Por Gustavo TapiocaBrasil 247

A trama que culminou no 8 de janeiro previa assassinar Lula, Alckmin e Moraes. Agora, redes coordenadas, grupos extremistas, inteligência artificial e Donald Trump criam as condições para contestar uma possível vitória de Lula e tentar de novo impedir sua posse. 

Ninguém imaginava que uma multidão invadiria o Capitólio para impedir que o Congresso dos Estados Unidos confirmasse a vitória de Joe Biden. Aconteceu em 6 de janeiro de 2021, no país que se apresenta como a maior democracia do mundo. 

Ninguém imaginava que uma multidão atravessaria livremente a Praça dos Três Poderes, invadiria o Congresso, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal e destruiria o patrimônio público para tentar reverter a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Aconteceu em 8 de janeiro de 2023, em Brasília. 

Não foi uma manifestação que escapou ao controle. Foi uma tentativa de golpe de Estado contra Lula, empossado presidente exatamente uma semana antes, em 1º de janeiro. Os invasores pretendiam criar as condições para uma intervenção militar e derrubar o governo constitucional recém-instalado.  

O ataque foi a culminação de uma trama golpista mais ampla. Um de seus documentos mais brutais, o plano Punhal Verde e Amarelo, previa, segundo a investigação, o assassinato do presidente eleito Lula, do vice-presidente eleito Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes. O plano é anterior à posse e não foi elaborado especificamente para o 8 de janeiro, mas revela até onde a conspiração estava disposta a chegar. 

Depois dos dois ataques, vieram as perguntas: como foi possível? Por que os sinais não foram levados a sério? Por que as instituições não impediram o que estava sendo anunciado diante de todos? 

Agora, a duas semanas da eleição presidencial brasileira de 2026, outra pergunta precisa ser feita: outro 8 de janeiro está sendo preparado? 

Não há, até agora, prova pública de uma operação completa, com comando central, financiadores, ônibus, acampamentos, adesão militar ou policial e um plano para ocupar novamente os Poderes. O primeiro 8 de janeiro não começou em 8 de janeiro. O próximo, se vier, também terá começado antes. É nesse sentido que o golpe já começou: não como uma operação completa e comprovada, mas como a produção das condições políticas, digitais e internacionais que poderiam permitir a ruptura. 

O ataque começa antes da invasão 

O Capitólio foi precedido por meses de acusações de fraude eleitoral sem provas, pressão sobre autoridades estaduais, tentativa de impedir a certificação da vitória de Biden e mobilização permanente dos seguidores de Donald Trump. 

O 8 de janeiro brasileiro também começou muito antes. Jair Bolsonaro atacou as urnas eletrônicas, desacreditou o Tribunal Superior Eleitoral, recusou-se a reconhecer claramente a derrota, estimulou a desconfiança de seus eleitores e deixou atrás de si bloqueios de estradas, acampamentos diante dos quartéis e pedidos de intervenção militar. Antes da invasão, houve até uma tentativa de atentado a bomba no aeroporto de Brasília na véspera do Natal, em 24 de dezembro de 2022. 

O método é conhecido: primeiro se convence uma parcela da população de que a derrota só poderá resultar de uma fraude. Depois, transformam-se os tribunais e as autoridades eleitorais em inimigos. Por fim, apresenta-se a violência como uma reação “legítima” de cidadãos supostamente roubados. 

Em 2026, a preparação da narrativa voltou. 

A fabricação de um juiz-herói 

Levantamento do ICL Notícias identificou uma rede de 19 contas ligadas a páginas de apoio a Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira. Entre 5 e 9 de setembro, essas contas fizeram 117 publicações para promover um perfil dedicado ao ministro André Mendonça, do STF. 

O perfil saltou de 24 seguidores de Mendonça para 329.722 em menos de dez dias. Em uma das rodadas, 17 contas publicaram em apenas 27 minutos. As postagens somaram mais de 2,5 milhões de interações. Parte dos perfis havia sido construída anteriormente com conteúdo religioso e depois mudou de nome para apoiar personagens da extrema direita. 

Outro levantamento, do Aos Fatos, encontrou pelo menos 24 perfis dedicados a Mendonça, com uma audiência conjunta de 5,6 milhões de seguidores. 

Não há indício de que o ministro tenha participado, autorizado ou sequer conhecido a operação. O fato politicamente relevante é outro: uma máquina digital frenética construiu em torno dele uma popularidade artificial e uma autoridade que mistura religião, Justiça e campanha eleitoral. 

Mendonça passou a ser apresentado como “escolhido de Deus”, enquanto Alexandre de Moraes e outros ministros eram demonizados. Em seguida, um vídeo adulterado por inteligência artificial atribuiu ao Jornal Nacional a notícia falsa de que Mendonça teria tornado Lula inelegível. O TSE precisou desmentir a invenção. 

A rede parecia ensaiar algo maior: utilizar o ministro como fonte de legitimidade para uma decisão que ele nunca tomou. Se Lula vencer, qualquer voto, frase ou silêncio de Mendonça poderá ser recortado, deformado e apresentado como prova de que a eleição foi roubada e o juiz que tentou impedir a fraude acabou silenciado pelo próprio Supremo. 

Da tela para os explosivos 

A radicalização não permaneceu apenas nas plataformas. 

Em 4 de agosto de 2026, a Polícia Civil do Distrito Federal deflagrou a Operação Rede Interrompida contra oito investigados, de 19 a 31 anos, localizados em cinco estados. Segundo a investigação, o grupo discutia ataques durante o período eleitoral, compartilhava plantas de prédios da Esplanada e manuais de fabricação de explosivos. O Palácio do Planalto aparecia como alvo principal. Também se cogitava atacar um local onde seria realizado um debate presidencial. 

Não há prova conhecida de ligação entre esse grupo, a campanha de Flávio Bolsonaro, a rede de apoio a Mendonça ou qualquer governo estrangeiro. É indispensável não fabricar uma conexão que a investigação ainda não demonstrou. 

Mas também é impossível ignorar o que a operação comprovou: havia pessoas, distribuídas por vários estados, discutindo concretamente ataques contra autoridades e prédios públicos durante a campanha eleitoral de 2026. 

As plataformas ficaram mais poderosas 

Mais de cinco anos depois da invasão do Capitólio e quase quatro anos após o ataque à Praça dos Três Poderes, as plataformas digitais estão mais poderosas, concentradas e armadas com inteligência artificial capaz de fabricar vozes, fotografias, vídeos, multidões e acontecimentos inexistentes. 

Em 2021 e 2023, as redes disseminaram mentiras e ajudaram a organizar manifestações. Em 2026, podem criar o próprio acontecimento que servirá de pretexto à mobilização. Um falso anúncio de mudança na data da eleição, uma montagem mostrando urnas destruídas ou um vídeo inexistente de um ministro acusando fraude podem alcançar milhões de pessoas antes que a verdade consiga calçar os sapatos. 

No Brasil, essas máquinas servem ao bolsonarismo. No mundo, alimentam a ultradireita liderada por Donald Trump. Não são apenas instrumentos de propaganda. Organizam seguidores, fabricam maiorias, escolhem inimigos e transformam indignação digital em mobilização de rua. 

O personagem comum 

Há um personagem comum à possibilidade de outro 6 de janeiro em Washington e de outro 8 de janeiro em Brasília: Donald Trump. 

Ele foi o protagonista político da campanha de fraude que culminou na invasão do Capitólio. No Brasil, não há prova de que tenha comandado o 8 de janeiro, mas o método que criou foi reproduzido por Jair Bolsonaro: desacreditar antecipadamente a eleição, recusar a derrota e mobilizar os seguidores contra as instituições. 

Agora Trump está novamente na Casa Branca. Pode voltar a contestar eleições nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, apoiar Flávio Bolsonaro, deslegitimar uma vitória de Lula e oferecer respaldo internacional à extrema direita brasileira. 

Em 2022, Joe Biden reconheceu rapidamente a vitória de Lula e ajudou a fechar a porta externa para a aventura golpista. Em 2026, Trump poderá fazer o contrário: retardar ou negar o reconhecimento, exigir auditorias, impor sanções e repetir para o mundo uma acusação de fraude produzida no Brasil. 

Essa hipótese deixou de ser apenas uma preocupação deste artigo. Em entrevista exclusiva a Jamil Chade, publicada pelo ICL Notícias nesta segunda-feira, 21 de setembro, Steven Levitsky, professor de Harvard e coautor de Como as democracias morrem, afirmou que existe uma “boa probabilidade” de Trump não reconhecer uma eventual vitória de Lula. Segundo ele, a ingerência do governo norte-americano poderá aumentar nas semanas que antecedem a eleição. Levitsky lembra que o Brasil possui uma longa história de eleições limpas e considera implausível sustentar que exista fraude no país. 

A preocupação chegou ao próprio Lula. Parlamentares democratas articulam um encontro com o presidente, em Nova York, para discutir a defesa da legitimidade da eleição brasileira e o reconhecimento internacional do resultado proclamado pela Justiça Eleitoral. A reunião ainda não está confirmada, mas sua preparação revela que Lula trabalha com a possibilidade concreta de Trump contestar sua vitória. 

E com qual objetivo? A recusa de Trump não anularia juridicamente a eleição, mas ofereceria respaldo político e propagandístico à denúncia de fraude, estimularia a mobilização das redes extremistas e ajudaria a criar o ambiente para tentar impedir a posse de Lula. Em 2022, o presidente dos Estados Unidos ajudou a isolar os golpistas. Em 2026, está do outro lado. 

Seu fiel escudeiro Marco Rubio transforma esse projeto em política externa. O secretário de Estado apresenta-se como executor de uma nova Doutrina Monroe: afastar a China, subordinar a América Latina e tratar o “Hemisfério Ocidental” como área de controle estratégico dos Estados Unidos. 

Nesse projeto, o Brasil é a joia da coroa. Flávio oferece minerais críticos, terras raras, petróleo e alinhamento político. Em troca, receber de Washington apoio para chegar e se manter no Palácio do Planalto, libertar o pai, anistiar os golpistas e remodelar o Supremo com nomes de sua absoluta confiança. 

Eles já mostraram do que são capazes 

Não é preciso imaginar até onde Trump e Rubio podem ir. Basta observar o que já fizeram. 

Em Gaza, o governo Trump fornece armas a Israel, acusado por uma comissão da ONU de praticar genocídio contra os palestinos. No Irã, uma missão das Nações Unidas encontrou fundamentos para considerar crime de guerra o ataque norte-americano contra uma escola primária em Minab, que matou 156 civis, entre eles 120 crianças. 

Em Cuba, Trump e Rubio impuseram uma asfixia energética que ameaça 9,4 milhões de habitantes. No Caribe e no Pacífico, forças norte-americanas mataram pelo menos 231 pessoas em ataques contra embarcações classificadas unilateralmente como pertencentes a “narcoterroristas”, sem apresentar publicamente as provas em muitos dos casos. Pescadores estavam entre as vítimas. 

Na Venezuela, forças norte-americanas capturaram Nicolás Maduro e Cilia Flores no Palácio de Miraflores e os levaram para uma prisão em Nova York. Ambos se declararam inocentes e aguardam julgamento. A defesa classifica a operação como “sequestro militar”. 

Jeffrey Sachs afirmou que Trump rasgou a Carta das Nações Unidas, chamou os Estados Unidos de “máquina de guerra” e definiu seu governo como um “regime de valentões”. Em outra ocasião, foi ainda mais direto: chamou Trump de louco. 

Se Trump e Rubio sustentaram o massacre de civis, asfixiaram uma ilha, autorizaram execuções no mar e capturaram o presidente de outro país, por que o Brasil deveria considerar impossível uma interferência decisiva na eleição ou o apoio político a outro 8 de janeiro? 

O que existe — e o que ainda não apareceu 

Outro 6 de Janeiro nos Estados Unidos e outro 8 de janeiro no Brasil não são inevitáveis. Uma repetição literal talvez seja até menos provável porque as instituições conhecem agora o método, reforçaram a segurança e responsabilizaram parte dos envolvidos. 

Também não existe, neste momento, prova pública de comando central, financiamento, deslocamento de multidões, novos acampamentos diante de quartéis ou adesão das Forças Armadas e das polícias a uma ruptura no Brasil. Mas existem a força das redes digitais e os elementos iniciais:  

a acusação antecipada de fraude; o cerco ao STF e ao TSE; a fabricação digital de um juiz-herói; redes religiosas e políticas coordenadas; inteligência artificial produzindo acontecimentos falsos; grupos investigados por planejar ataques; um candidato que promete libertar o pai e indicar cinco ministros para um Supremo de onze cadeiras; e um presidente dos Estados Unidos capaz de oferecer à contestação brasileira a legitimidade externa que faltou em 2022. Não sabemos se haverá outro 8 de janeiro. Sabemos que já estão sendo produzidas as condições que poderiam torná-lo possível. 

O processo já começou 

O Capitólio e a Praça dos Três Poderes pareciam invioláveis. Não eram. O primeiro 6 de janeiro, em Washington, e o primeiro 8 de janeiro, em Brasília, começaram muito antes das invasões. 

Outro 8 de janeiro pode não ocorrer. Mas um golpe não começa quando a multidão invade os palácios. Começa quando a fraude é fabricada, as instituições são transformadas em inimigas, a violência passa a ser justificada e uma potência estrangeira oferece respaldo aos que pretendem desconhecer a vontade das urnas. 

Esse processo já começou. 

Fonte: Brasil 247

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