Xi chega fortalecido a encontro com Trump em Washington
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – O presidente da China, Xi Jinping, chegará fortalecido pelo avanço do comércio exterior chinês ao encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, marcado para quinta-feira (24), em Washington.
Segundo a Reuters, a cúpula será realizada sob a pressão das disputas por Taiwan, das tarifas comerciais e da guerra norte-americana contra o Irã.
A principal expectativa para a reunião, informou a Reuters, está concentrada na possível prorrogação da trégua comercial acertada pelos dois governos em outubro de 2025. Analistas avaliam que as condições políticas e econômicas tornam improvável a celebração de acordos mais abrangentes.
Nos quatro meses transcorridos desde o último encontro entre os dois presidentes, Xi acompanhou uma expansão significativa das exportações chinesas, enquanto Trump enfrentou queda de popularidade nos Estados Unidos. A guerra contra o Irã também elevou custos para os norte-americanos e restringiu a margem de atuação internacional da Casa Branca.
Para Jon Czin, especialista em política externa da Brookings Institution e ex-diretor para a China no Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Pequim não está pressionada a oferecer concessões imediatas.
“Xi não está realmente buscando nada tangível. Ele quer estender o acordo de cavalheiros com Trump para que a China tenha tempo de se fortalecer”, afirmou.
Negociações preparatórias
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, e o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, conduziram conversas preparatórias em Nova York no domingo (20). As negociações buscaram identificar pontos de convergência sobre diretrizes para inteligência artificial e comércio de produtos considerados não sensíveis.
A Casa Branca, porém, procura reduzir as expectativas sobre possíveis avanços. A postura contrasta com a promessa feita por Trump ao retornar à Presidência, em 2025, de utilizar tarifas para enfrentar o déficit comercial norte-americano com a China.
Desde a trégua firmada com Xi, a atenção do governo dos Estados Unidos passou a ser dividida entre diferentes frentes internacionais, incluindo as guerras no Irã e na Ucrânia e as divergências com países europeus.
O superávit comercial global chinês caminha para superar US$ 1 trilhão pelo segundo ano consecutivo. Além disso, mais da metade das aproximadamente 6,5 mil categorias de produtos vendidas pela China aos Estados Unidos neste ano registrou crescimento em comparação com 2025.
As restrições norte-americanas às encomendas de baixo valor utilizadas por varejistas digitais como Shein e Temu tiveram resultados, mas não foram suficientes para interromper a expansão mais ampla dos produtos chineses no mercado dos Estados Unidos.
Uma delegação de empresários deverá acompanhar Xi a Washington. O grupo poderá incluir representantes de companhias submetidas ao escrutínio de órgãos reguladores norte-americanos e interessadas em ampliar o acesso ao mercado do país.
Scott Kennedy, especialista em relações econômicas entre Estados Unidos e China do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), afirmou que a estratégia tarifária da Casa Branca não atingiu seus objetivos.
O governo Trump “pensou que poderia usar uma enorme pressão unilateral para forçar a China a fazer concessões, e isso não aconteceu”, disse Kennedy.
“Agora este é o mundo de Xi Jinping, e todos nós estamos vivendo nele”, acrescentou.
Taiwan
A posição mais favorável de Xi aumenta a apreensão entre aliados dos Estados Unidos na Ásia. Governos da região temem que o presidente chinês pressione Trump a reduzir o apoio norte-americano a Taiwan, ilha governada de forma autônoma e reivindicada por Pequim como parte de seu território.
Trump declarou que Xi levantou repetidamente o tema durante o encontro realizado pelos dois em Pequim, em maio. Segundo o presidente dos Estados Unidos, o líder chinês questionou as vendas de armamentos norte-americanos e o compromisso de Washington com a defesa da ilha.
Ao comentar um pacote de armas de US$ 14 bilhões destinado a Taiwan, Trump descreveu a operação como uma “moeda de troca” nas negociações com Pequim.
Autoridades de Taiwan e do Japão receiam que a Casa Branca possa utilizar essa questão para obter resultados políticos antes das eleições legislativas de novembro, consideradas desafiadoras para o Partido Republicano.
Em contrapartida, Pequim poderia ampliar a compra de aeronaves da Boeing e de produtos agrícolas norte-americanos ou assumir compromissos para restringir o envio de substâncias utilizadas na produção de fentanil, associado à crise de opioides nos Estados Unidos.
“As relações entre China e Estados Unidos se tornaram mais transacionais”, afirmou Wu Xinbo, professor da Universidade Fudan, em Xangai, e consultor do Ministério das Relações Exteriores chinês.
Segundo Wu, Washington pretende priorizar o comércio, enquanto Pequim considera a política norte-americana para Taiwan um ponto decisivo.
“Se vocês atenderem à nossa preocupação sobre a questão de Taiwan, então estaremos dispostos a atender às suas preocupações sobre outros temas, seja na aplicação da lei ou nas compras de produtos agrícolas dos Estados Unidos”, declarou.
Guerra contra o Irã limita atuação de Trump
O governo norte-americano também considera que Xi poderia exercer pressão sobre o Irã para contribuir com o encerramento da guerra, que levou a aprovação de Trump ao menor nível de sua trajetória política.
O presidente chinês, contudo, não demonstrou disposição para assumir esse papel. A Reuters informou anteriormente que Pequim vende bilhões de dólares em mercadorias ao Irã por meio de um esquema destinado a contornar sanções. O Ministério das Relações Exteriores da China declarou desconhecer a existência desse mecanismo.
Os Estados Unidos ameaçaram impor sanções secundárias contra países que mantêm negócios com Teerã. Bessent classificou a possível ofensiva econômica como um “Dia D econômico”, mas as medidas ainda não teriam sido aplicadas contra a China, maior parceira comercial iraniana.
A cautela é interpretada como um sinal de que Trump pretende preservar a estabilidade da relação com Xi enquanto concentra esforços em outros conflitos. Para o governo chinês, a manutenção da trégua também oferece tempo para fortalecer a economia e reduzir vulnerabilidades externas.
“Tanto Xi quanto Trump consideram bastante útil manter a estabilidade na relação para que possam se concentrar em questões mais urgentes”, afirmou Ruby Osman, pesquisadora sênior de geopolítica do Instituto Tony Blair para a Mudança Global.
“Para Trump, isso é o Irã. Para Xi, é fortalecer a resiliência interna da China para o que vier depois de Trump”, concluiu.
Fonte: Brasil 247