“Esse cara é um louco”, teria dito Isabelle antes da queda de prédio em Fortaleza
Por Laís Gouveia — Brasil 247
247 – Um áudio atribuído à estudante de Direito Isabelle Caracristi, de 22 anos, passou a integrar a investigação sobre possível violência psicológica no Ceará após a jovem relatar a familiares episódios de ciúmes e comportamento agressivo do namorado, João Munhoz Neto, de 34 anos, horas antes de morrer em Fortaleza.
Segundo a CNN Brasil, a gravação foi encaminhada a um primo e a outros parentes em 13 de setembro, mesmo dia da morte de Isabelle. O material agora é analisado pela Polícia Civil do Ceará no inquérito que apura as circunstâncias do caso e a possibilidade de induzimento ou instigação ao suicídio.
Na mensagem, Isabelle se refere diretamente ao namorado e afirma: “Esse cara é um louco”. Em outros momentos do áudio, ela também o chama de “um louco” ao descrever situações ocorridas durante o relacionamento.
A estudante relata que não conseguia ir a uma farmácia sem provocar ciúmes no namorado. Segundo Isabelle, quando outras pessoas olhavam para ela, João “olhava feio” e, em algumas ocasiões, “dava murro na mesa”.
A autenticidade e o contexto integral do áudio ainda precisam ser confrontados pelos investigadores com o arquivo original e com os demais elementos reunidos durante a apuração policial.
A nova evidência surge enquanto a Polícia Civil tenta esclarecer os acontecimentos que antecederam a morte da estudante. De acordo com a investigação, Isabelle também enviou mensagens à mãe naquela noite. Em uma delas, escreveu “mãe, te amo”.
A cronologia levantada pela polícia aponta que João deixou o condomínio onde Isabelle estava no início da noite. Posteriormente, a estudante entrou sozinha no elevador e foi até o rooftop do prédio, no 23º andar. Durante o período em que permaneceu no local, continuou utilizando o celular e trocando mensagens.
O aparelho estava com Isabelle no momento da morte e foi recolhido para perícia. A Polícia Civil informou que o material foi preservado de acordo com os procedimentos de cadeia de custódia.
Nesta quarta-feira (23), a Perícia Forense do Ceará (Pefoce) apresentou as conclusões de 11 laudos elaborados sobre o caso. Os peritos classificaram a dinâmica da morte como uma “precipitação voluntária”, expressão técnica utilizada para indicar que a própria estudante se lançou do edifício.
A perícia informou não ter identificado sinais de luta corporal no apartamento, agressões físicas anteriores, lesões de defesa ou indícios de esganadura. Também foram analisados quase 700 arquivos de vídeo das câmeras do condomínio, sem que fossem encontrados sinais de adulteração.
O rooftop, porém, não possuía câmera de segurança. Por isso, não há registro em vídeo do momento da queda.
Os exames toxicológicos não detectaram álcool ou drogas ilícitas. Foi encontrada apenas a substância carisoprodol, medicamento cujo uso anterior já havia sido informado pela família.
Apesar da conclusão pericial sobre a dinâmica da queda, a investigação criminal continua. João Munhoz Neto está preso preventivamente desde terça-feira (22). De acordo com a Polícia Civil, a medida foi solicitada para preservar a instrução criminal e garantir a aplicação da lei penal.
Os investigadores apuram se Isabelle era submetida a comportamentos de controle, isolamento ou outras formas de violência psicológica durante o relacionamento e se alguma dessas condutas pode ter influenciado os acontecimentos que antecederam sua morte.
A polícia também analisa as atitudes de João após o episódio. Segundo os investigadores, ele teria voltado ao condomínio para procurar o celular da estudante nas proximidades do local onde ela foi encontrada e orientado funcionários da portaria a impedir a entrada de familiares.
A Polícia Civil afirma ainda que o apartamento foi limpo depois da morte e posteriormente colocado à venda. João teria recolhido seus pertences, desativado perfis em redes sociais e deixado de fornecer meios de contato aos investigadores. O celular dele foi apreendido e permanece sob análise.
A família de Isabelle já havia relatado preocupação com o relacionamento. A mãe da estudante, Isorlanda Caracristi, afirmou que era contrária ao namoro e disse ter percebido mudanças no comportamento da filha depois do início da relação, em julho, quando Isabelle passou a estagiar no escritório em que João trabalhava.
Isorlanda descreveu o relacionamento como controlador e obsessivo e afirmou que a filha começou a se afastar da família. Segundo ela, João também teria pedido o cartão de crédito da estudante para pagar uma cirurgia.
A mãe relatou ainda não ter sido comunicada sobre a morte da filha naquela noite. Ela afirmou que soube do ocorrido apenas no dia seguinte, quando foi ao condomínio em busca de informações após não conseguir contato com Isabelle.
Até agora, sete pessoas prestaram depoimento, e novas oitivas estão previstas. Além dos relatos de testemunhas, a investigação reúne laudos periciais, imagens do condomínio, mensagens e dados extraídos dos celulares apreendidos.
Com a dinâmica da queda considerada esclarecida pela perícia, a investigação concentra-se agora nos acontecimentos anteriores à morte e na eventual existência de condutas que possam configurar violência psicológica ou induzimento ou instigação ao suicídio. O caso tramita sob segredo de Justiça.
Fonte: Brasil 247