Trump reafirma agenda colonialista na ONU com ataques a imigrantes, Venezuela, Cuba, México, Irã e Palestina
Por Jean Barroso — Esquerda Diário

Em um discurso que reforça sua agenda colonialista, reafirmando o aprofundamento do giro reacionário do seu segundo mandato, Trump atacou imigrantes, a Venezuela, o México, Cuba, Palestina, o Irão, e reafirmou seu belicismo anunciando a construção de bases na Groenlândia e acordo com a Dinamarca, além de atacar a suposta agenda climática da ONU, defendendo também os cortes de orçamento de programas humanitários e de auxílios a refugiados afirmando que seriam um corte na “burocracia globalista”.
Foto: EDUARDO MUNOZ / Eduardo Munoz/REUTERS
Em um discurso que reafirma os Estados Unidos como uma potência colonialista e belicista, Donald Trump reafirmou o aprofundamento do giro reacionário de seu segundo mandato, ao passar a maior parte do seu discurso enumerando pretensos inimigos dos EUA e anunciando medidas unilaterais, sejam elas de guerra comercial ou de guerra de fato, como no caso do Irã.
Trump iniciou seu discurso logo após a fala de Lula, que tinha centra sua fala no projeto de reformar a Organização das Nações Unidas para salvar a política multilateralista. As palavras do líder da potência imperialista foram um balde de água fria em qualquer um que ainda acredite que a via pacifista da diplomacia entre estados possui algum valor em um mundo capitalista em crise.
Trump iniciou sua fala elogiando os agentes da reacionária polícia de imigração, ICE, afirmando dados totalmente falsificados sobre suposta queda da criminalidade nos locais aonde houveram prisões administrativas e deportações em massa, estas que ocorreram através de um conluio legal com governos de outros países que aceitaram receber as pessoas deportadas. Para deixar claro seu racismo, Trump enumerou locais dos Estados Unidos com grande concentração negra e imigrante, afirmando que estes locais agora estariam “seguros”, segundo tais dados que ninguém sabe de onde ele tirou.
Em seguida, Trump fez um longo discurso contra o Irã, defendendo a toda a política de guerra assumida pela sua administração até então. Em sua narrativa, os Estados Unidos estariam cumprindo o papel de verdadeiros heróis defensores da ordem mundial ao entrarem nessa guerra totalmente ilegal, com milhares de civis mortos incluindo mulheres e crianças, infraestrutura do país destruída, e mesmo assim, longe de qualquer vitória política ou militar para os Estados Unidos Israel. Com esse discurso, Trump procurou esconder as derrotas que vem sofrendo até então, ao reforçar unilateralmente as sanções econômicas ao Irã e a qualquer país que desrespeite estas imposições.
Grande parte do discurso, em seguida, tratou do giro político para assegurar o controle neocolonial dos países da América Latina pelos Estados Unidos, reafirmando a propaganda veiculada pelo Departamento de Estado norte americano, na qual se anunciou a renovação da Doutrina Monroe, apelidada agora de “Donroe”.
No “bloco América Latina” de seu discurso, Trump primeiro louvou a ação militar ilegal que culminou no sequestro de Maduro, afirmando que agora os Estados Unidos criaram um acordo para a exploração de petróleo, descrito como talvez “the biggest deal” (o maior negócio) que algum presidente já tivesse feito. O acordo neocolonial prevê a violação total da soberania do povo venezuelano sobre seus recursos, o mesmo que ele procura fazer sobre os outros países do continente.
No mesmo discurso, Trump defendeu o estrangulamento econômico de Cuba realizado com o bloqueio energético, enquanto que também defendeu seu plano de “escudo das Américas”, que supõe uma “cooperação” de países alinhados com Trump para dar liberdade militar à ação dos Estados Unidos, sob a justificativa de que facções criminosas seriam “narco terroristas”. O “combate ao terrorismo” exime o governo Trump de pedir autorização para o legislativo norte americano para ações militares em outros países, e é isso que está em jogo. Neste sentido, Trump se dirigiu ao México, afirmando que a existência de facções criminosas neste país, o tornariam espécie de “república islâmica” (referência ao Irã) na América Latina. Ou seja, em uma mesma frase proferiu um ataque reacionário contra dezenas de países.
Neste sentido, também, a interferência de Trump nas eleições brasileiras é parte de uma estratégia ofensiva, que enxerga Brasil e México como possíveis obstáculos para uma política colonialista na América Latina.
Quem, aparentemente, não ofereceria mais obstáculo ao belicismo de Trump, ao que pareceu em seu discurso, é a Dinamarca. Trump anunciou a criação de duas bases para impedir a presença de qualquer “inimigo” na Groenlândia. Afirmou que tinha tido aval da Dinamarca para tal, e neste momento, a câmera se voltou à delegação dinamarquesa, que assentiu às suas palavras balançando a cabeça afirmativamente. É preciso acompanhar para ver até onde vai esta cooperação.
Por fim, Trump anunciou o banimento e a sanção contra os membros da Corte Internacional de Haia, que lançou mandado de prisão para Benjamin Netanyahu e outros membros do governo israelense por genocídio contra o povo palestino. Atacando direitos básicos do povo palestino enquanto financia a máquina genocida israelense, Trump impõe que genocídio não seja reconhecido pela comunidade internacional, lançando um argumento “anti globalista”. Para tal, afirmou que a ONU (essa mesma, que nada faz para defender seus próprios funcionários quando o tema é a Palestina), e os organismos internacionais, estariam influenciados por uma burocracia “globalista”, com uma agenda “esquerdista”, a qual seu mandato estaria combatendo através de cortes no orçamento da Organização das Nações Unidas. Este discurso se apoiou também no negacionismo da questão ambiental, quando Trump negou o aquecimento global, e se disse contra supostas taxações por emissões de carbono realizadas por navios no comércio global, único momento de sua fala que foi aplaudido por algum setor da diplomacia mundial. Curiosamente, o discurso que se aplica à ONU não é o mesmo aplicado aos Estados Unidos, quando este país, via Tump, taxa todo o mundo segundo critérios arbitrários e de interesse político.
Em um discurso de quase 40 min, a única verdade dita por Trump foi a seguinte: que seus opositores, internacionalmente, esperam por uma derrota dos republicanos nas legislativas que ocorrerão neste ano. Mas o que Trump argumentou, à seu favor, é que ele mesmo não está concorrendo nestas.
Quer dizer, para nós, o significado dessa realidade deveria ser: não é possível ficar esperando resoluções pela via parlamentar, ou pelo pacifismo diplomático. O giro direitista aprofundando por Trump, numa segundo mandato que é cada vez mais seu círculo interno, sem mediações ou compromissos com as instituições da própria democracia burguesa degradada, isso aliado ao crescimento de grupos, armados ou não, da extrema direita organizada, implica tarefas muito superiores para quem quer que queira combater sua política de extrema direita. A mera posição passiva, a espera de uma “negociação” por cima, é uma ilusão que pode provocar desastres políticos e derrotas históricas.
Em oposição à isso, temos o claro exemplo de setores que, pela via da ação direta, combateram a ICE nos Estados Unidos, organizaram seus vizinhos, impedindo o sequestro e a deportação de imigrantes. O mesmo exemplo podemos ver, em diversos momentos, com o confronto direto contra figuras de extrema direita representantes da supremacia branca nos Estados Unidos. Se nos próprios Estados Unidos, existe essa oposição à Trump nas ruas, não será na América Latina e nos países a que os EUA busca impor sua hegemonia colonialista pela força, que o reacionarismo neocolonial de Trump não encontrará resistência.
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Fonte: Esquerda Diário