Quem fez este carro? Essa resposta está ficando cada vez mais difícil

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Por Yu BokunBrasil 247

Durante anos, a relação econômica entre a China e os Estados Unidos foi descrita em termos de competição: quem vende mais, quem produz mais.

Mas existe outro lado crucial nessa relação — a cooperação — e, às vezes, ela pode ser vista com extrema clareza em um único produto.

Tome os carros como exemplo.

A montadora americana General Motors e sua parceira chinesa SAIC Motor concordaram recentemente em estender sua joint venture por mais 20 anos. O que torna essa parceria notável é o fato de que ela não se resume mais simplesmente a vender carros americanos para consumidores chineses.

De acordo com a GM, sediada em Detroit, a renovação da parceria coloca a empresa conjunta em posição de impulsionar sua transformação tecnológica e ampliar as oportunidades de crescimento.

A SAIC traz um mercado automotivo gigantesco, uma densa cadeia de suprimentos e experiência em veículos elétricos. Já a americana GM contribui com marcas globais, capacidade de engenharia e acesso a mercados internacionais.

Ao juntar essas peças, o resultado não é simplesmente um produto chinês ou americano. Trata-se de um produto desenvolvido por meio da cooperação — e com potencial para ser vendido para o restante do mundo.

Liu Chunsheng, professor associado da Universidade Central de Finanças e Economia de Pequim, afirmou que a parceria entre a GM e a SAIC reflete o cerne da cooperação econômica e comercial entre China e Estados Unidos: aproveitar forças complementares e criar valor de forma conjunta.

“A cooperação não se resume a um lado entrando no mercado do outro. Trata-se, na verdade, de combinar seus respectivos recursos e pontos fortes para desenvolver produtos mais adequados ao mercado chinês, ao mesmo tempo em que contribuem para a cadeia de suprimentos global”, disse Liu.

Do “Feito na China” ao “Criado em Conjunto”

Por décadas, o modelo básico do comércio global foi relativamente simples: um país fabricava o produto e outro país o comprava.

No entanto, as cadeias de suprimentos tornaram-se muito mais complexas. Hoje, o valor de um produto pode vir de vários países ao mesmo tempo — desde o design e a engenharia até a fabricação, os softwares, a logística e o marketing.

Assim, a cooperação passa a ser mais uma necessidade do que uma escolha, já que nenhum dos lados consegue fornecer tudo sozinho.

O Fórum Econômico Mundial estima que a fragmentação comercial e financeira já custa à economia global até 307 bilhões de dólares por ano. Portanto, manter os mercados conectados não é apenas um bordão político; possui valor econômico real.

A OMC, por sua vez, estima que a facilitação do comércio reduziu os custos comerciais globais entre 1% e 4%, ajudando a impulsionar o comércio em mais de 230 bilhões de dólares.

Além disso, as cadeias de valor globais podem fazer mais do que apenas reduzir custos: elas também ajudam a disseminar tecnologia e conhecimento, incentivar a inovação e melhorar a produtividade. É por isso que as empresas buscam a cooperação.

“A colaboração tecnológica entre empresas multinacionais é vital para a alocação global de recursos. Se ela continuar a desacelerar, poderá pesar sobre a inovação em setores como novas energias e veículos inteligentes, tornando mais difícil o avanço de novas tecnologias”, pontuou Liu.

Por que as empresas continuam se conectando

Apesar de todas as restrições, as empresas acabam analisando outro cálculo: a cooperação cria valor?

Uma forma de enxergar esse valor é por meio dos investimentos. Quando as empresas investem além das fronteiras, elas não estão apenas movimentando dinheiro; muitas vezes, levam tecnologia, expertise, capacidade de produção e acesso a novos mercados.

E isso continua sendo uma parte significativa da economia global.

De acordo com a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), o investimento estrangeiro direto (IED) global subiu 6%, atingindo 1,6 trilhão de dólares em 2025. A UNCTAD afirma que o IED pode ajudar as economias a absorver e aplicar novas tecnologias, além de participar de forma mais eficaz nas cadeias de valor globais.

Essa é a lógica por trás de parcerias como a da GM com a SAIC. O valor não precisa vir de apenas um dos lados. Ele pode surgir da união de diferentes pontos fortes para alcançar um mercado ainda maior.

E talvez essa seja a maneira mais prática de encarar a cooperação econômica entre China e Estados Unidos. Os dois países podem competir em algumas áreas, mas, quando suas forças se complementam, a cooperação pode criar um valor que vai além do que qualquer um dos lados alcançaria sozinho.

Nem sempre se trata de quem vence.

Às vezes, trata-se do que podemos criar juntos.

Fonte: Brasil 247

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