O mito como arsenal da humanidade: como aprendemos a pensar antes de aprender a transformar
Por Alexandre Machado Rosa — Brasil 247
Por Alexandre Machado Rosa – Em tempos de eleições, a verdade aparece ainda mais nebulosa. O marketing político busca esconder ou modificar os fatos, apresentando a realidade sempre como convém aos interesses de quem detém o capital e a mídia. E ela parece ficar ainda mais distante. Manipular números, distorcer contextos e fabricar narrativas nos faz refletir sobre a tênue fronteira entre mito e verdade. Afinal, desde que o ser humano começou a contar histórias sobre o início de tudo, aprendemos que toda narrativa é também uma forma de poder: quem conta o mito, define o mundo. Está parece ser a regra principalmente da extrema direita.
Lembremos que para o mito, no princípio, era tudo caos. Ou, pelo menos, é o que contam os antigos mitos sobre o mundo. Na Grécia, era chamado de Khaos, o vazio primordial de onde emergiram Gaia, Urano e tudo que vem depois a partir dos chamados deuses primordiais. Já os babilônios acreditavam que tudo começou com uma luta cósmica entre deuses: Marduk, o herói, rasga o corpo de Tiamat, a deusa do caos, e com suas partes cria o céu e a terra. Por sua vez, os hebreus criam na força da palavra. Eles afirmam que Deus disse “faça-se a luz”. E a luz, obediente, fez-se. E fez o homem à sua imagem e semelhança.
Já no berço de Lucy, o esqueleto de 3,2 milhões de anos, na África Subsaariana, os iorubás contam que Obatalá desceu do céu com um punhado de terra, uma galinha de cinco dedos e uma concha, e foi assim que a terra se espalhou sobre as águas. A nação dos Tupinambás diz que Monã, o espírito criador, moldou o mundo a partir do nada e, depois de ver que os homens não lhe davam ouvidos, destruiu tudo com fogo.
Não são só histórias que ajudam a criação de filmes e coleções literárias. São belas, potentes, às vezes revestidas de muita crueldade. Mas, acima de tudo, necessárias. Porque antes mesmo de existir ciência, o telescópio ou o acelerador de partículas, já existia essa necessidade ardente de entender o mundo, de preencher o escuro com alguma centelha de sentido e de explicar os fenômenos mesmo que prosaicos da vida cotidiana.
Hoje, quando olhamos para o céu, já não imaginamos deuses brigando, mas galáxias se afastando, átomos se condensando, poeira estelar se agrupando em planetas. A ciência, com sua paciência teimosa e seu olhar meticuloso, construiu outra narrativa para o início de tudo: o Big Bang. Mas é crucial lembrar que a ciência não brotou do vazio. Ela só pôde ser imaginada porque o mito, antes dela, havia ensinado a humanidade a pensar o invisível. A imaginar o porquê das coisas.
Não houve som, nem explosão no sentido comum. Foi uma expansão vertiginosa, há cerca de 13,8 bilhões de anos, de um ponto de densidade e temperatura infinitas. A matéria nasceu do vazio, o tempo começou a contar, e o universo, que antes era nada, ou o caos, virou tudo. Mais tarde, em algum braço espiral da galáxia, uma poeira cósmica se juntou, virou planeta, e num canto azul surgiram moléculas autorreplicantes, vida, gente. Nós, a humanidade e, com ela, a razão.
A razão é bela também. Talvez não tão poética quanto um deus moldando o homem do barro, mas, de certo modo, a ciência também conta histórias. Usa gráficos em vez de metáforas, fórmulas e conceitos teóricos em vez de rimas, mas continua sendo um esforço de compreensão. E, às vezes, até ela recorre a mitos para nomear seus mistérios: “partícula de Deus”, buracos negros, matéria escura, conceitos quase mágicos, ainda que descritos por equações. Reconhecer isso não diminui a ciência, ao contrário: a humaniza, mostrando que ela também é uma narrativa, ainda que a mais rigorosa que já construímos é a que mais se aproxima da noção de “verdade” e não uma desculpa para mentir e agredir como o fazem a extrema direita por meio de governos como o de Donald Trump ou o estado sionista de Israel.
Não se deve, portanto, tratar os mitos como meras “explicações primitivas” ou “ciência que deu errado”. O mito foi o primeiro e mais fundamental salto da consciência humana. Uma forma necessária de apropriação simbólica do mundo num estágio em que a humanidade ainda não dominava materialmente as forças da natureza. Foi a imaginação mitológica que forjou o pensamento complexo, ensinando nossa espécie a lidar com o abstrato, a conceber a temporalidade, a estabelecer relações de causa e efeito e a imaginar o que os olhos não podiam ver. Os deuses, os monstros e as cosmogonias foram os primeiros modelos teóricos da humanidade; o mito foi o arsenal cognitivo que nos preparou para, milênios depois, decifrar a radiação cósmica.
No fundo, mito e ciência não são inimigos, mas momentos dialéticos do mesmo processo de desenvolvimento humano. Um nasceu do espanto diante da natureza indomável; o outro, da capacidade de transformá-la. Ambos filhos da mesma inquietação humana: de onde viemos, para onde vamos e, afinal, por que tudo isso existe?
A ciência não suprime o mito; ela o supera, conserva sua função de compreensão do mundo, mas o transcende através do domínio material das forças naturais e da intervenção e transformação da natureza.
Entre o barro de Obatalá e a radiação cósmica de fundo, entre o Gênesis e o telescópio James Webb, seguimos, como sempre, inventando mundos para suportar o mistério de estarmos neles. A ciência não matou o mito; ela apenas o traduziu para outra linguagem. E em tempos de negacionismo e fundamentalismos, lembrar dessa filiação histórica é um ato de resistência: contra a arrogância de quem acha que a ciência dispensa a imaginação, e contra a ingenuidade de quem acha que o mito pode substituir o método. O pensamento complexo, em sua essência mais profunda, continua sendo um ato de criação, mas agora, com os pés firmes na história concreta.
Como afirmou Aristóteles, a verdade é a adequação entre o pensamento e a linguagem na realidade dos fatos, o que muda conforme a perspectiva filosófica.
Para Karl Marx, a verdade não é uma adequação abstrata entre ideia e coisa, mas resultado prático-histórico da atividade humana sobre o mundo e sua transformação.
Fonte: Brasil 247