Organic Festival: em Trancoso, a comida vira conversa sobre o futuro

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Por Ricardo Preto — Seu Dinheiro

Durante cinco dias, até domingo (27), Trancoso, no sul da Bahia, vira um grande fórum a céu aberto. O Organic Festival, que começou nesta quarta-feira (23), ocupa hotéis, restaurantes, casas no Quadrado Histórico e uma reserva de Mata Atlântica com 27 atividades e 54 convidados.

Há jantares assinados por alguns dos chefs mais celebrados do país, mas quem olha só para o cardápio perde o principal. O festival usa a mesa como ponto de partida para uma pergunta maior: que tipo de turismo um lugar como Trancoso aguenta, e qual ele merece?

Trancoso, aliás, é um dos destinos mais desejados do litoral brasileiro, e essa fama tem tido seu custo. A especulação imobiliária avança e a pressão sobre a Mata Atlântica aumenta a distância entre quem visita e quem vive no vilarejo. O Organic Festival nasceu justamente da tentativa de fazer o turismo de alto padrão olhar para o território que o sustenta. Pelo sexto ano consecutivo, a curadoria socioambiental é da Conservação Internacional.

Organic Festival
Organic Festival – Imagem: Divulgação

O que está em discussão no festival

A programação de debates é o coração da edição. Na quinta-feira (24), a mesa “Turismo que Regenera” reúne gestores e empresários do setor para discutir um modelo que vai além do sustentável: em vez de apenas reduzir danos, o turismo regenerativo tenta devolver ao lugar mais do que tira.

Nos dias seguintes, as conversas passam pela pesca e pela saúde dos oceanos, pela conservação da floresta em pé, pelo papel das abelhas na biodiversidade e pela etnobotânica, o conhecimento tradicional sobre as plantas.

Um dos encontros mais simbólicos junta Tukumã Pataxó ao designer e ativista Pedro Inoue para falar de futuro e território. O povo Pataxó vive nessa região da Bahia muito antes de ela virar destino turístico, e dar a ele um lugar central num festival frequentado pelo público de luxo diz muito sobre a proposta do evento.

A América Latina na mesa

A presença estrangeira desta edição também tem um sentido. A peruana Pía León, do Kjolle, em Lima, é uma das cozinheiras que mais projetaram no mundo a ideia de cozinhar a partir da biodiversidade e dos ecossistemas locais.

Em Trancoso, ela vem conversar sobre como a paisagem molda o prato. Enquanto isso, o colombiano Jaime Rodríguez, do Celele, de Cartagena, traz a pesquisa sobre os ingredientes do Caribe colombiano. Os dois reforçam uma conversa que atravessa o continente, a de que a alta gastronomia latino-americana ganhou relevância justamente quando passou a olhar para dentro.

Alta cozinha e cozinha de casa, lado a lado

Roberta Sudbrack, madrinha do evento desde a primeira edição, faz seu jantar tradicional no Uxua Maré. Morena Leite, do Capim Santo, divide a cozinha com Kaywa Hilton, do Boia, de Salvador. Além disso, José Solon, do Gero, e Fernando Bouzan, do Rosewood São Paulo, também estão na programação.

O mesmo festival, porém, abre espaço para um caruru tradicional feito por Lídia Sá, da Lina Cozinha, servido de graça no domingo, e entrega o encerramento à baiana Ieda de Matos, dedicada à cozinha do sertão. A mensagem, afinal, é que a comida de terreiro, de feira e de sertão merece o mesmo palco da cozinha de hotel cinco estrelas.

Por que isso importa para além de Trancoso

Festivais gastronômicos costumam ser vitrines, pois reúnem nomes famosos, vendem experiências e se encerram. O Organic Festival tenta outro caminho. É um projeto sem fins lucrativos, com 16 das 27 atividades gratuitas, e envolve 22 hotéis e restaurantes da região junto com produtores e comunidades locais.

Por acontecer agora em setembro, fora da alta temporada, o evento ajuda a movimentar a economia do vilarejo. Na edição passada, por exemplo, reuniu quase 4 mil pessoas.

O modelo aponta uma saída para destinos que vivem do turismo e correm o risco de ser consumidos por ele. A proposta é transformar o visitante em alguém que entende o lugar, e não apenas o usa.

Organic Festival
Organic Festival – Imagem: Divulgação

Para quem estiver por lá

Os jantares e almoços assinados precisam ser reservados. Os debates são gratuitos, com inscrição prévia, nas casas do festival no Quadrado. No sábado (26), a partir das 15h, o gramado do Quadrado recebe um piquenique aberto com chefs e produtores.

No domingo (27), o caruru de Lídia Sá é servido ao meio-dia, e o encerramento é às 18h, no Uxua Praia Bar, com a comida de Ieda de Matos e show de Céu, também gratuitos. Todas as noites, o São João Batista, do chef Paulo Sitolini, recebe um chef convidado para uma noite de pizza.

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Fonte: Seu Dinheiro

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