Maria passa na frente e Lula vem com ela
Por Sara Goes — Brasil 247
A GloboNews se retratou depois que a jornalista Maria Cristina Fernandes afirmou, durante a programação da emissora, que setores da Igreja Católica estariam preocupados com um suposto projeto de Flávio Bolsonaro para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A informação estava errada, mas o projeto citado existe, e inclusive foi apresentado em 2007 pelo então deputado federal Victório Galli (Progressistas), foi arquivado pela Câmara dos Deputados em 2008 e não tem relação com Flávio Bolsonaro. A confusão, porém, encontrou um momento político em que Nossa Senhora voltou a ocupar um lugar importante na disputa sobre religião, identidade nacional e soberania.
O Projeto de Lei 2.623/2007 pretendia alterar a legislação que reconhece 12 de outubro como feriado nacional em homenagem a Nossa Senhora Aparecida. O texto propunha substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. Na justificativa, Galli argumentava que o Estado brasileiro é laico e não deveria possuir uma padroeira oficial. A proposta foi rejeitada na comissão responsável pela análise e acabou arquivada em agosto de 2008. Galli posteriormente ocupou o cargo de assessor especial da Presidência da República durante o governo Jair Bolsonaro.
O projeto voltou a circular porque a relação entre bolsonarismo e símbolos religiosos já vinha sendo marcada por disputas públicas. Em outubro de 2022, durante a campanha pela reeleição, Jair Bolsonaro esteve no Santuário Nacional de Aparecida no dia dedicado à santa. A presença do então presidente e de seus apoiadores provocou manifestações políticas dentro e fora do templo, com gritos de “mito” durante a programação religiosa e hostilidades contra jornalistas. No entanto, o episódio mostrou como um espaço dedicado à devoção podia ser incorporado ao cenário de uma campanha eleitoral.
Quatro anos depois, a disputa aparece com outra configuração com vários elementos envolvidos. A CNBB apresentou orientações para as eleições de 2026 defendendo o discernimento dos eleitores e destacando temas como democracia, soberania, dignidade humana e bem comum. Mesmo sem a entidade declarar apoio direto a candidato ou partido, setores bolsonaristas passaram a interpretar as orientações como uma aproximação com o presidente Lula, enquanto setores da esquerda também passaram a observar as manifestações de integrantes da Igreja a partir da disputa eleitoral.
Foi nesse ambiente que Dom Orlando Brandes (arcebispo emérito de Aparecida) falou sobre soberania em uma homilia no Santuário Nacional de Aparecida. O arcebispo emérito relacionou a escolha dos candidatos à consciência e ao bem comum e afirmou que “nenhum poder de fora” deveria mandar no Brasil. A fala ganhou circulação nas redes e colocou Nossa Senhora Aparecida ao lado de uma palavra que ocupa espaço crescente no debate político brasileiro: soberania.
É aqui que a ideia de Nossa Senhora como uma espécie de “novo Pix” pode ser compreendida. O Pix se tornou um símbolo político da capacidade brasileira de criar uma solução própria em um setor dominado por grandes empresas financeiras e tecnológicas. Nossa Senhora Aparecida pertence a outro universo, mas também pode ser mobilizada como representação de pertencimento nacional. A imagem da santa, nas redes, pode assumir o sentido de uma identidade brasileira que seus defensores apresentam como algo que deve ser protegido de interesses externos. A comparação não está entre a santa e o sistema de pagamentos, e sim na transformação de elementos diferentes em símbolos de autonomia e soberania.
Essa disputa por significado ajuda a aproximar o caso de Nossa Senhora do que vem acontecendo nas plataformas digitais. A Meta restringiu a conta utilizada pela campanha do presidente Lula para anúncios e também retirou temporariamente do Instagram o perfil da série Revelando, apresentada por Fábio Porchat, mas a conta foi restaurada posteriormente. Os episódios têm características próprias e não podem ser tratados como equivalentes à controvérsia religiosa, mas revelam uma questão comum: empresas privadas passaram a exercer enorme influência sobre aquilo que circula no espaço público digital, enquanto grupos políticos e religiosos disputam o sentido das mensagens que chegam ao público.
A questão ganha uma dimensão particular quando o símbolo em disputa é Nossa Senhora, porque sua presença na cultura brasileira ultrapassa o espaço estritamente religioso. A legislação reconhece Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil desde 1980, milhões de católicos participam de sua devoção e a imagem foi incorporada à memória de diferentes regiões do país. Ao mesmo tempo, o reconhecimento oficial convive com a Constituição de um Estado laico, que garante a liberdade religiosa e impede o estabelecimento de uma religião oficial.
Em Fortaleza, essa relação entre Nossa Senhora e a identidade pública da cidade é ainda mais antiga. O forte construído pelos holandeses em 1649 recebeu o nome de Schoonenborch. Depois da retomada pelos portugueses, passou a ser chamado de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, denominação que está na origem do nome da capital cearense. Nossa Senhora, portanto, está presente no próprio nome da cidade, em uma camada da memória urbana que antecede em séculos as disputas eleitorais atuais.
A história da imagem de Nossa Senhora da Assunção guardada durante a ditadura militar acrescenta outra dimensão a essa relação. Segundo registros sobre a preservação da peça, a imagem permaneceu escondida durante décadas porque a família responsável por sua guarda temia que ela fosse confiscada pelo Exército. Uma representação religiosa acabou protegida longe do espaço público durante um período em que o poder militar também interferia sobre aquilo que poderia ser preservado, exposto ou destruído. A história transforma a imagem em documento de uma época em que preservar um objeto religioso também significava preservar parte da memória da cidade.
A relação entre religião e política não pode ser tratada como algo homogêneo. Entre os evangélicos, existem grupos que rejeitam a veneração de Nossa Senhora e dos santos, por razões teológicas, enquanto outros participam de forma distinta no debate político. Também entre os católicos não existe uma posição única: orientações da CNBB ou declarações de padres e bispos não representam todos os fiéis.
É nesse ambiente que o episódio da GloboNews ganha uma dimensão maior. A informação equivocada sobre um projeto antigo foi corrigida, mas a velocidade com que ela se espalhou revela a força que os símbolos religiosos adquiriram na disputa política. Um projeto arquivado há 18 anos voltou a circular como se fosse uma proposta atual.
Por isso, o retorno do projeto de 2007 interessa menos pelo conteúdo de uma proposta que já foi arquivada do que pelo momento em que ele reaparece. A discussão acontece quando a religião ocupa espaço em um momento crucial da campanha eleitoral, quando a soberania se tornou uma palavra recorrente no debate político e quando plataformas privadas interferem diretamente na circulação de conteúdos. Nossa Senhora pode ser devoção religiosa, memória cultural e símbolo nacional ao mesmo tempo, contudo, essa sobreposição transformou uma antiga proposta legislativa em assunto de uma disputa política contemporânea.
Fonte: Brasil 247