Wilder Morais pode ter sido eleito senador em 2022 não pelo bolsonarismo, e sim por vínculo com Ronaldo Caiado
Por Euler de França Belém — Jornal Opção

Um ditado popular garante que os números não mentem. A comparação dos números das eleições para senador em 2018 e 2022 diz alguma coisa a respeito da disputa de 2026? É provável.
Em 2018, Vanderlan Cardoso, com 1.729.637 votos, e Jorge Kajuru, com 1.557.415 votos, foram eleitos para o Senado. O terceiro colocado, Wilder Morais, obteve 796.387 votos. Ele era filiado ao Democratas, então partido de Ronaldo Caiado, eleito, pela primeira vez, governador de Goiás, no primeiro turno.
Em 2022, com a base governista com quatro candidatos, Wilder Morais foi eleito senador, mas com uma votação similar à de 2018, quando foi derrotado: 799.022 votos. Ou seja, em termos de votação, não houve crescimento. Além disso, sua votação foi bem menor do que a de Vanderlan Cardoso e Jorge Kajuru.

Os quatro candidatos da base governista — Delegado Waldir Soares (539.219 votos), Alexandre Baldy (406.379), João Campos (350.222 votos) e Vilmar Rocha (55.934) —, somados, conquistaram 1.351.754 votos. Quer dizer, 552.732 votos a mais do que Wilder Morais. Ressaltando que nem se contabilizou os votos de Denise Carvalho (299.013 votos), Manu Jacob (51.743) e Leonardo Rizzo (35.998).
Por que, mesmo com baixa votação, Wilder Morais foi eleito senador em 2022? Porque, longe de se posicionar contra a candidatura de Ronaldo Caiado, alinhou-se com o governador — deixando Major Vitor Hugo na chapada
A rigor, 74,75% dos eleitores goianos disseram um rotundo “não” a Wilder Morais. Ele foi eleito senador com 25,25% dos votos.
Jornalistas e mesmo cientistas políticos, talvez por não consultarem os números — que, repita-se, não mentem —, concluem, com frequência, que Wilder Moraes foi “carregado”, em 2022, pela “força do bolsonarismo”.
Os dados indicam outra coisa: fraqueza (ao menos relativa) do bolsonarismo em Goiás. Tanto que Major Vitor Hugo, candidato a governador pelo PL em 2022, obteve apenas 14,81% votos válidos (516.579 votos) e ficou em terceiro lugar. Ronaldo Caiado foi reeleito, com quase 52% dos votos válidos, no mesmo ano, no primeiro turno.

Por que, mesmo com baixa votação, Wilder Morais foi eleito em 2022? Porque, longe de se posicionar contra a candidatura de Ronaldo Caiado, alinhou-se com o governador — deixando Major Vitor Hugo na chapada.
O empresário, bem-sucedido dirigente da Construtora Orca e shoppings, costumava chamar Ronaldo Caiado de “irmãozinho”. Porque, como ele sabe, sua vitória, direta ou indiretamente, teve a ver com sua ligação com o governador, de quem foi secretário.
Em 2026, quase quatro anos depois, com o apoio do bolsonarismo, Wilder Morais amarga um terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto — atrás de Marconi Perillo, o candidato do PSDB. Poderá passá-lo? É possível, o que não significa que, eleitoralmente, seja forte.

O que falta a Wilder Morais em 2026? Não é, claro, o bolsonarismo, e sim o “irmãozinho” Ronaldo Caiado. (Vale repetir: em 2018, ele foi candidato pelo Democratas, então partido de Ronaldo Caiado.)
Exceto para quem precisa de sua estrutura, Wilder não tem o apoio dos líderes do PL. Vitor Hugo não tem entusiasmo. Seu principal cabo eleitoral, Márcio Corrêa, apoia Daniel. Gustavo Gayer não está na campanha do senador
Então, talvez seja possível concluir que Wilder Morais foi eleito senador em 2022 por se apresentar como “caiadista”, e não como “bolsonarista”.
Vale insistir: Major Vitor Hugo contou com apoio mais formal do que efetivo de Wilder Morais — que estava alinhado com Ronaldo Caiado. Seria a hora de o vereador por Goiânia dar o troco? Não se sabe. É um problema de como lida com a questão da (des)lealdade.

O deputado federal Gustavo Gayer, do PL, não tem entusiasmo algum com a candidatura de Wilder Morais. Seu grupo, ao menos nos bastidores, está alinhado com o governador Daniel Vilela, candidato à reeleição pelo MDB.
O prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa, do PL, é o principal apoiador da candidatura de Gustavo Gayer para o Senado e de Major Vitor Hugo para deputado federal. Ele declarou, formalmente, apoio ao postulante emedebista.
Anuncia-se uma terra devastada, à espera de um T. S. Eliot para contá-la, para o PL de Goiás em 2026. O partido certamente não fará o governador, dado o favoritismo de Daniel Vilela — que, subestimado pelo wildismo e pelo marconismo, faz uma gestão eficiente e não deixou a peteca cair na área de segurança pública.
Pesquisadores e cientistas políticos sugerem, sem tergiversação, que Daniel Vilela tende a ser eleito governador, pelos próprios méritos e o apoio de Ronaldo Caiado e de uma base político-eleitoral ampla. A dúvida é se a vitória se dará no primeiro ou no segundo turno.

Dados os números baixos de Marconi Perillo e Wilder Morais — não chegam, juntos, a 40% das intenções de voto —, há uma aposta geral de que Daniel Vilela será eleito no primeiro turno. De qualquer maneira, só quando se contam todos os votos é que se pode ter certeza da decisão dos eleitores.
Há uma pergunta mestre de 14,5 milhões de reais: por que o PL, mesmo sabendo da fragilidade eleitoral de Wilder Morais — o senador tem dificuldade até de se expressar —, decidiu bancá-lo para governador?
Gustavo Gayer é forte candidato a senador. Ainda assim, precisa ficar atento ao crescimento de Zacharias Calil e de Gustavo Mendanha. A estrutura da base governista, substantiva em todo o Estado, pode eleger um dos dois
Na verdade, o PL não bancou e — a julgar pela quantidade de prefeitos do partido que estão apoiando Daniel Vilela — não está bancando Wilder Morais, senador que não é visto como bolsonarista (há, inclusive, membros do PL que dizem que ele já teve boas relações com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Teria emprestado uma chalana para a costura da escolha do magistrado, no governo do ex-presidente Michel Temer).
Por ser presidente do PL e contar com uma estrutura financeira pessoal robusta — dinheiro, avião, helicóptero (o que, em tese, agrada o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, condenado por envolvimento no mensalão, em 2013, e preso pela Polícia Federal em 2024) —, Wilder Morais impôs sua candidatura a governador.

Exceto alguns gatos pingados que precisam de sua estrutura, Wilder Morais não tinha — a rigor, não tem — o apoio dos principais líderes do PL. Major Vitor Hugo diz que o apoia, mas, na verdade, não tem entusiasmo algum. Seu principal cabo eleitoral, Márcio Corrêa, apoia Daniel Vilela. Gustavo Gayer não está na campanha do senador.
O principal prefeito do PL no Entorno de Brasília, Carlinhos do Mangão, mandou um recado explícito para Wilder Morais: está apoiando Daniel Vilela para governador. A maioria dos prefeitos do PL segue com o candidato do MDB.
Até o prefeito de Morrinhos, Maycllyn Carreiro, do PL, não nutre mais entusiasmo com a candidatura do senador. Ainda assim, continua na sua “campanha”. Mas já liberou seu vice, Tiago Mendonça, para apoiar Daniel Vilela.
Então, pode-se sugerir que Wilder Morais “não” é “o” candidato do PL a governador. O senador é candidato de si mesmo. O PL se tornou, ao menos em Goiás, PWM — Partido do Wilder Morais.

Empresário competente, dos mais atilados do país, Wilder Morais parece não ter entendido, com clareza, que política é uma coisa — pública — e negócios são outra coisa — privada. Não basta ter muito dinheiro para ser eleito governador. É preciso ter ideias e projetos, ser capaz de exibi-los, sem hesitações e gagueiras, para os eleitores.
Um verdadeiro político, se almeja ocupar cargos majoritários, precisa agregar, conquistar apoios. Não é o que faz Wilder Morais na disputa deste ano. Pelo contrário, o senador está sempre perdendo aliados. Tornou-se tão pesado que o bolsonarismo não consegue carregá-lo — o mais provável é que esteja prejudicando, em termos eleitorais, o PL em Goiás. Acrescente-se que agora tem pela frente um ex-aliado, Ronaldo Caiado, que acaba de chamar o senador de “frouxo”.
Não há a menor dúvida de que Gustavo Gayer é forte candidato a senador. A tendência, ao menos no momento, é que fique com a segunda vaga — atrás apenas da superfavorita Gracinha Caiado (União Brasil).
Ainda assim, Gustavo Gayer precisa ficar atento ao crescimento tanto de Zacharias Calil (o eleitorado tem simpatia pelo médico), do MDB, quanto de Gustavo Mendanha (popular na Grande Goiânia — onde reside mais de 1,5 milhão de eleitores), do PRD. A estrutura da base governista, substantiva em todo o Estado, pode eleger um dos dois.
A salvação de Gustavo Gayer, segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto, talvez seja uma só: afastar-se cada vez mais de Wilder Morais e se aproximar do governador Daniel Vilela.
Vale retomar 2022: Wilder Morais foi eleito senador ao “abandonar”, extraoficialmente, Major Vitor Hugo e se alinhar com Ronaldo Caiado. É o recado da realidade para o deputado federal, que é um político articulado e popular.
Wilder Morais não está “puxando” votos para si e tampouco para os candidatos a senador e deputado estadual e federal. Eles estão por sua conta e risco.
O senador do PL parece que não entendeu, até agora, o recado da eleição de 2022 para 2026. Talvez só vai entendê-lo com o resultado apurado pelas urnas.
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Fonte: Jornal Opção