E o trabalhador, onde está nessa eleição?

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Por Julimar Roberto — Brasil 247

Faltam poucos dias para as eleições. A televisão fala de pesquisa, as redes sociais falam de pesquisa, os candidatos falam uns dos outros. Tem debate, entrevista, acusação, resposta, vídeo cortado, frase fora de contexto, estratégia eleitoral, marqueteiro analisando marqueteiro e comentarista analisando o que o marqueteiro analisou. É assunto que não acaba mais.

Mas, no meio de tanto barulho, faço uma pergunta que parece simples, embora talvez não seja: e o trabalhador, onde está nessa eleição?

Não estou perguntando em quem ele vai votar. Não é sobre isso. Também não estou falando daquele trabalhador de propaganda eleitoral, que aparece de capacete, uniforme impecável e sorriso no rosto, convenientemente colocado diante de uma fábrica ou apertando a mão do candidato. Estou falando de quem enfrenta a labuta de verdade, na vida real, todos os dias.

Falo dos homens e mulheres que acordam quando ainda está escuro, da mãe que deixa o filho na creche e atravessa a cidade de ônibus para chegar ao trabalho, do comerciário que passa o sábado inteiro em pé depois de uma semana exaustiva, da trabalhadora do setor de serviços que chega em casa cansada e encontra outra jornada esperando por ela. Falo do motorista, da balconista, da operadora de caixa, do vigilante, da auxiliar de limpeza, do entregador, da atendente, do trabalhador terceirizado. Gente que sabe o preço da passagem, do supermercado e do aluguel não porque foi informado por sua assessoria, mas porque precisa pagar essas contas.

São milhões de brasileiros e brasileiras cuja vida será diretamente atingida pelas decisões tomadas depois que as urnas forem fechadas. E é justamente por isso que me parece estranho que, em uma eleição na qual tanto se fala sobre o futuro do país, tão pouco se fale sobre quem mantém essa nação funcionando todos os dias.

No dia 4 de outubro, mais de 158 milhões de brasileiros e brasileiras estarão aptos a participar do primeiro turno das Eleições Gerais de 2026. Serão escolhidos presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais. Ou seja, estaremos elegendo aqueles que decidirão sobre jornada, salário, aposentadoria, negociação coletiva, terceirização, pejotização, proteção social, emprego e direitos. São temas que passam pelo Congresso, pelo governo, pelas leis, pelo orçamento público e pelas decisões políticas.

Ainda assim, muitas vezes parece que a eleição acontece em um universo paralelo, como se os grandes assuntos da política fossem separados da vida de quem acorda cedo para trabalhar.

Veja o emprego, por exemplo. O Brasil acumulou 972.203 novos empregos formais entre janeiro e julho de 2026 e chegou a mais de 48 milhões de vínculos formais de trabalho. É um dado importante e que merece ser reconhecido como resultado das políticas econômicas e trabalhistas do governo Lula.

Mas a discussão precisa ir mais além.

Que emprego é esse? Quanto paga? Quantas horas por semana essa pessoa trabalha? Quanto tempo leva para chegar ao serviço? Consegue acompanhar o crescimento dos filhos? Consegue estudar? Consegue descansar? Consegue adoecer sem entrar em desespero? Consegue planejar o futuro?

Durante muito tempo fomos ensinados a fazer uma única pergunta sobre o mercado de trabalho: “Tem emprego?”. Mas aprendemos a querer saber mais. Porque emprego importa, mas a qualidade desse emprego também importa. O salário importa, a jornada importa, a segurança importa, o descanso importa e, sobretudo, importa o tempo que sobra para viver.

É justamente por isso que o debate sobre a escala 6×1 ganhou tanta força. A discussão deixou de ser apenas sobre trabalhar ou não trabalhar e passou a ser também sobre quanto da própria vida uma pessoa precisa entregar ao trabalho para conseguir sobreviver. 

E esse é um dos pontos em que a eleição encontra a vida real.

Porque quem vai decidir sobre esse e outros assuntos é justamente aqueles que receberão o nosso voto. 

O candidato em quem você pretende votar sabe o que uma jornada exaustiva significa para o corpo, para a família e para o tempo de vida? Você já pensou nisso?

Existe uma diferença entre saber do problema por ouvir falar e passar por ele na vida. Existe uma diferença entre discutir transporte público e depender dele para chegar ao trabalho; entre falar sobre salário e esperar o quinto dia útil que nunca chega; entre analisar a jornada de trabalho e descobrir, na prática, que uma única folga mal dá conta de recuperar o corpo e colocar a vida doméstica em ordem.

É por isso que acredito que precisamos ampliar a conversa sobre representação.

O trabalhador não pode aparecer na eleição apenas como eleitor. Não pode ser lembrado somente porque seu voto é necessário para eleger alguém. Não pode servir apenas de figurante para preencher uma propaganda eleitoral, apertar a mão de um candidato, carregar uma bandeira ou compor uma fotografia bonita de campanha.

O trabalhador também precisa estar do outro lado da urna.

Precisa poder disputar uma eleição, ocupar uma cadeira, participar das comissões, subir à tribuna, apresentar propostas e votar as leis que vão interferir justamente na vida de quem trabalha.

Precisamos valorizar a experiência.

Quem viveu o mundo do trabalho conhece dimensões dessa realidade que nenhum relatório consegue traduzir completamente. Essa experiência também é conhecimento político e merece ocupar espaço nas instituições.

Na época da eleição, o trabalhador aparece. Aparece no discurso, no programa eleitoral, na fotografia, no abraço dentro da fábrica, no mercado, na feira, na porta do comércio. Depois da eleição, porém, é preciso perguntar se ele continuará aparecendo como presença política.

A eleição de Lula mostra como essa questão pode ser importante. Um presidente que traz em sua própria história a experiência de operário alicerçou sua trajetória política na defesa dos direitos trabalhistas e no combate às desigualdades sociais. Mas precisamos de mais Lulas ocupando o Congresso Nacional, pois nem mesmo um presidente governa sozinho. A discussão da escala 6×1 é um exemplo concreto de como uma pauta que afeta diretamente milhões de trabalhadores e trabalhadoras depende do interesse de deputados e senadores. 

Por isso, talvez a pergunta desta eleição deva ser quem está chegando na política vindo do mundo do trabalho.

Quem são os trabalhadores que decidiram disputar o poder? Quantos estão se candidatando? Quantos elegeremos? Quantos conseguem transformar sua experiência de vida em representação política?

Democracia não deveria significar apenas escolher quem vai falar por nós. Também deveria significar criar condições para que diferentes partes da sociedade possam falar por si mesmas.

Fonte: Brasil 247

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