Padre Vito Miracapillo recebe Título de Cidadão Pernambucano nesta segunda-feira
Por Dayane Santos — Brasil 247
247 – O padre italiano Vito Miracapillo, perseguido e expulso do Brasil pela ditadura militar por sua atuação em defesa dos trabalhadores rurais e dos direitos humanos, receberá, nesta segunda-feira (21), o Título Honorífico de Cidadão Pernambucano. A homenagem será concedida durante reunião solene, às 18h, no Auditório Senador Sérgio Guerra, na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). A iniciativa é do deputado estadual João Paulo Lima, autor do Projeto aprovado por unanimidade.
A solenidade contará com a presença da cônsul da Itália no Recife, Maria Salamandra; do senador do Parlamento Italiano Fabio Porta, e de representantes da Diocese de Andria e da paróquia de Padre Vito na Itália. A honraria reconhece a ligação histórica do sacerdote com Pernambuco e sua atuação em defesa da democracia, dos direitos humanos e das populações mais vulneráveis, especialmente dos trabalhadores rurais da Zona da Mata Sul. “Tive a oportunidade de testemunhar de perto o trabalho pastoral do Padre Vito e a sua dedicação por nossa gente mais pobre. Este título é o reconhecimento formal de algo que o povo pernambucano já sabia há muito tempo: ele pertence a esta terra e a esta gente”, afirma João Paulo.
Nascido em 15 de abril de 1947, na cidade de Andria, na Itália, Vito Miracapillo foi ordenado sacerdote em 1971. Após uma primeira visita à Diocese de Palmares, em 1974, chegou definitivamente ao Brasil em outubro de 1975 para desenvolver seu trabalho missionário nas comunidades da Mata Sul pernambucana. O padre realizou atividades pastorais em Palmares, Maraial, Jaqueira e Sertãozinho e, posteriormente, tornou-se vigário de Ribeirão.
Um dos episódios mais marcantes de sua trajetória ocorreu em 7 de setembro de 1980, ainda durante a ditadura militar. Padre Vito recusou-se a celebrar uma missa em homenagem ao Dia da Independência por considerar que não poderia haver independência verdadeira enquanto grande parte da população permanecesse sem direitos básicos. Em carta, o sacerdote afirmou que o povo era reduzido à condição de pedinte e permanecia desamparado em seus direitos. A manifestação provocou forte reação de autoridades políticas e transformou o religioso em alvo de perseguição.
Com base no antigo Estatuto do Estrangeiro, Padre Vito foi considerado “nocivo” e “indesejável” pelo regime. Em outubro de 1980, o Supremo Tribunal Federal rejeitou, por unanimidade, o pedido de habeas corpus apresentado em sua defesa. No dia seguinte, 31 de outubro, ele foi expulso do Brasil. A decisão provocou manifestações de solidariedade no Brasil e no exterior. A Igreja Católica, por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), posicionou-se em defesa do sacerdote. Em Ribeirão, um abaixo-assinado reuniu mais de 20 mil assinaturas contra a expulsão. O episódio tornou-se um símbolo do confronto entre a ditadura e os setores da Igreja comprometidos com os direitos humanos e a justiça social.
Padre Vito ficou 13 anos impedido de retornar ao país. Em 1993, durante o governo do presidente Itamar Franco, o decreto de expulsão foi revogado, permitindo sua volta ao Brasil. Em 2011, no governo da presidenta Dilma Rousseff, ele recebeu visto permanente, em um gesto de reparação pela perseguição sofrida. Desde então, o sacerdote mantém vivos os vínculos construídos com as comunidades da Diocese de Palmares e retorna regularmente a Pernambuco.
Além da atuação pastoral, Padre Vito possui livros publicados no Brasil e na Itália sobre fé, espiritualidade, direitos humanos, cidadania e libertação dos povos. “A homenagem também é um gesto de memória. A história da ditadura, daqueles que resistiram e dos que foram perseguidos por defender os pobres não pode ser esquecida. A cidadania pernambucana confirma uma casa que sempre foi do Padre Vito”, ressalta João Paulo.
Fonte: Brasil 247