Música de Maluco
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Formado por pacientes psiquiátricos, o grupo Harmonia Enlouquece lança o quinto álbum e celebra um quarto de século
Referência maior da luta pela humanização do tratamento psiquiátrico no Brasil ao propor – e colocar em prática – a substituição de eletrochoques, lobotomias e confinamento por arte, interação social e atividades ao ar livre, a psiquiatra Nise da Silveira costumava dizer que o processo criativo, por si só, já é terapêutico. Vinte e cinco anos após a aprovação da lei que instituiu a Reforma Psiquiátrica no País, obra ainda inconclusa, uma iniciativa artística levada a cabo por médicos e usuários do sistema de saúde mental prova a exatidão do ensinamento da mestra. Também comemorando um quarto de século de vida, o grupo Harmonia Enlouquece, formado por pacientes em tratamento psiquiátrico, lançou em agosto seu quinto álbum, O Quinto dos Infernos, com um show que reuniu familiares e fãs da banda no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira.
Não é exagero dizer que o Harmonia Enlouquece tem fãs. As 12 faixas inéditas do álbum consolidam a trajetória do grupo, que chegou a 65 músicas gravadas ao longo desses 25 anos. À frente do projeto está o psiquiatra Francisco Sayão, conhecido como Dr. Kiko, diretor-geral do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ), unidade da Secretaria Estadual de Saúde. Com quatro décadas de trabalho no setor e vencedor do Prêmio Nise da Silveira de Boas Práticas e Inclusão em Saúde Mental, o médico é também violonista e um dos compositores do Harmonia Enlouquece desde a sua criação: “O paciente, muitas vezes, não era protagonista do seu próprio tratamento, que atendia à necessidade da família, de vizinhos e até mesmo de patrões”, lembra.
Com o grupo, um novo entendimento foi alcançado: “Geralmente, quando falamos de algum projeto de saúde mental, ele é protagonizado por um médico, psicólogo ou professor. Com o Harmonia, não”, diz Kiko. Ao longo desses 25 anos, 75 pacientes já passaram pelo grupo. “São pessoas que em algum momento quiseram estar ali com a gente, faziam letras ou tocavam algum instrumento. É interessante estarmos abertos para as pessoas deixarem sua colaboração e seguirem suas vidas.”
“Há 25 anos, o Harmonia toca e, há 25 anos, o Hamilton não se interna”, diz Dr. Kiko
Nesse universo de participantes do Harmonia destaca-se de forma absoluta um de seus fundadores, Hamilton de Jesus Assunção. Aos 61 anos, em tratamento desde os 19, o talentoso Hamilton é vocalista e compositor da banda. No palco, esbanja carisma e brinda o público com uma bela voz. Para quem o assiste, é impossível não fazer associação com outro usuário do sistema de saúde mental, o artista plástico Arthur Bispo do Rosário, símbolo nacional do desafio ao estigma da loucura por meio da criação artística. “Eu curto música desde criança. Mas só fui entrar em processo de compor e cantar, quando fui para o CPRJ”, diz Hamilton, sempre acompanhado por seu cãozinho, Antares Tavares.
O artista lembra quando foi chamado pela primeira vez para fazer música pelo psicólogo e musicoterapeuta Sidney Dantas, que deu início ao Harmonia Enlouquece. “Eu ficava na pintura, no desenho, não tinha música. E aí o Sidney chegou e perguntou quem queria participar de sua oficina de música. Ele pegava os pacientes, botava um quadro, um giz na mão, escrevendo várias coisas. Um falava uma palavra aqui, outro falava um montão de palavras ali. Aí eu consegui unir aquilo ali e musicar.” O que começou quase como uma brincadeira virou um hábito saudável. “Comecei a fazer música assim, do nada. Às vezes, eu estava andando, via um papel velho e escrevia. Às vezes, estava no banheiro, pegava papel higiênico, escrevia”, brinca Hamilton.
Doutor Kiko lembra que o Harmonia já nasceu revolucionário na sua estreia, em 2001, em pleno Dia Mundial da Saúde, quando foi chamado para se apresentar na Lagoa Rodrigo de Freitas em um evento sobre saúde mental chamado “Cuidar Sim, Excluir Não”. “Nós tínhamos três músicas e uma delas, Sufoco da Vida, falava sobre os remédios. Uma pessoa da produção nos chamou e falou para evitarmos tocar aquela música. Mas, como era a melhor música, decidimos começar por ela”, conta. Já Dantas ressalta que, em um evento que pregava a inclusão, o grupo estava sendo excluído. “Nós cantamos, mas não nos deixaram participar do CD que foi gravado. Depois gravamos nosso primeiro CD”, lembra.
O paciente muitas vezes não era protagonista do seu próprio tratamento, que atendia à necessidade da família, de vizinhos e até mesmo de patrões
Naquela tarde foi revelado o potencial de comunicação de Hamilton e do grupo. “Subimos logo depois do Danilo Caymmi, uma responsabilidade grande. Mas, no palco, o Hamilton cresceu. Quando falou do Haldol (um antipsicótico), o público se reconheceu e se surpreendeu com o nome do remédio que muitos escondiam que tomavam (risos). Deu a todos um certo alívio, uma identificação de que era possível também falar aquelas coisas. Ali estava escancarado que sem o Hamilton a gente não ia chegar tão perto das pessoas.” Dantas complementa, também com bom humor: “Quando o Hamilton falou do Haldol, todo mundo ali já tinha tomado, prescrito ou obrigado alguém a tomar. Ninguém podia falar disso e, de repente, o cara estava falando. Aí eu percebi que o humor é o que colocava esses usuários em outra localização em relação ao próprio sofrimento”.
O lançamento de O Quinto dos Infernos foi saudado por outros personagens de proa na utilização de um modelo de atenção baseado na arte, na escuta e no protagonismo dos pacientes, em sintonia com os princípios da Reforma Psiquiátrica. “O Harmonia Enlouquece é um orgulho para todos nós do campo da saúde mental. Ver essa efeméride coincidindo com o ano da promulgação da Lei 10.216 é muito interessante. É um projeto cultural, artístico e musical que se comunica para fora da bolha da saúde mental”, diz Alexandre Wanderley, cofundador e coordenador do coletivo carnavalesco Tá Pirando, Pirado, Pirou. Coordenador do também pioneiro grupo Cancioneiros, formado no Instituto de Psiquiatria da UFRJ, Vandré Vidal afirma que o Harmonia é um bem valioso: “Quando surgiu, botou o nível lá em cima”. Indagado sobre os benefícios terapêuticos das atividades musicais, Kiko responde: “Há 25 anos, o Hamilton não se interna. Isso é uma evidência de bem-estar. Em vez de ter identidade só de maluco, ele também é um cantor e compositor que tem o que falar. É uma identidade que ele tem e da qual se orgulha. Se sente completo como ser humano.” •
Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Música de Maluco’
Maurício Thuswohl
Repórter de CartaCapital no Rio de Janeiro
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Fonte: Carta Capital