Fundo financiado pelo filho de Trump mira terras raras em megaprojeto no sul de Minas Gerais
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – Uma empresa norte-americana financiada por um fundo que tem como sócio Donald Trump Jr., filho do presidente dos Estados Unidos, está estruturando uma cadeia internacional de fornecimento de terras raras a partir do Projeto Caldeira, um dos maiores empreendimentos do setor no Brasil, situado no sul de Minas Gerais, segundo a Folha de São Paulo.
A mineradora australiana Meteoric Resources, responsável pela exploração na região, já enviou amostras de minério extraído no Brasil para a companhia canadense Ucore Rare Metals. O objetivo da Ucore é processar o material e abastecer uma fábrica de ímãs nos Estados Unidos que conta com o investimento de Donald Trump Jr.
A rota dos minérios entre Minas Gerais e os EUA
A operação envolve diferentes etapas de processamento e refino espalhadas por três países. A extração inicial e a produção do concentrado (carbonato misto de terras raras) ocorrem na planta piloto do Projeto Caldeira, em solo mineiro. Em seguida, o material é enviado à Ucore, que fará a separação dos elementos e a transformação em óxidos industriais na Louisiana (EUA).
Por fim, esses óxidos serão destinados à Vulcan Elements, fabricante localizada na Carolina do Norte que produz ímãs para drones, satélites, equipamentos militares, semicondutores e veículos elétricos. A ligação política surge a partir da 1789 Capital, fundo do qual Donald Trump Jr. é sócio, que investiu na Vulcan Elements em agosto de 2025.
Em março de 2026, a Vulcan e a Ucore firmaram um acordo para testes de viabilidade, visando iniciar o fornecimento comercial constante a partir de 2027. Além do aporte privado, a Vulcan conta com um compromisso condicional de empréstimo de US$ 620 milhões (cerca de R$ 3,22 bilhões) concedido pelo Pentágono em 2025. A 1789 Capital, o governo norte-americano e Trump Jr. negam interferência política na concessão do crédito.
Resultados da planta piloto e dimensão do projeto
Em junho deste ano, a Meteoric Resources informou ao mercado financeiro australiano que sua unidade piloto em Minas Gerais processou 43 toneladas de minério de Caldeira, gerando mais de 200 quilos de concentrado de terras raras. Parte dessa amostra foi entregue para análise de qualidade à Ucore. A mineradora considerou os resultados “excepcionais”, registrando um índice médio de extração de 71% dos elementos críticos necessários para a fabricação de ímãs.
O Projeto Caldeira abrange 78 títulos de pesquisa e mineração distribuídos por 19,2 mil hectares (cerca de 192 quilômetros quadrados) nos municípios de Andradas, Caldas e Poços de Caldas — região próxima à área de proteção ambiental da Pedra Branca. A empresa estima um potencial exploratório de 1,6 bilhão de toneladas de material.
A meta da Meteoric é operar por mais de 20 anos com uma média anual de produção de 12,5 mil toneladas de óxidos de terras raras. Deste montante, pelo menos 3 mil toneladas por ano seriam destinadas ao contrato com a Ucore. Atualmente, a operação aguarda a concessão da Licença de Instalação para iniciar a fase comercial, já tendo obtido a Licença Prévia do Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais (Copam) em dezembro de 2025.
Nova legislação brasileira e controle estatal
O avanço de capitais estrangeiros sobre as reservas nacionais acelerou a aprovação de leis de proteção estratégica no Brasil. O acordo preliminar entre a Meteoric e a Ucore antecede a sanção, efetuada pelo presidente Lula (PT), da Lei nº 2.780/2024, que instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras.
A nova legislação concede ao governo federal o poder de analisar e vetar acordos internacionais de fornecimento que representem riscos à segurança econômica ou geopolítica do país. Quando a Meteoric e a Ucore formalizarem um contrato definitivo de compra e venda, o instrumento poderá ser submetido à revisão das autoridades brasileiras.
A urgência do Palácio do Planalto em aprovar a matéria legislativa ocorreu após alertas de inteligência apontarem a ampliação da presença estrangeira, sobretudo de grupos norte-americanos, em quatro grandes projetos de terras raras no Brasil. O caso mais adiantado é o do Projeto Serra Verde, em Goiás, que possui o próprio governo dos Estados Unidos entre seus controladores.
Contexto geopolítico e articulação política
O interesse norte-americano no projeto mineiro reflete a corrida global para reduzir a dependência da China, país que detém o domínio quase hegemônico sobre o refinamento global de terras raras. Durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) realizada nos Estados Unidos, o senador Flávio Bolsonaro (PL) declarou que o Brasil representava a solução para os norte-americanos quebrarem essa hegemonia chinesa. Um memorando elaborado por interlocutores do parlamentar propôs o alinhamento estratégico formal entre os dois países na cadeia de minerais críticos.
Procurados pela Folha de São Paulo para comentar as negociações e o impacto da nova legislação brasileira, representantes da Meteoric, Ucore, Vulcan Elements, 1789 Capital, Donald Trump Jr. e Flávio Bolsonaro não responderam aos pedidos de posicionamento até o fechamento da reportagem.
Fonte: Brasil 247