Flávio poderá ir mais longe que Pablo Escobar?
Por fernandaestima — Fundação Perseu Abramo
O crescimento do crime organizado e das milícias no Rio de Janeiro coincide com o aumento do domínio político dos Bolsonaro no estado. O legado desta liderança é um mar de corrupção, lavagem de dinheiro e assassinatos, como o de Marielle Franco. Exemplo disso é o controle de Flávio Bolsonaro sobre o governo de Cláudio Castro, preso e destituído por corrupção e a “Operação Unha e Carne” da Polícia Federal (PF), feita para apurar esquemas de corrupção, lavagem de dinheiro e ligações entre agentes públicos, políticos e o crime organizado (como o Comando Vermelho e milícias), no Rio de Janeiro. Nela, foi descoberta a planilha financeira de Adilson Oliveira Coutinho Filho (apontado como contrabandista e chefe do jogo do bicho), com registros de repasses milionários a amigos íntimos de Flávio Bolsonaro:
1.Cláudio Castro (PL) é indicado como quem recebeu R$ 3,63 milhões;
2.Rodrigo Bacellar (União Brasil), queridão de Flávio e indicado por ele para disputar o governo do Rio de Janeiro, foi preso e denunciado por lavagem de dinheiro, obstrução de justiça e favorecimento à facção Comando Vermelho. Na planilha, consta o recebimento de R$ 5,43 milhões sob o codinome “Barba”;
3.Márcio Canella (União Brasil), deputado muito próximo de Flávio, foi preso em flagrante e acusado de ser operador de esquema de lavagem de dinheiro do crime organizado, que movimentou mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos.
4.Gutemberg Fonseca, indicado por Flávio para a Secretaria de Defesa do Consumidor, consta na planilha como recebedor de R$ 727,9 mil;
5.Hélio Lopes (PL), amigo dos mais próximos de Jair Bolsonaro, consta na planilha, como beneficiário de R$ 323,2 mil;
6.Alexandre Ramagem (PL), foragido da justiça, o ex-deputado federal e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) era da guarda pretoriana dos Bolsonaro, que tentou nomeá-lo diretor da Polícia Federal após afirmar, em reunião ministerial, que iria intervir na corporação para conter investigações contra familiares e amigos. O STF barrou a sua posse. Ele consta como beneficiário de R$ 91,8 mil.
A extorsão de Vorcaro e o filme laranja
Com o amigo Cláudio Castro na cadeira de governador do Rio de Janeiro, o dinheiro da previdência dos servidores estaduais foi usado para capitalizar, em bilhões de reais, as falcatruas de Vorcaro. A PF apurou que as datas desses aportes de dinheiro público dos aposentados coincidem com transferências financeiras milionárias feitas por Vorcaro para financiar a produção de Dark Horse. Tudo leva a crer que se trata de um filme laranja, usado como lavanderia de dinheiro e evasão de divisas. Apesar de Flávio ser investigado por esses crimes, o relator André Mendonça escondeu isso e decidiu procurar “cabelo em ovo” e investigar o filho de Lula, sobre quem nada consta. Apesar de Flávio Bolsonaro ter sido pego com a “boca na botija” na corrupção do Banco Master, Mendonça age como sua guarda pretoriana.
Flávio confraterniza com assassinos
Adriano da Nóbrega (chefe do Escritório do Crime e da milícia da zona oeste do Rio de Janeiro) recebeu moção de honra e a Medalha Tiradentes da Assembleia Legislativa. O despudor é tal que a proposição da condecoração foi feita em agosto de 2005, quando o assassino já estava preso há mais de um ano e, querendo ostentar sua ligação com o sicário, realizou a solenidade de entrega da honraria no local onde Adriano cumpria pena de homicídio.
Ronald Paulo Alves Pereira recebeu moção honrosa de louvor e congratulações, proposta por Flávio Bolsonaro, por serviços prestados no 22º BPM, logo depois virou alvo de operações contra o crime organizado e milícias.
A Operação Vectura Corrupta, investigação conjunta da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo, apontou que o PCC atuou diretamente no financiamento de campanhas eleitorais de aliados políticos do Partido Liberal (PL), legenda que Flávio comanda no Rio de Janeiro. O candidato, Danilo Morgado, apoiado publicamente por ele, foi preso sob a acusação de fazer parte do núcleo político da facção. De acordo com os investigadores, mensagens extraídas de celulares indicavam que membros do PCC controlavam e definiam aportes financeiros voltados a candidaturas para expandir a influência do grupo em órgãos públicos. Em São Paulo, o presidente municipal do União Brasil e notório apoiador de Flávio Bolsonaro, é um dos principais alvos de operações que apuram a infiltração do PCC no sistema de transporte coletivo paulistano.
Para fechar esse extrato da ficha corrida de Flávio, recente investigação jornalística feita pelo ICL revela que uma empresa de Flávio Bolsonaro (da qual Jair Bolsonaro é garoto-propaganda), a Bravo Grafeno (capacetes e motos) está registrada na mesma sala, em Brasília, onde estão registradas outras dezesseis empresas de fachada pertencentes a ninguém menos do que Antônio Carlos Camilo Antunes, o conhecido “Careca do INSS”. Ele é apontado pela Polícia Federal como um dos principais operadores de um esquema bilionário de fraudes e roubo dos aposentados e preso no Presídio da Papuda. Além disso, o Careca do INSS e Flávio Bolsonaro utilizam os serviços da Voga Serviços Contábeis, de propriedade de Alexandre Caetano dos Reis, que também foi preso sob a acusação de atuar como o contador das empresas do Careca do INSS e gerenciar o seu esquema financeiro.
Robson Calixto Fonseca (Peixe), denunciado por Ronnie Lessa como elo de ligação com os mandantes dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes e o fornecedor das armas usadas nas mortes, recebeu dinheiro para ações no reduto eleitoral dos irmãos Brazão, condenados como os mandantes desses crimes. Em mensagem de Peixe, um velho conhecido por atuar em atividades milicianas, Flávio Bolsonaro é chamado de “nosso senador”.
Apesar de todas essas informações serem de conhecimento público, Flávio Bolsonaro continua sendo tratado como um agente público legítimo e em plenas condições de concorrer à presidência da República, algo que Pablo Escobar não obteve dos colombianos. Em 1982, quando foi eleito para a Câmara dos Representantes da Colômbia, pelo Partido Liberal (PL), era conhecida a sua ambição de ser presidente do país. No entanto, as instituições agiram e Pablo Escobar acabou sendo expulso da vida política do país, nunca alcançando a possibilidade de se candidatar ao cargo de presidente. Pablo Escobar queria ser eleito para evitar a sua extradição para os Estados Unidos; Flávio Bolsonaro quer se eleger para entregar a soberania nacional para os Estados Unidos e liberar geral o Brasil para o crime. A blindagem feita para proteger Flávio Bolsonaro mostra o quanto é preciso reformar as instituições no Brasil para que a democracia consiga se proteger dos golpes continuados que sofre e do poder crescente do crime organizado que deseja capturá-la. É isso que está em jogo nessas eleições.
Gerson Almeida é sociólogo.
Fonte: Fundação Perseu Abramo