Antes de morrer, jovem relatou prisão e ameaças em relação com advogado marcada por controle
Por Laís Gouveia — Brasil 247
247 – A investigação sobre a morte da estudante Isabelle Caracristi, de 22 anos, identificou indícios de violência psicológica, vigilância e controle exercidos durante o relacionamento com João Munhoz Neto, segundo documentos da Polícia Civil do Ceará. Mensagens e áudios recuperados do celular da jovem passaram a integrar a apuração sobre as circunstâncias que antecederam sua morte, ocorrida em 13 de setembro, em Fortaleza.
As informações foram publicadas pelo Diário do Nordeste, que teve acesso a documentos da investigação e a depoimentos de familiares. Até esta terça-feira (22), a extração dos dados do telefone de Isabelle havia sido concluída apenas parcialmente porque o aparelho sofreu danos na queda. Mesmo assim, a polícia afirma que o material recuperado já contém elementos relevantes para a apuração.
De acordo com os documentos citados pela reportagem, a análise inicial levou os investigadores a considerar a existência de violência psicológica e a aprofundar uma linha de investigação destinada a verificar eventual induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio. A polícia ainda procura determinar se o investigado, conhecendo a situação emocional da estudante, realizou alguma conduta que possa ter contribuído para o desfecho.
João, que mantinha um relacionamento havia cerca de dois meses com Isabelle, foi preso preventivamente. A defesa, representada pela advogada Lígia Peixe, afirmou que ele está “emocionalmente abalado e sob efeito de remédios desde que soube da morte da namorada”. A advogada também contesta a versão de que a mãe da estudante não teria sido avisada sobre a morte.
Documentos obtidos pelo Diário do Nordeste descrevem o que as autoridades classificam como uma escalada de comportamentos de controle ao longo do relacionamento. Segundo os registros, “Isabelle afirmou sentir-se ameaçada, manipulada, pressionada, sobrecarregada e presa, além de relatar expressamente que as condutas do investigado lhe faziam mal e adoeciam”.
Isabelle cursava Direito e conheceu João no ambiente profissional, depois de conseguir uma vaga de estágio no escritório em que ele trabalhava. Pouco tempo depois, os dois começaram a se relacionar. A jovem acabou deixando a casa da mãe para viver com o namorado, o irmão e a mãe dele.
A documentação da investigação aponta que João passou a ter presença intensa em diferentes áreas da rotina de Isabelle, incluindo questões familiares, financeiras, profissionais e de localização. Para os investigadores, os elementos coletados podem indicar uma situação de controle coercitivo, hipótese que ainda é examinada no inquérito.
Outro ponto analisado é a existência de uma câmera instalada na entrada do apartamento. Conforme os documentos, o equipamento teria sido colocado na soleira da porta e posteriormente retirado. A polícia ainda busca esclarecer quando a câmera foi removida e em quais circunstâncias isso aconteceu.
A decisão judicial que determinou a prisão preventiva menciona, em tese, práticas de vigilância, manipulação, constrangimento, pressão emocional, insistência sexual e interferência nas decisões da estudante. O Judiciário também citou indícios de controle sobre a localização de Isabelle e aspectos da vida financeira dela.
Áudio enviado antes da morte entrou na investigação
Um dos principais elementos recolhidos pela Polícia Civil é um conjunto de mensagens e áudios enviados por Isabelle a um parente na noite de sua morte. Cerca de uma hora antes de o impacto do corpo contra o solo ser registrado, a estudante pediu ao familiar: “Não apague este áudio, me responde”.
Na mesma conversa, conforme o material obtido pela reportagem, Isabelle afirmou que o áudio deveria servir como prova caso algo lhe acontecesse. Em uma das mensagens, declarou: “João Munhoz é um doente, não acredite nele”.
O parente disse à polícia que costumava conversar com Isabelle sobre o relacionamento e que a jovem relatava sentir-se explorada. Segundo o depoimento, ela afirmava que “não aguentava mais os jogos emocionais que ele fazia” e mencionava a possibilidade de recorrer à Justiça do Trabalho em razão da rotina que cumpria no escritório de advocacia.
O familiar contou que estava em uma lanchonete quando recebeu os áudios e, por isso, não conseguiu ouvi-los integralmente naquele momento. O conteúdo foi posteriormente entregue à Polícia Civil e passou a fazer parte do material examinado pelos investigadores.
O inquérito foi instaurado em 16 de setembro. Nos arquivos enviados no dia da morte, Isabelle teria relatado ameaças atribuídas ao companheiro e solicitado que a gravação fosse preservada. Segundo os documentos, os relatos reunidos pela polícia convergem para situações envolvendo “ciúmes, controle e ameaça”.
Em outro diálogo, Isabelle afirmou que não suportava mais o relacionamento. Questionada pelo familiar sobre a possibilidade de terminar o namoro, respondeu: “depois desse, não quero ninguém. Quero ficar sozinha. Não suporto mais o João”.
O mesmo parente relatou ter ouvido João, semanas antes da morte, ordenar durante uma ligação: “desliga esse telefone, estou mandando”. Isabelle teria respondido: “não vou desligar, você não manda em mim”.
Na noite de 13 de setembro, o familiar começou a ouvir os áudios enviados pela estudante por volta das 20h. Às 20h11, tentou telefonar de volta, mas Isabelle não respondeu. Pouco depois, enviou uma mensagem que também ficou sem retorno. O impacto contra o solo foi registrado por volta das 20h40.
Câmeras mostram Isabelle sozinha antes da morte
Imagens das câmeras de segurança do condomínio obtidas pelo Diário do Nordeste mostram que João e a mãe dele não estavam no edifício no momento da morte. O investigado aparece deixando o local antes das 19h.
Às 19h12, Isabelle foi registrada sozinha dentro de um elevador, com o celular na mão, seguindo em direção ao rooftop localizado no 23º andar. A Perícia Forense do Estado do Ceará apontou a presença de “lesões no corpo compatíveis com o impacto contra o solo”.
A polícia, portanto, não investiga a presença física de João no local da queda naquele momento, mas procura esclarecer se acontecimentos anteriores e eventuais condutas atribuídas a ele tiveram influência sobre o estado emocional e as decisões da estudante. A apuração segue baseada nos dados extraídos dos aparelhos, nos depoimentos, nos registros de câmeras e em outros elementos periciais.
Irmão relembra planos de Isabelle
Ao Diário do Nordeste, Rafael Magalhães, irmão da estudante, afirmou que Isabelle tinha o desejo de seguir carreira jurídica e atuar na defesa de pessoas vulneráveis.
“Desde muito pequena ela sempre quis ser advogada, defensora dos direitos, ela brigava pelos direitos, pelas suas questões. Ela queria ser advogada criminalista, uma juíza, queria defender os direitos de crianças e mulheres”, contou Rafael.
O irmão também recordou a relação próxima da jovem com a família. “Todo mês a Isabelle ia pintar o cabelo da minha avó e agora ela pergunta: ‘quem vai pintar meu cabelo?’. Ela era comunicadora, divertida, não tinha tempo ruim para a minha irmã”.
A Procuradoria Especial da Mulher da Câmara Municipal de Fortaleza e a Secretaria Municipal das Mulheres pediram atenção ao caso e celeridade nas investigações, respeitados os procedimentos legais e a autonomia das autoridades responsáveis.
Fonte: Brasil 247