Após Lula acusar ingerência dos EUA, Governo Trump nega interferir nas eleições
Por Paulo Emilio — Brasil 247
247 – O governo dos Estados Unidos negou que esteja atuando para interferir nas eleições brasileiras e afirmou que a definição do próximo presidente é uma decisão exclusiva dos eleitores do Brasil. A manifestação ocorre depois de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) demonstrar preocupação com uma eventual ingerência estadunidense no processo eleitoral, especialmente por meio do secretário de Estado, Marco Rubio.
Em entrevista à CNN Brasil, Amanda Roberson, porta-voz do Departamento de Estado do governo Donald Trump, afirmou que interferir em eleições realizadas em outros países não faz parte da estratégia de Washington.
“Nos Estados Unidos, estamos focados nas nossas prioridades. Como falou o presidente Trump, estamos focados na segurança, na prosperidade, na paz. Trabalhando assim dentro de outros países sobre eleições não é parte da nossa estratégia”, disse.
EUA dizem que decisão cabe aos brasileiros
Roberson também negou que integrantes do governo estadunidense tenham discutido iniciativas destinadas a influenciar os rumos políticos do Brasil.
“Nunca falamos nada assim de interferência. O que falamos, sim, foi sobre a soberania do Brasil, a soberania dos Estados Unidos, e sabemos que a eleição é algo dos brasileiros, do Brasil”, afirmou.
“A eleição é algo que o Brasil está fazendo independentemente dos Estados Unidos”, acrescentou.
A representante do Departamento de Estado confirmou que Washington acompanha a disputa brasileira, mas disse que os Estados Unidos reconhecem a soberania do país e defendem a realização de eleições livres e transparentes.
“Estamos vendo as notícias. Claro que estamos acompanhando as eleições. Claro que queremos saber o resultado, mas acreditamos que a eleição, como Brasil, país soberano, independente, queremos ver eleições livres, transparentes e vamos ver com os brasileiros o resultado”, disse.
Washington evita manifestar preferência eleitoral
Questionada se Donald Trump ou Marco Rubio consideram algum resultado da eleição brasileira mais favorável aos interesses estadunidenses, Roberson não manifestou preferência por um candidato.
“Acreditamos que o próximo presidente do Brasil é decisão do povo brasileiro. Queremos ver uma eleição no Brasil livre, transparente. Sabemos que através da história da relação bilateral entre Estados Unidos e Brasil, trabalhamos com líderes nos diferentes lados do espectro político e esperamos que esse trabalho vai continuar assim no futuro”, declarou.
Durante a entrevista, Roberson afirmou que Washington gostaria de ver o Brasil adotar medidas mais agressivas contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
A porta-voz também foi questionada sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, no contexto da cooperação entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado.
Perguntada se um eventual governo de Flávio Bolsonaro seria considerado mais colaborativo pelos Estados Unidos nessa área, ela voltou a evitar qualquer manifestação de preferência eleitoral.
“Não sabemos qual vai ser o resultado das eleições no Brasil no próximo mês. Os brasileiros vão decidir quem vai ser o próximo presidente do Brasil. E sabemos que vamos trabalhar sempre com o governo brasileiro, independentemente do lado do espectro político, para enfrentar os desafios que compartilhamos, sobretudo a segurança nacional.”
Lula manifesta preocupação com Marco Rubio
A manifestação do Departamento de Estado ocorre depois de Lula afirmar, na segunda-feira (21), em entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN, que estava “muito preocupado” com uma possível atuação de Marco Rubio nas eleições brasileiras.
O presidente mencionou a proximidade política que atribui ao secretário de Estado com o bolsonarismo e levantou suspeitas sobre possível interferência envolvendo inteligência artificial.
“Já há indícios de interferência de inteligência artificial, eu estou muito preocupado com o Marco Rubio, porque o Marco Rubio é muito ligado ao pessoal do bolsonarismo, mas, por enquanto, é só suspeita. Mas se também se meter…”, declarou Lula.
Na mesma entrevista, Lula afirmou que já havia pedido diretamente a Trump que os Estados Unidos não interferissem na eleição brasileira. Segundo o presidente, Trump havia sinalizado que não pretendia se envolver no processo eleitoral.
Suspeitas entram no radar do governo brasileiro
O tema também passou a ser acompanhado por órgãos e integrantes do governo brasileiro. Um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), encaminhado no fim de agosto ao Palácio do Planalto, ao Ministério da Justiça e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), elevou a possibilidade de influência norte-americana nas eleições a um “nível de criticidade”.
Ainda conforme a reportagem, o governo Lula acompanha quatro frentes que considera relacionadas a uma possível interferência: manifestações políticas de autoridades estadunidenses; suspeitas de impulsionamento de perfis políticos a partir dos Estados Unidos; alegações envolvendo financiamento externo; e encontros de autoridades dos EUA com influenciadores brasileiros de direita. A campanha de Flávio Bolsonaro nega as acusações relacionadas a impulsionamento e financiamento.
A discussão sobre eventual ingerência externa ganhou relevância na relação bilateral durante a reta final da campanha. Nesta linha, o governo brasileiro recebeu, em outubro de 2025, uma proposta comercial dos Estados Unidos que incluía referência à garantia de participação de “dissidentes políticos” nas eleições de 2026. O assunto, contudo, não foi discutido posteriormente nas reuniões oficiais entre os dois governos.
Fonte: Brasil 247