Centro Brasil no Clima apresenta recomendações climáticas para os governos estaduais que assumirão em 2027
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O Centro Brasil no Clima (CBC) elaborou cartas de recomendação para os candidatos aos governos estaduais, com propostas para incorporar ações de mitigação, adaptação e transição energética aos planos de governo 2027–2030. O material integra a 2ª edição do Anuário Estadual de Mudanças Climáticas 2026 e traz um diagnóstico técnico independente sobre governança climática, trajetória de emissões de gases de efeito estufa (GEE) e vulnerabilidades socioambientais de cada território, seguido de prioridades setoriais específicas.
Enviadas formalmente aos candidatos aos governos de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia, Pará e Mato Grosso ao longo de setembro, as cartas trazem um diagnóstico organizado em quatro eixos temáticos: Governança e Legislação, Energia e Mobilidade, Uso do Solo e Biodiversidade, e Adaptação e Riscos.
São, consolidadas, quatro frentes de recomendação que tratam do fortalecimento institucional e financeiro da agenda climática, da resiliência urbana e gestão de riscos, da transição energética e mobilidade sustentável, e da proteção florestal e restauração de biomas regionais distintas, da Amazônia ao Pampa, do semiárido nordestino ao litoral fluminense – neste caso, sob os mesmos critérios técnicos.
O documento parte do diagnóstico de que os eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção e passaram a moldar diretamente a agenda de desenvolvimento dos estados: enchentes catastróficas, secas prolongadas, incêndios florestais, ondas de calor recordes e a elevação do nível do mar já impõem custos econômicos, humanitários e de infraestrutura em praticamente todas as regiões do país.
Nesse cenário, o CBC defende que a integração de diretrizes de mitigação e adaptação aos planos de governo eleitos em outubro não é uma pauta setorial isolada, mas um componente estruturante das políticas de infraestrutura, proteção social e desenvolvimento econômico para o período 2027–2030.
Entre os estados analisados, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia, Pará e Mato Grosso apresentam desafios distintos: enquanto o Rio de Janeiro precisa avançar na prevenção de desastres, adaptação costeira e diversificação da economia dependente de petróleo e gás, o Rio Grande do Sul tem como prioridade integrar a agenda climática à reconstrução pós-enchentes. Na Bahia, ganham destaque a segurança hídrica e o potencial de hidrogênio verde; no Pará, o combate ao desmatamento, às queimadas e aos efeitos da seca; e, no Mato Grosso, a prevenção de incêndios, a segurança hídrica e a redução do desmatamento.
São Paulo em destaque
O estado mais populoso do país lida com ondas de calor que agravam as ilhas de calor urbanas, chuvas intensas que provocam enchentes e deslizamentos na Região Metropolitana e na Serra do Mar, além de crises de abastecimento que ameaçam a segurança hídrica e energética. Embora tenha uma política climática consolidada — com orçamento climático próprio e o mecanismo de financiamento FinaClima —, o estado ainda tem metas setoriais de difícil rastreabilidade.
Entre as recomendações estão consolidar o FINACLIMA-SP como central de apoio técnico a municípios vulneráveis, avançar em sistemas de alerta antecipado e infraestrutura verde contra inundações urbanas, e institucionalizar diretrizes para ondas de calor, com arborização e abrigos climáticos. No transporte, o CBC sugere eletrificar frotas públicas metropolitanas e fortalecer a liderança paulista em etanol, biogás e combustível sustentável de aviação (SAF).
Adaptação no Rio de Janeiro
O estado enfrenta uma combinação de riscos que vai de deslizamentos na Região Serrana a inundações na Baixada Fluminense e na Região Metropolitana, somados a ondas de calor recordes e à elevação do nível do mar com erosão costeira. A economia fluminense é fortemente dependente das receitas de petróleo e gás das bacias de Campos e Santos, sem uma estratégia estruturada de transição justa, enquanto o transporte metropolitano acumula déficit de investimentos.
Entre as recomendações do CBC estão consolidar metas climáticas setoriais mensuráveis integradas ao orçamento estadual, mapear áreas de risco na Serra e nas encostas metropolitanas, acelerar a universalização do saneamento e elaborar um plano de adaptação costeira.
Na transição energética, o CBC sugere estruturar uma estratégia de diversificação para a economia do petróleo e gás, reduzir emissões fugitivas de metano, ampliar energia solar distribuída, eólica offshore e hidrogênio de baixo carbono, além de priorizar trens, metrô e BRT com eletrificação progressiva da frota de ônibus.
Reconstrução no Rio Grande do Sul
Depois das enchentes catastróficas de 2024 nas bacias do Taquari-Antas, do Caí e do Guaíba, o estado gaúcho carrega o desafio de unir a reconstrução à agenda de adaptação. O diagnóstico do CBC aponta ainda estiagens severas, ciclones extratropicais, tempestades de granizo e a conversão acelerada dos campos nativos do Pampa — um dos biomas mais ameaçados do país.
As recomendações incluem estabelecer metas climáticas setoriais vinculadas à reconstrução e à redução de riscos, recuperar e modernizar os sistemas de proteção contra cheias de Porto Alegre e dos vales do Taquari, do Caí e dos Sinos, e implantar sistemas de alerta antecipado integrados aos municípios. Na energia, o CBC destaca a necessidade de executar o Plano de Transição Energética Justa das Regiões Carboníferas do estado, ampliando geração eólica, solar distribuída e biogás a partir de resíduos da agroindústria.
Bahia necessita de segurança hídrica
A convivência histórica com a seca no semiárido baiano se soma a uma alta exposição a inundações e deslizamentos nas regiões sul e metropolitana. Apesar de ter uma estrutura de política climática consolidada, o estado ainda carece de instrumentos de planejamento de médio e longo prazo, como planos de mitigação e adaptação.
O CBC recomenda ampliar a segurança hídrica no semiárido, mapear integralmente as áreas de risco geológico e de inundação e priorizar infraestrutura verde na contenção de encostas. No eixo energético, o destaque vai para o potencial da Bahia como polo de hidrogênio verde e de cadeias industriais de baixo carbono, aproveitando sua liderança na geração eólica e solar para impulsionar a reindustrialização do Polo Industrial de Camaçari e dos complexos de Aratu e Salvador — iniciativa que passa pelo Fórum de Powershoring, que busca mobilizar R$ 77 bilhões em investimentos entre 2027 e 2030.
Pará: combate ao desmatamento, às queimadas e aos efeitos da seca
Sede da COP30, o Pará enfrenta chuvas extremas e alagamentos em Belém e na Região Metropolitana, elevação do nível do mar no litoral amazônico e secas severas que afetam a navegação e as comunidades ribeirinhas. O desmatamento e a degradação florestal seguem elevados, pressionados pela agropecuária, pelo garimpo e pela grilagem.
Entre as prioridades apontadas pelo CBC estão garantir a execução orçamentária efetiva do Fundo Estadual de Mudanças Climáticas, estruturar monitoramento hidrometeorológico e protocolos de resposta a secas e cheias no interior, e consolidar a meta de desmatamento ilegal zero, com ampliação do pagamento por serviços ambientais e mecanismos de combate à grilagem.
Prevenção de incêndios em Mato Grosso
O estado, que responde pela maior contribuição nacional de emissões por uso da terra, tem enfrentado incêndios de grande escala no Pantanal e na Amazônia, estiagens severas e ondas de calor extremo que afetam a produção agropecuária e a saúde pública. A perda de cobertura vegetal nativa avança com a expansão da agropecuária e da infraestrutura sobre os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.
O CBC recomenda a criação de um Fundo Estadual de Mudanças Climáticas, o mapeamento de áreas de risco a eventos climáticos e a capacitação de equipes para prevenção e combate a incêndios florestais. Na proteção ambiental, a carta destaca a aceleração da agenda de desmatamento ilegal zero e o incentivo a práticas sustentáveis como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta.
Um chamado à ação
Em todas as cartas, o CBC reforça que a integração de diretrizes de mitigação e adaptação aos planos de governo 2027–2030 ultrapassa a pauta estritamente ambiental, configurando-se como um imperativo econômico, de infraestrutura e de proteção social.
A entidade convida os futuros governadores a incorporar as recomendações a seus programas de governo definitivos e ao Plano Plurianual (PPA 2028–2031), reafirmando o protagonismo de cada estado no cumprimento das metas climáticas nacionais e globais.
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Fonte: umsoplaneta