Harper Collins lança biografia de Toni Morrison, a editora, em novembro
Por Euler de França Belém — Jornal Opção

Leitores pensam que sou crítico literário, porque escrevo sobre livros. Escrevo pouco sobre literatura, e mais sobre história, às vezes sobre filosofia. Sou, na verdade, um repórter de política que, eventualmente, escreve sobre livros, às vezes a respeito de literatura.
Entre as perguntas que me fazem as mais frequentes são: “Por que você prefere Graciliano Ramos a Machado de Assis?” e “Qual é o maior escritor americano?” São perguntas diretas e simples, mas difíceis de responder.

Não há a menor dúvida de que Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Ana Maria Gonçalves (a quem só falta mais romances) são os melhores prosadores brasileiros. Assim como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto são os poetas mais importantes do país.
Em A Canção de Solomon, os negros não são tratados apenas como vítimas do que Faulkner chamava de a maldição americana (a escravidão). São agentes ativos da história. Fazem coisas terríveis — seguindo uma ética de combate aos brancos
Por que escolhi Graciliano Ramos como “o” melhor? A rigor, não sei se é “o” melhor — e, por certo, não há um campeonato de melhor e pior em literatura. Mas é o que mais aprecio. Idiossincrasia, pois? Talvez. “Vidas Secas” é a melhor história do Brasil, como literatura e história. É uma história do país explicada pela literatura. Escrita com uma contenção rara.

Às vezes, quando estou descansando a alma, pego-me a olhar as fotografias de Graciliano Ramos. O escritor alagoano morreu com 60 anos (tenho 65 anos), mas as fotos mostram um velho precoce. O Velho Graça. Porém, curiosa ou paradoxalmente, sua literatura não envelhece. É sempre jovem, viva, ativa, reverberante. Porque, exatamente, não sei. Só sei que é assim, diria Chicó.
Na obra de Graciliano Ramos há drama, o drama da vida, mas não melô. Sua escrita é uma precisa aula de anatomia sobre os brasileiros, notadamente os pobres. Sua arte não está na denúncia em si, mas na precisão da história relatada e revelada.
Por que trato de Graciliano Ramos assim sem mais nem menos? Porque li, na “Folha de S. Paulo”, que a Harper Collins vai lançar, em novembro, uma biografia da escritora americana Toni Morrison, Nobel de Literatura de 1993.
O crítico Harold Bloom era um entusiasta reticente da obra de Toni Morrison. Escreveu belamente sobre “A Canção de Solomon” (Best Seller, 359 páginas, tradução de Evelyn Kay Massaro). Pouco comentado no Brasil — foi lançado no país em 1977, há 49 anos, e não foi reeditado —, é um romance de rara mestria literária.

Em “A Canção de Solomon”, os negros não são tratados apenas como vítimas do que William Faulkner — que influenciou a literatura de Toni Morrison — chamava de a maldição americana (a escravidão e sua brutalidade terrível contra os negros). São também agentes ativos de sua história. Fazem, alguns deles, coisas terríveis, mas seguindo uma ética de combate aos brancos, quaisquer brancos.

Harold Bloom diz que Toni Morrison “perde-se” quando faz discurso. Por certo, faz discurso — e qual literatura, mesmo a não panfletária, não o faz? Mas não há uma gota de drama panfletário na literatura da autora de “Amada” (outro belo e doloroso romance).
Pode-se dizer que uma biografia que trata de Toni Morrison apenas como editora é ampla? Só será uma biografia completa se inclui-la como escritora de uma obra importante — que inclui Pérola Negra, Paraíso, Jazz, Compaixão, Paraíso, Sula
Não há a secura mas há a precisão do Velho Graça na prosa de Toni Morrison. “A Canção de Solomon” lembra, em determinado trecho, a música “Construção”, de Chico Buarque.
Leitores perguntam se prefiro Faulkner a Harry James. Sei que há os que não apreciam James, mas li, com imenso prazer, sua prosa prenhe de ambiguidade, notadamente “As Asas da Pomba”, “Retrato de uma Senhora”, “A Taça de Ouro” e “Pelos Olhos de Maisie”.

Durante anos, li e reli Faulkner, autor de romances magistrais, como “O Som e Fúria” (espécie de resposta americana ao “Ulisses”, de James Joyce), “Enquanto Agonizo” (para mim, acima dos outros), “Luz em Agosto” e “Absalão, Absalão!”.
Poucos autores americanos compreenderam tão bem o país de Abraham Lincoln — e da escravidão — quanto Faulkner. Ao mesmo que fez alta literatura, escreveu — reescreveu — a história do Sul dos Estados Unidos. Por isso, mesmo com ligeiras reticências, Toni Morrison o apreciava.
Toni Morrison é um par de Faulkner — e da extraordinária Joyce Carol Oates (que merece o Nobel de Literatura). Porém, com mais sensibilidade na criação de personagens femininos.
Fico a pensar: o quê, com sua mente aguçada e cortante, Toni Morrison faria com a personagem Lena Grove, de “Luz em Agosto”, de Faulkner. De alguma maneira, é também uma personagem do mundo de Toni Morrison, mas, em suas mãos, ganharia um pouco, digamos, de “ferocidade” ou “bravura”.

Na coluna “Painel das Letras”, assinada por Walter Porto, da “Folha”, conta-se que a Harper Collins vai publicar “Toni Morrison, Editora”, de Dana A. Williams, professora da Universidade Howard, um poderoso centro acadêmico de intelectuais negros. A obra saiu em 2025 nos Estados Unidos. Ryta Vinagre é a tradutora do livro.
Pode-se dizer que uma biografia que trata de Toni Morrison como editora é, de fato, ampla? Não. Só será uma biografia completa se inclui-la como autora de uma obra importante — que inclui os livros citados acima e mais “Pérola Negra”, “Paraíso”, “Jazz”, “Amor”, “Sula”, “O Olho Mais Azul”, “Compaixão” e ensaios poderosos, inclusive sobre Faulkner.
Mas conhecer o trabalho de uma editora, competente e ativista, é importante. Até porque a escritora “nasceu” a partir do trabalho como editora. “Melhorando” o trabalho dos outros, dando-lhes um tom mais imaginativo e fluente, Toni Morrison descobriu que era uma prosadora de primeira linha.
Como editora da Random House, durante vários anos, Toni Morrison publicou livros que valorizaram autores negros. Conta Walter Porto: “Morrison foi chave para levar às livrarias, por exemplo, obras de Angela Davis e Muhammad Ali contando suas vidas em suas próprias palavras”.
Toni Morrison pode ser considerada “revolucionária” em dois campos: o de editora e o de escritora. E era também ativista.
Por isso, quando novembro chegar, é adequado colocar o livro sobre a notável prosadora na primeira fila.
[Email: eulerdefrancabelem@gmail.com]
O post Harper Collins lança biografia de Toni Morrison, a editora, em novembro apareceu primeiro em Jornal Opção.
Fonte: Jornal Opção