Sabesp, privatizada por Tarcísio, já acumula 6 mortes em obras em apenas dois anos
Por Girrana R. Teixeira — TVT News
O governador Tarcísio de Freitas chega à corrida para a eleição do estado de São Paulo em um cenário em que a privatização da Sabesp já completa dois anos. A Sabesp foi vendida em 23 de julho de 2024 e deixou de ser uma empresa de economia mista.
A Equatorial Energia adquiriu 15% das ações e os outros 17% foram distribuídos entre pessoas físicas e jurídicas. Antes acionista majoritário, após a privatização, o governo do estado passou a ter apenas 18,3% das ações. Saiba mais em TVT News.
Acidentes
O coordenador administrativo e financeiro do Ondas (Observatório Nacional dos Direitos à Água e Saneamento), Amauri Pollachi, vê a privatização da Sabesp como uma ação totalmente desnecessária. Segundo ele, a empresa tinha capacidade econômica, financeira e técnica de atingir a universalização do saneamento.
“Hoje, se existe uma obra em frente a um domicílio ou um comércio, as pessoas veem essa obra com preocupação. Pode derrubar a sua casa, afetar radicalmente o seu comércio, pode matar gente, como tem acontecido. O número de mortes provocadas por obras da Sabesp tem sido absurdo. Jamais isso aconteceu nos 50 anos em que Sabesp foi uma empresa pública. Nós tivemos, em um período de menos de um ano, seis mortes provocadas por essas obras”.

Entre as mortes ligadas a obras da Sabesp, estão casos envolvendo trabalhadores diretos e terceirizados. Em maio deste ano, ocorreu uma explosão no Jaguaré, após uma equipe da Sabesp perfurar uma tubulação da Comgás, deixando dois mortos.
Em março, em Mairiporã, o rompimento de um reservatório causou a morte de um trabalhador da empresa. O acidente ocorreu enquanto funcionários faziam teste com um reservatório com capacidade para armazenar dois milhões de litros de água.
Em abril, na cidade de Hortolândia, interior de São Paulo, um homem que trabalhava em uma terceirizada da Sabesp morreu esmagado por um retroescavadeira enquanto estava em uma obra de rede de esgoto.
Outro caso envolvendo uma retroescavadeira, em agosto, vitimou um trabalhador de 32 anos, em Itaquaquecetuba, que trabalhava numa vala e foi atingido. Ele também era contratado de uma empresa terceirizada.
Ainda, em setembro do ano passado, em Mauá, uma tubulação caiu em cima de uma casa e matou uma moradora de 79 anos.
Demissão de funcionários
O presidente do Sintaema (Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo), José Faggian, denuncia o problema das demissões. Quando o processo de privatização começou, a empresa tinha 14.500 trabalhadores, depois de três PDVs (Planos de Demissão Voluntária), o quadro diminuiu em 47%.
“A Sabesp promoveu três PDVs, porque a gente tinha os 18 meses da estabilidade da lei que autorizou a privatização. Estamos fazendo uma ação bem grande com o Ministério Público do Trabalho referente a essa questão dos assédios que a empresa vem praticando, inclusive em relação aos PDVs. Nós temos questionamentos de muitos trabalhadores que foram assediados para aderir, com ameaças, avisos ‘ou você entra no PDV ou, não vai ficar’ “, contou.

As irregularidades que foram levadas ao MPT incluem demissões em período de estabilidade, prevista na Lei da privatização, e ameaça de redução salarial ilegal. As denúncias estão sob investigação.
Faggian vê a demissão dos trabalhadores como um mecanismo de se livrar desses trabalhadores concursados. “A empresa tem uma questão ideológica contra os trabalhadores concursados. A gente perde essa mão de obra, qualidade, conhecimento, E, isso, reflete tanto na qualidade do serviço prestado para a população e, na outra ponta, na morte de trabalhadores, colocando inclusive a própria população em risco”, avaliou.
Lucro
Para Pollachi, que trabalhou 31 anos na empresa, além das demissões que causam o desmonte da cultura interna da empresa, a busca por lucros é um dos principais motivos pelos acidentes e precarização dos serviços.
“A Sabesp, antes da privatização, tinha uma média de lucro anual, de 3,3 bilhões de reais. Mesmo tendo passado durante a crise hídrica de 2014 e 2015, uma certa crise financeira, que levou a uma queda desse lucro nesses 2 anos, depois a empresa retomou a sua capacidade. Hoje a perspectiva que existe para o fechamento de 2016, é de um lucro da ordem de 8,5 milhões neste ano”, disse.
De acordo com levantamento do Ondas, o percentual do lucro líquido sobre a receita da venda de água e esgoto dobrou com a privatização. A cada R$ 10 das tarifas de água e esgoto R$ 3,71 viram lucro dos acionistas.
Segundo Pollachi isso mostra que a privatização veio para satisfazer os investidores. “Com isso são cortados recursos absolutamente imprescindíveis para manutenção de equipamentos, de instalações. São deixados em segundo plano, a execução dos serviços mais comuns, por exemplo, o conserto de vazamento. Antes tinha uma meta, que era rigidamente cumprida pela empresa de conserto em até 24 horas. Hoje não é mais assim.”
Fiscalização
Artigo do Ondas para o site Outras Palavras mostra que, na Arsesp (Agência Reguladora Estadual), a média mensal de reclamações contra a Sabesp na Grande São Paulo cresceu 70% na comparação dos primeiros trimestres de 2025 e 2026. Além disso, a Sabesp lidera o ranking de reclamações do Procon-SP, em 2025, com 6.879 registros e quase 70% das queixas não atendidas.
De acordo com Pollachi, após a privatização, não existe mais a fiscalização de serviços, um acompanhamento feito por engenheiros ou encarregados.
“Só para te dar uma ideia, um funcionário para fazer tratamento de água numa estação de grandes potências, por exemplo, Alto da Boa Vista, o Guaraú, apesar de ser um técnico químico ou um químico, ele passava por um treinamento de meses. Isso não existe mais, a empresa perdeu isso e não consegue mais reter, talentos […] as pessoas que eu dialogo, estão lá na Sabesp submetidas a uma pressão fortíssima de gerar lucro, tem inúmeros casos de burnout da Sabesp”.
Outro queixa é a de que os prestadores de serviço que eram pagos 30 dias após a certificação da obra tem sido pagos só depois de 120 dias. “Isso está fazendo muitas empresas pararem porque não tem fôlego financeiro. Pode perceber, muita gente na rua diz ‘a Sabesp começou a fazer uma obra, abriu o buraco, não acaba. Fica lá abandonado. Ninguém está trabalhando’. Por quê? Porque a empresa não recebeu”, contou o coordenador do Ondas.
Redução na pressão
Edson Aparecido, assessor de saneamento da FNU (Federação Nacional dos Urbanitários), critica a medida de redução da pressão adotada pela Sabesp. Segundo ele, isso leva principalmente as pessoas que moram na periferia a ficarem sem água.
“Em muitas habitações, em favelas, ocupações, as casas não têm nem estrutura para suportar caixas d’água. Então essas pessoas acabam ficando horas, dias, sem água e tendo que armazenar a água pela manhã, que é quando a água começa a voltar”.
Apesar do acesso a água ser menor, Aparecido afirma que o valor da água tem aumentado em várias regiões e que uma das explicações seria as trocas de hidrômetros feitas pela Sabesp. Os novos modelos “podem medir a água que você consome e, também, promover corte sem necessariamente ter que ir na residência […] essa inconstância do abastecimento de água, você acaba tendo o que a gente chama de pressão nos hidrômetros. Quando a água volta, ou quando as pessoas abrem a torneira, esse processo faz com que o hidrômetro gire sem água e as pessoas estão pagando pelo ar que entra nesses medidores”.
Bônus nas contas

Em agosto deste ano, com o Cantareira operando em faixa de alerta e diante de um cenário que era avaliado com risco de crise hídrica, o Ondas, a Fundação SOS Mata Atlântica e o IAS (Instituto de Água e Saneamento) lançaram a campanha “Sabesp, quem economiza merece desconto!”. O manifesto buscava resgatar uma medida que foi adotada em 2014 e 2015, na última crise hídrica, quando a empresa dava descontos de até 30% para quem conseguisse reduzir o consumo de água.
O secretário de saneamento da FNU critica o caminho que a Sabesp não adotou de implementar a política de bônus para quem reduzisse o valor da conta de água.
“Quanto mais água ela vende, mais ela arrecada e mais paga de dividendos para os acionistas. [As pessoas] economizando água para ter direito ao bônus, a Sabesp arrecada menos. Arrecadando menos, ela tem menos lucro. Tendo menos lucro, paga menos dividendos para os seus acionistas que agora são na sua maioria acionistas privados”, criticou.
Obras
Pollachi alerta que a maioria das obras de esgoto na Grande São Paulo, não são consequência da privatização, mas já integravam a quarta etapa do Projeto Tietê.
“Guarulhos, a Sabesp começou no final de 2018 […] O foco principal da Sabesp em um primeiro momento foi acabar com a falta de água em Guarulhos, que era uma coisa sistêmica, recorrente. Na sequência, começaram a fazer os projetos de esgotos para ampliar a rede de coleta de esgotos. Em 2023, o Conselho de Administração Estadual aprovou esse pacote de obras de Guarulhos, tanto na expansão de rede e na expansão do tratamento. Então, isso já estava previsto. Aí foi feita a contratação e o que eles estão fazendo hoje é tocar. […] Agora tem estação de tratamento de esgoto em Perus. Essa estação de tratamento já estava em obras, já estava sendo executada dentro do chamado projeto Tietê”.
Ainda, a Sabesp tem divulgado que desde a privatização, 2,1 milhões de pessoas foram conectadas à rede de abastecimento de água. Ele questiona o número. “Esses números, a meu ver, são fantásticos, superestimados. Se eu considerar 2 milhões de pessoas, e considerar a média de número de pessoas por município do IBGE, que fossem três pessoas por domicílio, teria 700 mil ligações de água. A agência reguladora precisaria demonstrar para a população que foi feito isso”.
Sabesp
A reportagem entrou em contato com a Sabesp, questionando se a empresa tem acompanhado os desdobramentos das seis mortes, se deseja se posicionar em relação às denúncias de assédio moral que correm no Ministério Público do Trabalho, se tem um levamento de problemas de entrada de ar em novos hidrômetros que causaram aumento na conta, se uma política de bônus para quem economiza água está em avaliação e onde foram feitas as novas ligações de água. Até o fechamento, a reportagem não obteve resposta.
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Fonte: TVT News