O transporte público nas mãos dos barões dos ônibus: um obstáculo à permanência dos estudantes na UFRGS
Por Everton Pires, rodoviário do MRT, Giovana Pozzi — Esquerda Diário

A precarização do transporte público que viabiliza o acesso à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) não é um simples resultado de uma falha da gestão administrativa da cidade. Consiste em uma decisão política que por sua vez é expressão da lógica capitalista em sua fase de crise e decadência: o direito universal à mobilidade urbana tratado como mercadoria e fonte de acumulação privada, subjugando as necessidades sociais da classe trabalhadora e da juventude em nome da taxa de lucro dos empresários do setor de transportes.
A ofensiva patronal: A extinção da D43, demissões e o fim da função do cobrador
O desmonte da rede de transporte em Porto Alegre escancara a sede dos patrões e dos governos aliados contra os direitos históricos da classe trabalhadora. Um marco dessa ofensiva foi a extinção e o corte drástico de linhas essenciais, como a D43, que historicamente conectava regiões fundamentais à zona universitária. A narrativa da prefeitura quando excluída a linha D43 era de que as demais linhas que atendem o campus universitário da UFRGS no Vale, o 343 e o 353, dariam conta de absorver a demanda. Pura mentira. Se analisarmos a oferta das viagens feitas por ambas linhas, a dinâmica é decrescente desde 2019. Naquele ano, antes de estourar a pandemia, a oferta total de viagens diárias feitas pelo 343 era de 174, enquanto do 353 era de 163. Hoje, respectivamente, são ofertadas 120 e 130 viagens diárias das linhas mencionadas. Ou seja, não só não estão atendendo a demanda que o D43 cobria, mas também diminuíram as suas próprias.
Mas essa extinção não atinge apenas a mobilidade; enquanto afeta a população, ela opera em uma dupla frente de exploração:
- Precarização e desemprego dos rodoviários: A eliminação de linhas e a contínua substituição da função dos cobradores resultaram em demissões em massa e na intensificação brutal da jornada dos motoristas, que agora acumulam funções (dirigir e cobrar), elevando o risco de acidentes e o desgaste físico e mental da categoria.
- Ataque à classe trabalhadora organizada: A ofensiva contra os postos de trabalho dos rodoviários faz parte de um plano sistemático de desmobilização sindical e barateamento da força de trabalho, aumentando o lucro das empresas concessionárias que seguem subsidiadas com dinheiro público, acumulando margens bilionárias às custas do erário público e do suor do trabalhador.
O cerco ao Meio Passe Estudantil e o encarecimento da vida
O direito à educação pública, gratuita e de qualidade — princípio que deveria ser inegociável para a existência da UFRGS — torna-se uma letra morta quando o acesso material à universidade entra no cálculo dos lucros dos patrões dos ônibus de Porto Alegre e quando este vira prioridade e uma política de governo. O ataque brutal e covarde ao meio passe estudantil, somado ao aumento contínuo e abusivo das tarifas e à diminuição das linhas, funciona como um verdadeiro mecanismo de exclusão de classe quando olhamos pro ensino superior.
Ao encarecer o transporte e burocratizar ou restringir o passe estudantil, a burguesia e o Estado impõem uma barreira econômica direta. Trata-se de um corte orçamentário disfarçado de política tarifária: empurra-se o estudante pobre e trabalhador para a escolha dramática entre pagar a passagem ou garantir a subsistência básica, pavimentando o caminho para a elitização e a expulsão silenciosa dos filhos da classe trabalhadora da universidade, e o consequente aumento da evasão.
A UFRGS isolada: Insegurança, tempos de espera e o transporte como ameaça
Nesse cenário de terra arrasada, o transporte público deixa de ser um meio de circulação e passa a configurar um elemento ativo de ameaça e violência contra a comunidade universitária.
A drástica redução de frotas e o consequente aumento do tempo de espera nas paradas expõem estudantes e trabalhadores a situações crônicas de vulnerabilidade e insegurança pública nos entornos dos campi da UFRGS (como o Vale, o Centro e a Saúde). Paradas desertas e escuras, ônibus com ambiente livre para assédios e furtos sem a presença do cobrador, com horários imprevisíveis transformam o trajeto universitário em uma provação diária.
A prefeitura de Porto Alegre, com Melo sendo reconhecido cúmplice dos barões do transporte, responde a essa insegurança com mais repressão ou silêncio omisso, enquanto os empresários mantêm suas margens garantidas à custa da integridade física e psicológica de quem estuda e trabalha. O transporte público urbano, gerido sob a égide do lucro, converte-se em um fardo e em um fator de exclusão e perigo.
A necessidade de uma saída anticapitalista e uma aliança de estudantes e trabalhadores: lutar pela volta do D43, do meio passe estudantil e por uma Carris pública controlada pelos trabalhadores
A luta contra a precarização do transporte e em defesa da UFRGS não pode se limitar a apelos morais ou acordos de gabinete com gestões municipais e patronais comprometidas com o capital. É preciso se enfrentar com os interesses do empresariado que controla o transporte público da cidade. Para isso, é urgente unificar a classe trabalhadora rodoviária e o movimento estudantil em um bloco único de enfrentamento. Imaginemos a força que teria todos rodoviários, das distintas garagens e empresas existentes na cidade, junto dos estudantes da UFRGS, da PUCRS e também estudantes secundaristas, unificando suas demandas e lutando nas ruas. Não precisamos começar do zero, podemos seguir o exemplo da histórica greve dos rodoviários de 2014 e das greves contra a privatização da Carris e contra a extinção do cargo do cobrador, quando os estudantes da juventude Faísca Revolucionária se somaram aos trabalhadores rodoviários nos portões das garagens para unificar a luta e batalharam para que o conjunto do movimento estudantil também ali estivesse.
A defesa da reinstalação da linha D43, da manutenção e ampliação irrestrita do meio passe estudantil, do fim da dupla função e da recontratação dos demitidos com a volta dos cobradores passa também pela estatização das empresas de ônibus. Para isso, é necessário unidade da luta nas bases, arrancando o sindicato das mãos dos amigos da patronal, assim como os estudantes precisam se organizar com assembleias, exigindo de seus Centros Acadêmicos que construam essa mobilização, pressionando o DCE e a Reitoria a se somarem a essa luta, a exemplo da luta pela conquista da linha D43 no começo do ano de 1996.É um grande exemplo nesse sentido o abaixo assinado construído pelo Centro Acadêmico da História da UFRGS em conjunto com outros Centros Acadêmicos pela volta do D43. O transporte público deve ser retirado das mãos dos tubarões do setor e colocado sob controle operário e popular, gerido democraticamente por quem o produz e por quem o utiliza, garantindo passe livre total para estudantes e desempregados e financiamento integral através da taxação das grandes fortunas e dos lucros do capital.
Fonte: Esquerda Diário