assassinado, viveu apenas trinta e três anos. Porque a humanidade, dentro ou fora da literatura, tem dois lados, sempre terá dois lados. O que mata e o que morre. O que come e o que tem fome. O que domina e o que é dominado. Vida e morte. Dia e noite. Bom e mau. A terceira via é uma ficção utópica, distópico. Meios termos são, costumeiramente, opções para evitar conflitos. Libertam pouco, meia dose de cachaça alivia coisa alguma.
O personagem mais famoso da literatura mundial está no livro mais vendido da história. Um sujeito que viveu pouco e acabou distorcido, à cabeceira das camas de quem não lê, nunca lerá. De que adiantam letras narrando a revolução social quando se fica com a versão falsa de quem lê no púlpito? A humanidade tem dois lados: o que domina e o que é dominado.
Está ali, no livro mais vendido do mundo, uma das histórias mais sangrentas. Uma divindade cria tudo, dá às pessoas o poder do livre arbítrio para, logo depois, matar a humanidade com um argumento de que é pura dissimulação: aniquilo vocês por agirem sem obedecer minhas ordens. Mas você nos deu o livre arbítrio, lembra? Problema de vocês, e dá-lhe aguaceiro. Desde os tempos remotos, não se deve contrariar quem está contra o povo. Vida e morte, bom e mau, cachaça alguma, em quantidade alguma, serve para quem confunde Jesus com Genésio.
Hoje de manhã, bem cedo, começou uma discussão em um grupo de literatura. O melhor da história é Kafka. Não chega aos pés da Virginia Woolf. Esquece, fico com nosso Guimarães Rosa. Então fica com a nossa Clarice, poxa. Gente, esqueceram do Fernando Pessoa? Ouvi Saramago? Outro escreve: Paul Auster é maior que deus, e a rebatida silencia o debate, deixa um climão no ar: essa equação não fecha, porque não se pode ser maior do que algo que não existe, qualquer coisa é maior que o nada.
Conheço muito ateu no meio literário e quase todos leram o livro mais vendido do mundo, conhecem bem a história do personagem mais famoso. Livros nascem para serem lidos. E pensados.
O grupo recomeça a discussão, vai do suposto pai ao suposto filho. Espírito nenhum é santo, amém, alguém grita em caixa alta. Fecho com o verdadeiro rei do pop, cabeludo, barbudo, só não tocava guitarra porque guitarras não existiam, diz outro. Não tem como não admirar aquela figura, emenda um amigo, descrente nas coisas do além. Tem sim, responde outro, porque o sujeito tinha seu lado bacana, revolucionário, mas estava fechado com o poderoso, o dono de tudo, o que matou a humanidade, quem fecha com genocida não é legal e está do lado errado da história. Calma lá, que cada deus é um deus e não necessariamente vice-versa.
Toda ficção tem um monte de verdade e um monte de mentira. Qualquer mitologia é criada por homens para dominar outros homens. A história é sempre a mesma, a gente sabe. O que mata e o que morre. O que come e o que tem fome. O que domina e o que é dominado. Exerça seu livre arbítrio, use algemas, focinheira, coleira. Comporte-se, a chuva virá, ela está para chegar. Ele também. Não, ele não. De novo: ele não. Leia muitos livros, todos, e jamais seja ovelha, bicho, que todo pastor está de olho é na lã que você veste.
Hoje faz tanto frio, chove tanto, nunca mais vai parar de chover, meu deus? Haja, cachaça, Jesus.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
Ricardo Pieralini
Ricardo Pieralini é escritor. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2024.
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Fonte: Carta Capital