A mulher de César
Por Ivan Guimarães — Brasil 247
Notas sobre a mulher de César, aquela que
“não basta ser honesta, deve parecer honesta.”
Júlio César foi um brilhante general romano, com sucesso nas guerras gálicas — na região que hoje corresponde, em grande parte, à França. Foi muito popular e respeitado pelo povo romano. Foi o homem que enterrou a República Romana, restaurando o Império, tendo sido designado imperador até ser assassinado em 42 a.C. pelos senadores. Ele inspirou frases lapidares, e aqui vou explorar uma:
“A mulher de César não basta ser honesta, ela deve parecer ser honesta.”
Vou tentar refletir sobre essa frase.
- Ser mulher de César é uma função pública. Não importa que você não tenha sido eleita ou designada. É, e pronto. E, assim, está sujeita à “opinião pública”, sempre pronta a atirar a primeira pedra — e todas as demais.
- A mulher de César somos todos nós, aqueles que têm relação com a política ou que a observam, sejam mulheres, homens, advogados, banqueiros, servidores públicos ou jornalistas.
- AMC não vai a eventos, sejam festas, cafés, jantares ou almoços, inclusive festas em Angra (RJ), Praia do Forte (BA) ou um puteiro ad hoc na Vila Buarque (SP).
- AMC não tem filhos ou sobrinhos. Não vai a reuniões promovidas por parentes ou colegas. Não manda nem recebe presentes. E não participa de negócios de qualquer tipo.
- Tem por verdade absoluta que tudo o que fizer será visto e comentado.
- A mulher de César (AMC) sabe que tudo o que disser e fizer poderá e será usado contra ela. Sempre.
- Se nada fizer, isso também será usado contra ela.
- Ela será considerada, a priori, culpada. E, se após meses ou anos nada do que foi alegado for comprovado, será esquecida, mas não inocentada.
- AMC não aceita nenhum presente que lhe seja ofertado: nem café requentado, nem carona de jatinho, cadeira em camarote de jogo da Libertadores, degustação de charuto e whisky em Londres ou bicicleta velha.
- AMC se veste com simplicidade. Não usa joias, roupas de grife ou relógios que chamem a atenção. Ela sabe quanto custam os relógios e quanto ganham os pobres.
- AMC trabalha bem longe do marido. O melhor é que seja professora concursada do Estado, dona de brechó ou exerça qualquer outra atividade que a torne invisível. Ela não tem sócios ou parceiros.
- Ela não tem amigos, amigas ou padres confidentes. Ela sabe que sob a tortura, toda carne se trai.
- Por fim, ela faz terapia lacaniana. Afinal, “o inferno são os outros” (J.-P. Sartre).
Fonte: Brasil 247