Inteligência artificial na saúde é inevitável, mas exige soberania de dados, diz Ana Estela Haddad
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – A incorporação da inteligência artificial ao sistema de saúde brasileiro é inevitável, mas precisa ocorrer sob regras claras, com governança sólida, soberania sobre os dados e supervisão humana permanente. A avaliação é de Ana Estela Haddad, secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, segundo reportagem do Saúde Insider.
Para Haddad, a discussão não deve ser sobre adotar ou não a inteligência artificial, mas sobre as condições em que a tecnologia será utilizada. Isso envolve definir seus propósitos, estabelecer limites e garantir que decisões importantes para a vida dos pacientes não sejam simplesmente delegadas a sistemas automatizados.
A secretária também defendeu maior interoperabilidade entre os diferentes sistemas de saúde. O objetivo é permitir que as informações acompanhem o paciente ao longo de sua jornada de cuidado, independentemente de ele ter sido atendido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ou pela rede privada.
Governança e supervisão humana
Um dos pontos centrais para o avanço da inteligência artificial na saúde é a construção de uma governança de dados capaz de estabelecer critérios sobre coleta, armazenamento, compartilhamento e utilização das informações.
Haddad ressaltou que a supervisão humana deve permanecer presente em todo o ciclo de utilização da IA. A tecnologia pode apoiar diagnósticos, organização de serviços, acompanhamento de pacientes e tomada de decisões, mas sua incorporação precisa respeitar princípios éticos e as normas de proteção de dados.
Nesse processo, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) constitui uma referência fundamental. O Brasil também busca ampliar a cooperação internacional para desenvolver parâmetros de utilização responsável da tecnologia, inclusive por meio de acordo com a HealthAI, organização dedicada à governança da inteligência artificial na área da saúde.
Segundo Haddad, o país participa ainda das discussões sobre inteligência artificial realizadas em organismos e fóruns internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), além de iniciativas impulsionadas pela China.
Soberania dos dados do SUS
A expansão da infraestrutura digital é outro componente da estratégia. O Brasil trabalha para ampliar sua capacidade de nuvem, data centers e supercomputação, reduzindo vulnerabilidades e aumentando o controle nacional sobre informações consideradas estratégicas.
Na saúde, esse debate ganha relevância particular diante do enorme volume de informações produzidas pelo SUS. A Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) é uma das estruturas centrais desse processo e busca criar condições para uma circulação segura das informações entre diferentes pontos da rede de atendimento.
A soberania dos dados significa, nesse contexto, assegurar que informações sensíveis sobre milhões de brasileiros sejam administradas segundo as leis e os interesses públicos do país, mesmo diante da crescente participação de grandes empresas internacionais no desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial.
IA precisa gerar benefícios concretos
Haddad também alertou para a necessidade de utilização racional da inteligência artificial. Nem todo problema precisa ser solucionado por uma ferramenta sofisticada de IA, especialmente quando tecnologias mais simples podem produzir resultados equivalentes com menor custo.
A avaliação é que a digitalização não deve se transformar em um objetivo em si mesma. O critério fundamental deve ser o benefício efetivo produzido para pacientes, profissionais e para o funcionamento do sistema de saúde.
Essa abordagem procura evitar investimentos elevados em soluções tecnológicas que acrescentem complexidade sem melhorar os resultados clínicos ou a eficiência dos serviços.
Hospital inteligente avança no SUS
Entre os projetos em desenvolvimento está o hospital inteligente do SUS, iniciativa que pretende incorporar tecnologias digitais, inteligência artificial e novos modelos de gestão ao atendimento público.
O projeto está em fase de implementação e inclui uma rede de unidades de terapia intensiva desenvolvida em parceria com a Universidade de São Paulo (USP). A proposta é utilizar tecnologia e integração de dados para aumentar a eficiência das UTIs, apoiar equipes médicas e melhorar os desfechos dos pacientes.
Haddad reconhece a complexidade da implantação de um hospital inteligente em um sistema das dimensões do SUS, mas avalia que, depois de testadas e aperfeiçoadas, essas soluções poderão produzir impactos relevantes, especialmente nos atendimentos de urgência e emergência.
A transformação digital da saúde brasileira, portanto, não depende apenas da capacidade tecnológica. Para Haddad, será necessário combinar inovação, infraestrutura, proteção dos dados, integração entre sistemas e supervisão humana para que a inteligência artificial seja utilizada como instrumento de melhoria do cuidado e não simplesmente como mais uma camada de tecnologia dentro do sistema.
Fonte: Brasil 247