Simulação, estudo e controle emocional: como candidatos se preparam para os debates?

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Publicado em 21 de Setembro de 2026 às 16:50

Julia Camim

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Os debates são momentos marcantes do período eleitoral. Tanto para quem gosta de acompanhar as movimentações políticas quanto para quem ainda está desatualizado, os embates entre os candidatos são uma chance de conhecer as propostas e analisar como se comportam diante de temas variados que impactam a vida da população. 

Em tempos de redes sociais e propaganda eleitoral intensa em ambiente digital, os debates tomaram novos contornos, mas não perderam a relevância. Na verdade, o momento de discussão de ideias e projetos passou a servir também como solo fértil para as campanhas que buscam ampliar o alcance no meio on-line.

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Segundo o consultor de marketing político Marcelo Vitorino, o debate “deixou de ser um evento de duas horas e virou uma fábrica de trechos de trinta segundos”. 

A transmissão alcança quem já estava interessado; o corte (nas redes sociais) alcança quem nem sabia que havia debate naquele dia.

Marcelo Vitorino,   consultor de marketing político

Esse fenômeno, conforme o especialista, reorganizou a preparação dos candidatos para os debates em duas frentes: uma ofensiva, que tem como objetivo gerar cortes o mais rápido possível para as redes sociais; e outra defensiva, que foca nas falas e atitudes dos adversários.


Vitorino afirma que, no primeiro caso, a equipe costuma ser montada para cortar, legendar e publicar trechos da transmissão em tempo real, e o candidato passa a ser treinado para produzir blocos com começo, meio e fim, que se sustentem sozinhos fora do contexto. “Resposta boa que só faz sentido para quem viu a pergunta não circula”, pontua .


Já o segundo caso é marcado pela busca de falhas dos outros concorrentes. Segundo o consultor, esse material chega ao eleitor descolado da situação que o produziu e expõe incoerências ou faltas dos adversários.


“Na prática, a orientação é preparar o candidato para o corte e preparar a equipe para o corte do adversário, com resposta pronta ainda na mesma noite. Debate que termina e vira reunião no dia seguinte já perdeu a disputa da narrativa”, explica o consultor.


Mesmo nesse cenário, é importante que os candidatos continuem se preparando de maneira estratégica para os debates. Vitorino destaca três linhas principais para guiar o treino:

Estudo do conteúdo: exige a elaboração de roteiros por tema, com números, exemplo local e uma frase de fechamento. “O candidato aprende a estrutura e não precisa decorar o texto.”

Mecanismo de defesa: listar críticas para se preparar e produzir respostas para cada uma, a fim de blindar o candidato.

Decisão sobre comparecimento: por fim, a equipe precisa analisar se é benéfico ao candidato ir ao debate e confrontar os adversários, ir e se proteger ou simplesmente não comparecer.

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Segundo o especialista, tratar o debate como um simples compromisso de agenda, para o qual o candidato se prepara horas antes, dentro do carro e com uma pasta de números na mão, não funciona. 


O ideal, para ele, é treinar um ou dois dias inteiros, com simulado completo. Conforme Vitorino, se a equipe de campanha não reserva esses dias de preparo no calendário, já decidiu perder o debate.

Já no dia do confronto em si, a recomendação é descansar. “Candidato cansado erra palavra, e palavra errada em debate cobra um preço que nenhuma inserção de televisão paga depois”, defende Vitorino.

Em um debate, é possível que a estratégia de alguns candidatos seja atacar e fazer provocações para confundir ou exaltar o concorrente. Então, assim como estudar as próprias propostas, é importante saber o que têm a dizer os adversários.


Diante disso, as equipes de campanha, explica o consultor, costumam fazer estudos sobre os concorrentes, recolhendo entrevistas, vídeos, podcasts e discursos, transcrevendo todo o material e cruzando os resultados.

“O que sai daí é uma lista de incoerências entre o que o adversário promete no palanque e o que ele mesmo escreveu no plano que registrou”, afirma Vitorino.


Ao mesmo tempo, é igualmente necessário, apesar de desconfortável, segundo o especialista, mapear as vulnerabilidades do próprio candidato, realizando entrevistas em profundidade, com termo de confidencialidade, “para saber o que ele não quer que apareça”.

Vitorino afirma que é justamente o que o concorrente conta com dificuldade que será utilizado pelos adversários.

Ninguém entra preparado em um debate sem ter escrito antes a lista dos próprios defeitos.

Marcelo Vitorino, consultor de marketing político

Com todas as listas de vulnerabilidades e incoerências em mãos, as equipes de campanha têm a capacidade de realizar simulados mais “duros” e próximos de cenários estressantes que podem acontecer na vida real, o que prepara os candidatos para situações que possam desestabilizá-los. 

Para o especialista, a estratégia fundamental para lidar com as provocações é não responder no mesmo tom e voltar ao debate de ideias e propostas. “O candidato não precisa vencer a provocação. Ele precisa atravessar a provocação e voltar para o assunto que interessa a ele.”

Além de ter na ponta da língua propostas, dados e informações sobre os adversários, o candidato precisa saber comunicar suas ideias não só com uma fala simples e inteligível, mas também com a postura e a linguagem corporal. Para isso, existem treinos específicos que devem, segundo o consultor, começar meses antes do período eleitoral, com trabalho de diagnóstico da equipe de campanha. 


“Eu assisto aos vídeos antigos do candidato e procuro um padrão. Tem gente que conversa muito bem em uma mesa e se transforma quando a câmera acende. Tem gente que impõe a voz sem perceber. Tem gente com ansiedade que precisa de acompanhamento profissional, e eu indico terapia para quase todo cliente, cada um por um motivo diferente”, conta Vitorino.


Depois de identificados os padrões comportamentais do candidato, é hora de trabalhar para desenvolver as habilidades consideradas fundamentais pelo consultor de marketing político, que, segundo ele, são:

Poder de síntese: falar em poucos segundos sem perder o argumento.

Escuta: o candidato é visto pelo público enquanto o adversário fala. “Expressão fechada, riso irônico ou olhar para o teto comunicam sem estar no roteiro”, aponta Vitorino.

Controle emocional: capacidade de ouvir uma acusação e responder com dados.

Presença física: envolve ritmo de fala, ocupação do espaço e figurino.

Os candidatos também costumam treinar a oratória, que é a capacidade de falar com clareza e segurança, e a postura corporal. Para Vitorino, ambas as qualidades são aprimoradas com a prática: lendo, falando, gravando, assistindo e corrigindo.

Para decidir entre proteger o candidato, provocar o adversário ou até mesmo comparecer ao debate ou não, o consultor explica que as equipes de campanha analisam as pesquisas eleitorais, que são capazes de informar “qual jogo ele vai jogar naquela noite”.

Segundo Vitorino, se o concorrente lidera as intenções de voto com folga, a estratégia mais segura é administrar o risco. Isso significa não citar nomes de adversários menores, não aceitar as provocações e não subir o tom de voz. “Para quem está na frente, empatar o debate é ganhar a noite”, afirma o consultor.

O erro clássico do líder é achar que precisa vencer no grito e acabar dando palco para quem não tinha palco.

Marcelo Vitorino, consultor de marketing político

Já para quem está atrás nas pesquisas, mas com chance real de melhorar o resultado, o plano pode incluir um confronto mais direto, “mas com prova na mão”, ressalta Vitorino. “Ataque sem lastro sobra para quem atacou, e sobra na mesma noite”, alerta o especialista.


Por fim, quem está atrás dos candidatos mais competitivos costuma tentar aproveitar ao máximo o debate, que se configura como uma mídia gratuita de massa. Vitorino diz que, para “existir no debate”, esse concorrente, então, busca embates.


Além da intenção de voto, a pesquisa também informa aos candidatos o índice de rejeição que enfrentam. Neste caso, o consultor afirma que o confronto direto pode aprofundar a rejeição em vez de reduzi-la. Um candidato muito rejeitado, então, deve ser mais protegido e trabalhar a percepção sobre ele fora da transmissão.

“Bater no adversário é se posicionar tão bem que a comparação faz o trabalho sozinha. Apontar defeito do outro é o caminho fácil e é o que menos converte voto”, defende Vitorino.

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