Se Wilder Morais é o palanque de Flávio Bolsonaro, por que Luis Cesar Bueno demorou a enfrentá-lo?

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Por João Paulo AlexandreJornal Opção

Se Wilder Morais é o palanque de Flávio Bolsonaro, por que Luis Cesar Bueno demorou a enfrentá-lo?

Quando se fala em eleições gerais, todo palanque dentro dos Estados é bem-vindo. Afinal, a aposta é que aquele nome local possa ajudar a aglutinar votos para o representante nacional. Essa escolha não necessariamente precisa ser do mesmo partido, mas, quando parte da mesma legenda do presidenciável, a responsabilidade é ainda maior.

Trazendo esse recorte para o cenário nacional, pesquisado do Datafolha aponta Lula da Silva (PT) com 39% das intenções de voto — contra 35% de Flávio Bolsonaro (PL). Os dois têm sido os principais adversários nesta eleição. O primeiro mantém acesa a possibilidade de o campo progressista permanecer no poder por mais quatro anos. O segundo tenta levar a direita de volta ao Palácio do Planalto após quatro anos de governo Jair Bolsonaro.

Para fortalecer seus nomes nas 27 unidades federativas, Lula da Silva e Flávio Bolsonaro tentaram buscar candidatos com certa capilaridade política para viabilizar o projeto maior: levar um dos dois à Presidência da República e, de quebra, conquistar governos estaduais e o Distrito Federal. Note que usa-se o verbo “tentar”, porque nem sempre é possível conseguir isto. Goiás pode ser usado como exemplo.

Não é segredo para ninguém que a preferência nacional do PT era pelo nome da deputada federal Adriana Accorsi na disputa pelo Palácio das Esmeraldas. Na visão de muitos, o palanque encabeçado pela parlamentar seria mais competitivo para Lula da Silva em Goiás, podendo, inclusive, fazer com que o petista viesse ao Estado para estar ao lado dela. Entretanto, Adriana Accorsi declinou da disputa, preferindo buscar a reeleição para deputada federal.

O ex-deputado estadual Luis Cesar Bueno não era o nome preferido, nem de longe, mas acabou escolhido porque as principais opções buscaram projetos considerados mais viáveis eleitoralmente. O segundo nome que poderia ser testado era o de Aava Santiago (PSB), mas a vereadora também seguiu caminho semelhante ao de Adriana Accorsi e decidiu tentar uma vaga na Câmara dos Deputados.

Outro ponto que pesa é a dificuldade de convencer a população de que deve mudar um governo que prega a continuidade e conta com índices de aprovação superiores a 80%.

Uma pesquisa qualitativa encomendada pelo PT teria jogado um balde de água fria internamente. Isso porque, segundo as informações obtidas, qualquer nome escolhido pelo partido, assim como o fato de Lula da Silva disputar a reeleição, provocaria efeito praticamente nulo no Estado. Esses dados também ajudam a compreender a decisão de Adriana Accorsi de não disputar o governo.

Com chances reduzidas de transferência de votos, já que uma parcela dos eleitores progressistas não necessariamente vincula o voto para governador ao de presidente, resta ainda um grupo que busca candidatos alinhados ao seu campo ideológico. É justamente aqui que entra uma estratégia que não tem feito muito sentido em Goiás.

Escolhido essencialmente para fazer palanque para Lula da Silva, o goiano Luis Cesar Bueno parece ter demorado a compreender uma lógica elementar da disputa. O petista-chefe é adversário de Flávio Bolsonaro, assim como o segundo é adversário do primeiro. Em Goiás, se tem o candidato que representa, ou deveria representar, aquilo que se convencionou chamar de “bolsonarismo raiz”: Wilder Morais (PL).

Se o PT escolheu Luis Cesar Bueno para construir o palanque de Lula da Silva, seria natural esperar que o candidato petista adotasse uma posição mais incisiva em relação ao candidato apoiado pelo bolsonarismo no Estado. Afinal, quando um presidenciável busca um palanque em determinada unidade federativa, há uma expectativa de que seu aliado local também dispute votos com o grupo adversário e tente reduzir sua força eleitoral, o que pode produzir reflexos na eleição nacional.

A pesquisa Directa mais recente aponta Wilder Morais com 15,5% das intenções de voto, em terceiro lugar, atrás de Daniel Vilela (MDB), com 44,6%, e Marconi Perillo (PSDB), com 19,7%. Luis Cesar Bueno aparece na quarta colocação, com 4,6% da preferência dos entrevistados.

(Em 2018, na disputa pelo governo do Estado, Kátia Maria obteve 9,16% dos votos válidos. Em 2022, Wolmir Amado conquistou 6,98%. Por enquanto, Luis Cesar Bueno está aquém de seus companheiros — o que pode refletir em menos votos para Lula da Silva em Goiás. Por sinal, nas pesquisas de intenção de voto, o petista-chefe aparece atrás tanto de Ronaldo Caiado, do PSD, quanto de Flávio Bolsonaro.)

Ao acompanhar debates e sabatinas, porém, percebe-se que Luis Cesar Bueno vinha adotando um comportamento mais cautelosa em relação ao candidato bolsonarista. No debate promovido pelo site Mais Goiás, percebeu-se um Luis Cesar Bueno mais engajado nas críticas a Wilder Morais, embora ainda distante da posição que o eleitor de esquerda esperaria diante da estratégia nacional de seu partido.

Foi da boca de Luis Cesar Bueno, por exemplo, que saiu a reprodução de uma declaração do presidenciável do PSD, Ronaldo Caiado, que chamou Wilder Morais de “frouxo” durante uma discussão sobre câmeras nas fardas policiais. O petista também relembrou que o presidenciável do PSD teria chamado Flávio Bolsonaro de “maior bandido do Brasil”. Neste ponto, porém, é necessário fazer um acréstico: na mesma declaração, Ronaldo Caiado também direcionou a crítica ao presidente Lula da Silva.

Wilder, Vorcaro e a Oncoclínicas

Luis Cesar Bueno também levou o embate para o campo ético e patrimonial ao questionar a relação entre uma construtora de propriedade de Wilder Morais e o Banco Master. A Orca Construtora teria sido contratada pela Cedro Participações para a edificação do prédio que abrigaria a Oncoclínicas em Goiânia. A Cedro é uma empresa de Lucas Kallas, empresário apontado como próximo de Daniel Vorcaro, o poderoso chefão do Banco Master.

Outro tema levantado por Luis Cesar Bueno foi a soberania nacional relacionada aos minerais críticos. Para o petista, Wilder Morais pretende entregar — “de graça” — as riquezas minerais brasileiras aos Estados Unidos.

O que se nota é que, nesta reta final, Luis Cesar Bueno passou a protagonizar, de maneira mais assertiva, embates mais calorosos com Wilder Morais.

Petistas admitem que as críticas de Luis Cesar Bueno começaram tarde, mas sugerem que “antes tarde do que nunca”. Por que o postulante petista demorou a reagir? Possivelmente por não percebê-lo como “bolsonarista raiz”. Não se trata do único com tal entendimento, pois até integrantes do PL criticam a falta de radicalismo do senador.

O fato é que o marketing do petista demorou a perceber que Wilder Morais deveria ocupar espaço central em sua estratégia de confronto, inclusive como uma forma de tentar crescer nas pesquisas e buscar maior competitividade na disputa pelo governo.

É claro que Luis Cesar Bueno foi prejudicado pela demora interna do Partido dos Trabalhadores em definir quem seria o seu candidato em Goiás. No entanto, uma vez escolhido, poderia ter adotado um posicionamento mais agressivo politicamente para tentar se colocar na disputa.

De fato, Luis Cesar Bueno dormiu no ponto e, durante boa parte da campanha, concentrou mais esforços em criticar Daniel Vilela do que em construir uma estratégia de enfrentamento ao candidato diretamente identificado com o principal adversário nacional de Lula da Silva. Mas, como frisam petistas, pelo menos acordou e, nos próximos 14 dias, poderá defender o petista-chefe e criticar Flávio Bolsonaro. E, claro, Wilder Morais — que, por sinal, se parece mais com o tucanismo de Marconi Perillo do que com a “brabeza” dos Bolsonaros. Dizem que a especialidade da tucanagem é ficar em cima do muro. É o retrato do candidato do PL a governador de Goiás.

Na reta final, Luis Cesar Bueno corre contra o relógio. Na metáfora automobilística, acabou assumindo o papel de “Rubens Barrichello” do Cerrado: acelerou tarde. E, até aqui, sua candidatura parece ter produzido pouco impacto sobre a disputa presidencial de Lula da Silva em Goiás. Tanto que, repetindo, o presidente figura em terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. Culpa de Luis Cesar Bueno? Talvez não. Culpa, isto sim, do petismo e, por conseguinte, do antipetismo.

Leia também: Entenda por que Wilder Morais “não” é um bolsonarista-raiz

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Fonte: Jornal Opção

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