Estadão diz, em editorial, que vitória de Flávio Bolsonaro pode colocar milicianos na Presidência
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – O jornal O Estado de São Paulo afirmou em editorial publicado nesta quarta-feira (23) que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial representaria o risco de integrantes ou pessoas ligadas às milícias alcançarem influência no mais alto nível do poder da República. O texto, intitulado “Flávio e a sombra dos milicianos”, resgata episódios da trajetória política do senador e cobra explicações sobre sua relação com personagens associados a organizações criminosas do Rio de Janeiro.
No editorial, o Estadão parte de reportagem publicada pelo próprio jornal segundo a qual, em 2023, uma assessora de Flávio negociou com Robson Calixto Fonseca, conhecido como “Peixe”, a destinação de quase R$ 200 mil em recursos de emenda parlamentar. Segundo a publicação, a negociação teria envolvido a busca por vantagens indevidas.
“É extremamente preocupante, para dizer o mínimo, que um candidato à Presidência da República tenha mantido vínculo tão próximo com um criminoso de sangue até pouco tempo atrás”, afirma o editorial.
Em fevereiro deste ano, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Peixe por integrar organização criminosa armada. Segundo a Corte, ele fazia parte de uma estrutura composta por milicianos e ligada aos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, condenados no mesmo julgamento como mandantes dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, ocorridos em março de 2018.
De acordo com os registros oficiais do STF, Peixe recebeu pena pelo crime de organização criminosa. Domingos e Chiquinho Brazão, por sua vez, foram condenados pelos homicídios e por participação na organização criminosa.
Editorial cobra explicações de Flávio
Procurado sobre a destinação dos recursos, Flávio Bolsonaro afirmou, segundo o editorial, que “a emenda foi destinada dentro da legislação vigente” e que a responsabilidade pela prestação de contas caberia ao destinatário do dinheiro.
Para o Estadão, porém, a resposta não esclarece a relação política existente entre integrantes do gabinete do senador e Peixe.
“Sobre o fato mais escabroso – a proximidade entre o senador e um miliciano condenado –, Flávio não deu uma satisfação sequer aos eleitores”, afirma o jornal.
O editorial sustenta que o episódio não seria isolado e relembra manifestações feitas por Flávio Bolsonaro desde seu período como deputado estadual no Rio de Janeiro.
Declarações favoráveis às milícias
O jornal recorda que, em 2007, Flávio defendeu na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) as milícias como um “novo tipo de policiamento” e classificou crimes cometidos por integrantes desses grupos como “casos isolados”.
Em outro discurso citado pelo editorial, o então deputado estadual afirmou que “não se importaria” em pagar mensalidades de “R$ 30 ou R$ 40” a grupos dessa natureza para “ter mais segurança”.
O texto também recupera a relação do gabinete de Flávio na Alerj com familiares de Adriano da Nóbrega, ex-policial militar apontado como uma das principais lideranças do Escritório do Crime.
Adriano morreu em 2020, durante uma operação policial na Bahia. Segundo o editorial, sua trajetória e as conexões políticas construídas no Rio integram um histórico que precisa ser considerado diante da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
“Sombra dos milicianos”
Ao reunir os episódios, o Estadão afirma que a relação de Flávio Bolsonaro com personagens ligados às milícias acompanha sua carreira desde o início de sua passagem pela Alerj, em 2003.
“A ligação entre Flávio e ‘Peixe’, por mais problemática que seja, não é um desvio pontual”, diz o editorial.
O jornal argumenta ainda que o tema ganha maior dimensão devido à proximidade da eleição presidencial e à possibilidade de o senador chegar ao Palácio do Planalto.
Na conclusão, o editorial afirma que cabe aos eleitores decidir entre os candidatos registrados, mas sustenta que o histórico político do senador deve fazer parte da avaliação pública sobre sua candidatura.
“Cada eleitor tem a liberdade assegurada pela Constituição para dar seu voto a qualquer candidato regularmente registrado na Justiça Eleitoral”, diz o texto.
Em seguida, o Estadão apresenta sua avaliação mais contundente: “Mas que todos estejam cientes de que, dado o histórico, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República”.
Fonte: Brasil 247