Ualid Rabah: “Projeto de soberania do Brasil depende da reeleição de Lula”
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – O presidente licenciado da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal) e candidato a deputado federal Ualid Rabah afirmou que a eleição presidencial de 2026 representa uma disputa sobre o projeto de desenvolvimento e de soberania que o Brasil seguirá nos próximos anos. Para ele, a continuidade desse projeto está diretamente vinculada à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em entrevista à TV 247, Rabah sustentou que a soberania não deve ser compreendida apenas como um princípio de política externa ou de defesa territorial. Em sua avaliação, o conceito envolve capacidade industrial, domínio tecnológico, segurança digital, controle sobre recursos estratégicos, política monetária, defesa nacional e condições para que o Estado financie políticas públicas.
“O grande enfrentamento é entre a possibilidade de o presidente Lula continuar presidindo o Brasil e, consequentemente, continuar um projeto de soberania”, afirmou.
A interpretação apresentada por Rabah encontra correspondência com um dos principais temas mobilizados pelo próprio Lula na reta final da campanha. Em pronunciamento pelo 7 de Setembro, o presidente afirmou que o Brasil não aceitará interferências externas em decisões políticas, econômicas e comerciais e declarou que o país “não será colônia de ninguém”.
Na terça-feira (22), diante da Assembleia Geral das Nações Unidas, Lula voltou a relacionar democracia, autonomia nacional e resistência a interferências estrangeiras, defendendo o direito dos países latino-americanos de determinar seus próprios rumos.
Para Rabah, porém, esse debate precisa ser traduzido em questões materiais para não permanecer limitado à retórica diplomática.
“Quando nós falamos em soberania, temos que dar concretude para isso. Não dá para discutir essas coisas só com frases feitas”, disse.
Um dos pontos centrais de sua argumentação é a reconstrução da capacidade industrial brasileira. Rabah mencionou setores como máquinas agrícolas, caminhões, informática, fertilizantes, petróleo, defesa e tecnologia como exemplos de atividades que considera necessárias para reduzir a dependência externa do país.
Segundo ele, um projeto de soberania passa necessariamente pela capacidade do Brasil de produzir equipamentos e tecnologias considerados estratégicos.
“Nós precisamos discutir reindustrialização estratégica”, afirmou.
Rabah defendeu que o país recupere cadeias produtivas nacionais e reduza a dependência externa em áreas diretamente ligadas ao funcionamento da economia. Na avaliação dele, não basta produzir alimentos ou matérias-primas se máquinas, insumos e tecnologias fundamentais permanecem dependentes de fornecedores estrangeiros.
Ele citou como exemplo a produção agrícola. Para Rabah, o peso do Brasil no agronegócio precisa ser acompanhado pela capacidade nacional de fabricar tratores, colheitadeiras, caminhões, pneus e fertilizantes.
A discussão levantada pelo entrevistado também aparece em iniciativas recentes do governo. Em setembro, Lula sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras, com medidas destinadas a estimular o processamento desses recursos em território brasileiro e ampliar a participação nacional em cadeias tecnológicas. Ao anunciar a medida, voltou a associar industrialização à soberania econômica.
Outra dimensão considerada central por Rabah é a soberania tecnológica. Ele argumentou que o domínio de plataformas digitais e infraestruturas de informação tornou-se uma questão de segurança nacional.
“Quando nós falamos em soberania digital, não estamos falando apenas de brigar com Instagram ou de regulação. O que está em jogo é: nós teremos nossas plataformas ou não?”, questionou.
Para ele, o Brasil precisa desenvolver infraestrutura própria capaz de diminuir sua vulnerabilidade diante de ataques cibernéticos ou de decisões tomadas por empresas sediadas fora do país. A discussão, segundo Rabah, também deveria envolver sistemas de comunicação, serviços digitais, armazenamento de informações e tecnologias utilizadas pelo Estado.
A regulação das grandes plataformas digitais também apareceu no discurso de Lula na ONU nesta semana. O presidente defendeu regras para big techs e para o uso da inteligência artificial, associando o funcionamento dessas empresas à proteção da democracia e dos cidadãos.
Rabah ainda defendeu mudanças na política de defesa brasileira. Em sua avaliação, a estratégia militar do país continua excessivamente vinculada a concepções surgidas durante a Guerra Fria e precisa ser atualizada para refletir as transformações ocorridas no sistema internacional.
Ele citou o aprofundamento das relações brasileiras com China, Rússia, Índia e demais integrantes dos Brics como exemplo dessa mudança.
“Grande parte daqueles que foram moldados na Guerra Fria como inimigos são hoje nossos principais parceiros na construção de um mundo multilateral”, afirmou.
Para Rabah, a defesa nacional deveria acompanhar essa reorganização da política externa. Isso significaria ampliar intercâmbios militares, fortalecer a indústria brasileira de defesa e desenvolver tecnologias capazes de aumentar a capacidade de dissuasão do país.
Nesse contexto, ele destacou o programa do submarino de propulsão nuclear e defendeu investimentos em tecnologias relacionadas ao ciclo do combustível nuclear para fins pacíficos e estratégicos.
O argumento do dirigente é que autonomia diplomática, desenvolvimento industrial e capacidade de defesa formam partes de uma mesma política.
Essa visão também orienta sua avaliação sobre a política externa do governo Lula. Rabah destacou a ampliação dos Brics, o fortalecimento das relações Sul-Sul e as iniciativas para diminuir a dependência dos sistemas financeiros internacionais tradicionais.
“O presidente Lula aprofundou as relações Sul-Sul, aprofundou as relações com os Brics e está implicado na construção de um banco dos Brics muito mais sólido”, disse.
Rabah considera que um eventual quarto mandato de Lula poderia aprofundar essa orientação, mas ressalta que a correlação de forças no Congresso será determinante. Segundo ele, políticas de industrialização, defesa, investimento público e política externa precisam de sustentação parlamentar para avançar.
“Para que isso avance, você precisa ter maioria parlamentar ou uma quantidade de parlamentares muito maior do que a atual”, afirmou.
É nesse ponto que Rabah conecta a disputa nacional à eleição parlamentar e às disputas estaduais. Candidato no Paraná, ele considera que ampliar as bancadas ligadas ao campo governista será necessário para dar sustentação legislativa às mudanças que defende.
Na avaliação do candidato, a eleição presidencial brasileira também possui uma dimensão internacional por ocorrer em um momento de disputa entre diferentes projetos para a ordem global. Rabah apontou o peso dos Brics, as relações do Brasil com os países do Sul Global e a competição entre Estados Unidos e China como elementos que aumentam a relevância externa do pleito brasileiro.
Essa é uma interpretação política apresentada pelo entrevistado. No discurso realizado na ONU em 22 de setembro, Lula também colocou o multilateralismo e a rejeição à interferência estrangeira entre os eixos da posição brasileira, afirmando que o país pretende preservar a autonomia nas relações internacionais.
Para Rabah, entretanto, o debate sobre soberania só alcança a população quando relacionado diretamente às condições de vida. Ele rejeitou a ideia de que discutir autonomia nacional significaria abandonar temas como alimentação, emprego e renda.
“Uma coisa não anula a outra”, afirmou.
Segundo ele, a soberania econômica está relacionada à capacidade de financiar agricultura, oferecer crédito, preservar empresas estratégicas e manter políticas públicas universais.
“Soberania é a manutenção da comida barata, do juro barato, do crédito para o agricultor, do crédito para o consumidor e do crédito para o empresário brasileiro”, disse.
Rabah também associou o conceito à existência de serviços públicos.
“Soberania é termos a possibilidade de ter universidade pública gratuita. Soberania é ter o SUS. Soberania é ter escola pública e gratuita”, afirmou.
Nesse sentido, sua argumentação procura deslocar o conceito de soberania do campo exclusivamente militar ou diplomático para o cotidiano da população. Fertilizantes produzidos no país, energia, petróleo, crédito, indústria, tecnologia e serviços públicos seriam, em sua leitura, manifestações concretas da capacidade de uma sociedade decidir sobre seus próprios recursos.
Para Rabah, é justamente essa concepção ampliada que explica por que considera a eleição de 2026 decisiva.
“É preciso entender o que é soberania”, afirmou. “Ter soberania é ter direito à nossa agricultura, aos nossos insumos, à Petrobras, ao nosso petróleo, à Amazônia. Isso é soberania.”
Ao vincular a reeleição de Lula a esse projeto, Rabah apresenta a disputa presidencial como escolha entre diferentes estratégias de inserção internacional e desenvolvimento econômico. Em sua avaliação, o próximo governo terá de decidir não apenas quais políticas sociais e econômicas irá executar, mas também qual grau de autonomia o Brasil pretende construir diante das disputas internacionais que marcam a década.
Fonte: Brasil 247