Mascaro analisa Brasil, Índia e China e aponta o abismo entre o capitalismo de vassalos e os projetos de soberania
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – Qual o papel do Brasil na nova ordem multipolar e por que o país tem tanta dificuldade em sustentar um horizonte de desenvolvimento acelerado de longo prazo, ao contrário de potências emergentes como China e Índia? A questão central para o futuro do Sul Global foi o eixo da análise geopolítica e de economia política apresentada pelo professor Alysson Leandro Mascaro em entrevista presencial à TV 247.
Ao traçar uma radiografia comparativa entre as três nações, Mascaro desmontou ilusões liberais e explicou que a trajetória de cada país reflete a natureza histórica de suas classes dominantes e a presença — ou ausência — de rupturas estruturais com o centro imperialista.
A revolução que colocou a China na liderança
Para Mascaro, o abismo de escala entre o crescimento chinês e o restante do mundo decorre diretamente do fato de Pequim ter realizado uma revolução socialista que refundou o Estado e expurgou a submissão neocolonial.
“A China não tem um PIB de US$ 20 trilhões simplesmente por conta de sua população gigantesca. A China alcançou esse patamar porque fez uma revolução: tomou o poder nas mãos do povo, limpou suas Forças Armadas de elementos entreguistas de quinta coluna e estabeleceu um planejamento estratégico de longo prazo voltado ao desenvolvimento produtivo e tecnológico”, argumentou o jurista.
O professor contrastou a euforia construtiva chinesa — capaz de erguer malhas ferroviárias de alta velocidade, usinas e megaprojetos de infraestrutura que desafiam a engenharia mundial — com o desânimo do Ocidente: “No Ocidente e no Brasil, as pessoas estão apenas tentando sobreviver e pagar contas, sem horizonte de futuro. Na China, um jovem que estuda engenharia sabe que seu esforço resultará em estradas, pontes recordistas e liderança tecnológica. Há ali um sentimento de progresso coletivo e soberania que a ordem neoliberal destruiu no Ocidente.”
O modelo indiano e a burguesia nacional
Ao analisar a Índia, Mascaro destacou que o gigante do sul asiático, mesmo crescendo a cerca de 7% ao ano dentro dos marcos do capitalismo sob Narendra Modi, carrega as marcas de uma transição que evitou uma transformação radical da sua estrutura interna.
“A independência indiana em 1948, sob a liderança pacifista de Mahatma Gandhi, teve também o papel histórico de frear o avanço do socialismo no país, preservando estruturas profundas de dominação e o próprio sistema de castas”, pontuou Mascaro. “A Índia demorou mais a engatar seu ciclo acelerado e hoje tem cerca de um quarto do PIB chinês porque não realizou a mesma revolução agrária e popular que a China viveu.”
No entanto, o jurista reconheceu uma distinção decisiva entre a elite econômica indiana e a brasileira: a burguesia da Índia precisou se organizar e se contrapor à metrópole britânica para conquistar seu mercado e seus negócios. “A Índia construiu uma burguesia nacional com instinto de preservação e nacionalismo econômico. Ela não é subserviente aos ditames imediatos de Washington da mesma maneira que as elites latino-americanas.”
A burguesia brasileira e a vocação para a vassalagem
É na comparação com o Brasil que o diagnóstico de Mascaro se torna mais incisivo. Para o jurista, a classe dominante brasileira está muito mais próxima da postura da burguesia japonesa do pós-1945 do que da postura indiana — com a diferença de que o Japão esteve sob ocupação direta após as bombas de Hiroshima e Nagasaki e foi industrializado como ponta de lança da Guerra Fria na Ásia.
“A burguesia do Brasil é estruturalmente entreguista. Se os Estados Unidos ameaçarem o país com uma destruição para impedir qualquer transformação popular, a nossa burguesia abraça a bomba. Ela prefere a destruição do parque nacional, o desemprego em massa e a miséria das periferias a ver o povo conquistar direitos e soberania”, denunciou.
Segundo Mascaro, isso explica por que a extrema-direita brasileira é, paradoxalmente, “desnacionalizante”: “Diferente de setores da direita indiana, que ainda sustentam uma postura nacionalista e protegem indústrias locais, a extrema-direita brasileira se resume a entregar estatais a preço vil, desmontar a Embraer, sabotar a ciência nacional e prestar continência à bandeira norte-americana.”
O desafio para o futuro do Brasil
Diante de um cenário internacional de profunda reconfiguração, Mascaro enfatizou que o Brasil não poderá se consolidar como grande potência se suas metas continuarem circunscritas a medidas pontuais e paliativas de gestão do subdesenvolvimento.
“Oferecer avanços pontuais, como o fim da escala 6×1, é fundamental e melhora a vida imediata da classe trabalhadora, mas isso é marketing de curto prazo se não vier acompanhado de um projeto de reindustrialização pesada, recuperação do papel indutor das estatais e destravamento produtivo soberano”, defendeu.
Para o professor, o verdadeiro legado para as próximas décadas exigirá do país a coragem de romper a vassalagem histórica e aprofundar de forma definitiva a integração com o bloco dos BRICS: “O Brasil tem que escolher se continuará administrando as sobras de um modelo dependente e financista ou se assumirá o protagonismo histórico que lhe cabe ao lado de China, Índia e Rússia na construção de um mundo multipolar.”
Fonte: Brasil 247