“Eu precisava, desesperadamente, recordá-la”

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Por Sergio Ferrari — Brasil 247

Por Sergio Ferrari – Depois de pensar muito sobre o livro e de escrevê-lo quase diariamente, pouco a pouco, laboriosamente, nos últimos dois anos, Esqueci de ti de novo! (Talvez possamos usar: De novo, me esqueci de ti. Mas, para ser o título de um livro, talvez a primeira opção seja melhor) será apresentado, em breve, na Argentina.

Em suas 304 páginas, David Andenmatten, ex-preso político durante a última ditadura cívico-militar-religiosa, constrói uma autobiografia que vai além da primeira pessoa para encarnar-se em um nós coletivo. “Meu livro é uma contribuição para a memória coletiva do povo sobre o que aconteceu durante o processo genocida na Argentina nos anos setenta”, declara o autor nesta entrevista exclusiva.

Com um estilo simples e palavras diretas, Andenmatten discorre sobre suas origens familiares, a militância, a prisão, o exílio e o compromisso sindical na Suíça, seu país adotivo. E, como ponto central, as perdas irreparáveis, incluindo a de Berta Perassi, sua jovem companheira, presa e até hoje desaparecida.

“Imaginei isso como uma homenagem a Berta e a todos que já não estão aqui”, explica, antecipando seu principal desejo: “Gostaria que as histórias que conto fossem incorporadas à memória de todo o nosso povo de forma a incentivar outros a também contribuírem com suas experiências”.

Em outubro e novembro, Andenmatten fará uma turnê por diversas cidades do país sul-americano apresentando seu livro, tecendo Memória, estimulando esperança.

Pergunta: Berta Perassi está presente em quase todo o livro e dá forma ao título, Esqueci de ti de novo! (Talvez possamos usar: De novo, me esqueci de ti. Mas, para ser o título de um livro, talvez a primeira opção seja melhor) Cinquenta anos após seu desaparecimento, quem era Berta e por que ela ainda é tão importante?

R: Berta era minha companheira. Compartilhamos uma fase de nossas vidas e a militância em Río Cuarto e Córdoba. Mais tarde, ela foi sequestrada e desapareceu em La Perla, um dos centros de detenção clandestinos mais terríveis de todo o país, quando eu estava preso.

Por muitos anos ela ficou guardada dentro de mim, eu quase não falava sobre ela. O terror gerado pelo genocídio foi tão grande e havia tantas/os companheiras/os desaparecidas/os que sua história abrangeu a aniquilação de parte do povo argentino. Berta foi mais uma dentre várias/os, como Alberto Pinto, Sergio Comba, Gabriel López e tantos outros. Mas ela reapareceu na minha vida através de memórias e testemunhos de quem a conheceu.

Com o tempo, entendi que investigar o que aconteceu com ela também era uma forma de reconstruir minha própria história e a de toda uma geração. Hoje, em Río Cuarto, uma rua e uma escola levam seu nome. Todo ano visito essa escola e conheço jovens que ainda não haviam nascido quando ela foi sequestrada, mas que conhecem sua história. Para mim, essa escola é a memória viva da Berta.

Esse livro também é uma forma de dizer que eles não conseguiram fazê-la desaparecer da nossa memória. E se em algum momento parecia que eu a havia esquecido, precisei, desesperadamente, recordá-la.

Uma história, uma geração

P: Por que você decidiu contar uma história que começou há cinquenta anos? Em quem você pensou como o destinatário do livro?

R: Não o escrevi porque achava que minha vida era excepcional, mas porque entendi que minha própria experiência fazia parte de uma história coletiva que eu não queria que se perdesse. Por muitos anos, reuni documentos, procurei colegas, testemunhei em tribunais e trabalhei para recuperar as memórias de pessoas desaparecidas. Mas, ainda não havia contado minha própria história.

Quando comecei a escrever, entendi que não podia começar pela prisão. Tive que contar quem eu era antes: minha infância, minha família, meus amigos, a militância, Berta. E também não poderia terminar esse relato quando recuperei minha liberdade. Depois veio o exílio, a Suíça, os retornos, os julgamentos e o trabalho de memória. O livro acabou sendo a história de uma vida atravessada pelo genocídio, mas não reduzida a ele.

A primeira motivação foi escrevê-lo para meus filhos. Havia coisas na minha vida que eu nunca consegui contar diretamente a eles. Também pensei nos jovens que não viveram aqueles anos. Gostaria que entendessem que também fomos jovens, que tínhamos famílias, amigos, projetos, medos e contradições, e como o genocídio impactou essas vidas.

Se o livro serve para fazer alguém que não conheceu Berta se perguntar quem ela era, ou quiser saber o que aconteceu com aquela geração, ele terá cumprido uma parte importante de seu objetivo.

P: O livro é escrito em primeira pessoa. Como contar uma experiência tão pessoal e, ao mesmo tempo, abordar a história coletiva de uma geração?

R: Só poderia contar essa história a partir de minha própria experiência. Não podia falar em nome de uma geração ou das/os companheiras/os que não estão mais aqui. Por isso escolhi a primeira pessoa: conto o que vivi, o que vi, o que senti e também o que fui compreendendo muitos anos depois.

Mas, enquanto eu escrevia, algo aconteceu que eu não havia previsto. Minha história começou a se cruzar permanentemente com a dos demais: de Berta, de companheiras/os de militância, das/os prisioneiros, das/os desaparecidos, da minha família, das/os exilados. Então, compreendi que contar uma experiência individual também poderia ajudar a compreender uma realidade coletiva.

Não pretendo representar minha geração. Sou apenas um sobrevivente que passou por essa história e decidiu conta-la.

“As ausências continuam pesando em mim todos os dias”

P: No livro, as perdas estão muito presentes, mas também os reencontros. Quase cinquenta anos depois, o que pesa mais?

R: Não consigo separar uma coisa da outra. As ausências ainda são um fato e pesam em mim todos os dias. Mas, também há os reencontros. Depois de tantos anos, fui procurar companheiras/os, parentes, documentos e testemunhos. Algumas pessoas voltaram à minha vida depois de décadas.

Esses reencontros não reparam as perdas, mas nos permitem reconstruir histórias que o genocídio tentou destruir.

P: A família percorre todo o livro, desde suas origens até sua vida atual. Por que ocupa um lugar tão importante no relato?

R: Quando comecei a escrever, achei que poderia interessar ao leitor —e, em primeiro lugar, aos meus filhos— que eu contasse a minha vida desde o início. Por isso, minha família de origem, minha infância e, no fim, a família que construí depois.

A presença da família surgiu naturalmente quando decidi narrar minha vida e não apenas os anos de militância, a prisão e o exílio.

P: Sua história, simples e profunda ao mesmo tempo, tem a autenticidade de também reconhecer fraquezas. Ela não esconde, por exemplo, seus medos daquela época.

R: Alguns desses medos não desapareceram completamente, apesar dos anos e da distância que separam a Suíça da Argentina.

Ainda acordo às vezes depois de um pesadelo em que estou sendo torturado ou que os meus torturadores vêm até minha casa, em Genebra, para me matar. Cinquenta anos se passaram. Sei onde estou e que aquela situação terminou há muito tempo. Mas, há experiências que deixam marcas que o tempo não pode apagar completamente.

P: Argentina e Suíça atravessam boa parte da sua vida. Como você conseguiu integrar esses dois mundos?

R: São duas realidades muito diferentes. Cheguei à Suíça depois de sobreviver ao genocídio e aqui pude reconstruir minha vida sem abandonar meus ideais. Por muitos anos fui ativo em um sindicato em Genebra e, ao mesmo tempo, continuei contribuindo para a recuperação da memória e à luta por justiça na Argentina.

Eram dois mundos que quase nunca se misturavam. Eu podia estar lidando com uma disputa sindical em Genebra e, logo depois, trabalhando sobre a história de um/a companheiro/a desaparecido/a ou em um julgamento na Argentina.

Vivi grande parte da minha vida entre essas duas realidades. Mas, não acho que tenham existido dois Davids diferentes. Talvez, escrever o livro me permitiu ver mais claramente que tudo faz parte da mesma história.

“Eu faria de novo”

P: Olhando para trás, você tomaria a decisão de militar novamente, como fez naqueles anos?

R: Penso que faria isso de novo. Temos que levar em conta o momento histórico que estávamos vivendo. Fomos produto de enormes lutas populares e da esperança de conquistar uma sociedade mais justa e transformar as relações de poder em favor das classes populares.

Isso não significa que não cometemos erros. Nós os cometemos, e alguns deles eu não repetiria. Mas, nossos erros não justificam o genocídio nem explicam sua existência.

Estou convencido de que a decisão dos Estados Unidos e dos setores dominantes de promover e sustentar a aniquilação daquelas lutas populares em todo o continente não dependeu de nossos erros. O nível de organização, consciência e mobilização popular alcançado naqueles anos foi inaceitável para essas potências e tudo fizeram para destruí-lo.

P: Depois de tantos anos trabalhando como “carpinteiro” da Memória, o que você espera que este livro traga?

R: Espero que o livro circule amplamente, especialmente entre os jovens, e que sirva para despertar perguntas, discutir e continuar construindo a Memória.

Por isso, vou visitar diferentes cidades na Argentina para apresentá-lo e encontrar-me com leitores. E, mais adiante, gostaria de explorar a possibilidade de traduzi-lo para o francês para também compartilhá-lo na Suíça, meu país de exílio e de reconstrução pessoal.

Fonte: Brasil 247

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