A coroa de Anitta veio das mãos de Eloína — e a história começa muito antes de Virginia

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Por Sara YorkBrasil 247

A cena poderia ser lida apenas como mais uma coroação no calendário do Carnaval, mas a Grande Rio produziu, na noite deste domingo, uma imagem que carrega quase cinco décadas de memória do samba, da cultura negra e da presença travesti na construção da festa brasileira: Anitta recebeu sua coroa das mãos de Eloína dos Leopardos, a travesti que, em 1976, entrou para a história ao ocupar o posto de primeira rainha de bateria da Beija-Flor.

Antes de receber a coroa, Anitta preparou o sentido daquela passagem. Diante da quadra da Grande Rio, evocou seu orí, pediu licença às pessoas que vieram antes dela e chamou Eloína para ocupar o centro da cerimônia como representante de uma linhagem que antecede a própria artista.

“Se hoje uma coroa há de tocar o meu orí, que venha das mãos de quem me guarda, me guia e abre os meus caminhos”, disse Anitta, antes de apresentar Eloína como “a travesti que abriu caminho para que tantas outras pudessem reinar”.

A escolha da palavra é importante porque desloca a coroação do campo da celebridade para o território da memória. Eloína não aparece apenas como uma personagem histórica do Carnaval, mas como alguém cuja trajetória permite compreender que determinados lugares, hoje disputados por artistas de enorme projeção pública, foram construídos também por corpos que precisaram enfrentar o estranhamento, a violência e o apagamento para ocupar a cena.

Em 1976, quando Joãosinho Trinta colocou Eloína à frente da bateria da Beija-Flor, a figura da rainha de bateria ainda estava se formando dentro do Carnaval carioca. Eloína tornou-se uma presença pioneira naquele espaço e posteriormente consolidou seu nome na vida cultural do Rio de Janeiro com a Noite dos Leopardos, tornando-se uma referência para diferentes gerações da comunidade LGBTQIA+ e para a própria história da festa.

Quase cinquenta anos depois, é ela quem coloca a coroa sobre a cabeça de Anitta.

O gesto ganha ainda mais força quando colocado em diálogo com o enredo que a Grande Rio levará para a Sapucaí em 2027, “Sankofa Tabon: Os Retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da Liberdade”, uma narrativa dedicada aos africanos escravizados que, depois de conquistarem a liberdade, retornaram ao continente africano, especialmente à região da atual Gana. Sankofa, conceito presente no próprio samba-enredo, carrega a ideia de olhar para o passado para recuperar dele aquilo que permite construir o futuro.

A coroação de Anitta parece caminhar pela mesma lógica.

O passado retorna pelas mãos de Eloína.

A artista recebe a coroa no presente.

E o Carnaval transforma esse encontro em imagem pública.

A dimensão religiosa também ocupou um lugar central na cerimônia. Anitta invocou Exu, as pombagiras e a ancestralidade antes de receber a coroa, associando o gesto à força das encruzilhadas e ao movimento entre tempos, pessoas e caminhos. “Das mãos de Exu, receba a coroa; da encruzilhada, a força; da ancestralidade, o fundamento”, afirmou.

A escolha dialoga diretamente com o samba da Grande Rio, que trabalha com Xangô, Exu, ancestralidade africana, retorno, liberdade e realeza, fazendo do passado uma matéria capaz de reorganizar o presente.

É nesse ponto que a repercussão nas redes sociais, em alguns casos, acabou reduzindo uma cerimônia complexa a uma disputa entre Anitta e Virginia Fonseca.

Virginia ocupava anteriormente o posto de rainha de bateria da Grande Rio e sua saída provocou naturalmente comparações, comentários e especulações sobre a sucessão. A escola, contudo, reorganizou a cerimônia e Anitta recebeu a coroa de Eloína, estabelecendo outra narrativa para aquele momento.

A pergunta que permanece interessante, portanto, não está apenas na sucessão de um nome por outro, mas na escolha de quem entrega a coroa.

Por que Eloína?

Porque a coroa, naquela noite, funcionou como objeto de transmissão. Uma travesti que abriu caminho no Carnaval brasileiro retorna décadas depois para colocar sobre a cabeça de uma das artistas mais populares do país um símbolo de poder, reconhecimento e pertencimento. O gesto produz uma espécie de dobra temporal: aquilo que parecia encerrado retorna ao presente para lembrar que toda posição de destaque carrega uma história anterior.

Por isso, a tentativa de transformar a cerimônia exclusivamente em uma resposta a Virginia empobrece o acontecimento. A passagem entre rainhas é apenas uma parte da história. O centro da cena estava em outra direção: na mulher que veio antes, na artista que chega depois e na coroa como objeto que atravessa gerações. Anitta sabia disso quando chamou Eloína e Eloína também sabia.

Quando uma mulher como Eloína coloca uma coroa sobre a cabeça de Anitta, o Carnaval produz mais do que uma fotografia bonita. Produz uma imagem de transmissão, na qual uma trajetória marcada pela insurgência encontra uma artista que agora ocupa um dos lugares mais visíveis da festa.

No fim, a coroa não conta apenas quem reina, ela conta quem abriu caminho para que o reinado fosse possível.

Fonte: Brasil 247

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