Dinamarca e Groenlândia rejeitam cessão de soberania em acordo militar com EUA
Por Aquiles Lins — Brasil 247
247 – Autoridades dinamarquesas e groenlandesas afirmaram neste sábado (19) que o novo acordo de segurança negociado com os Estados Unidos não transfere a Washington a soberania sobre a Groenlândia, numa resposta à interpretação apresentada pelo presidente estadunidense Donald Trump sobre o alcance do pacto.
Segundo a Reuters, Trump afirmou que o entendimento concederá aos Estados Unidos “controle permanente” sobre a segurança da ilha. Dinamarca e Groenlândia, porém, sustentam que o acordo preserva tanto a integridade territorial do Reino da Dinamarca quanto o direito dos groenlandeses à autodeterminação.
O pacto, anunciado na sexta-feira (18), permitirá uma ampliação significativa da presença militar estadunidense na Groenlândia e estabelecerá mecanismos destinados a impedir que países considerados adversários de Washington instalem bases, mantenham forças militares ou realizem determinados investimentos estratégicos no território.
Os detalhes centrais do acordo, no entanto, ainda não foram divulgados. Não está claro qual será o tamanho da nova estrutura militar dos Estados Unidos nem se Washington receberá algum poder formal sobre temas como política externa, investimentos estratégicos ou exploração de recursos naturais.
Dinamarca estabelece limites ao acordo
O ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, afirmou que o entendimento precisa respeitar as chamadas “linhas vermelhas” de Copenhague.
“A próxima semana poderá ser uma boa semana para a Groenlândia, a Dinamarca e os Estados Unidos”, declarou Rasmussen.
“Esperamos que um período de incerteza dê lugar a um acordo vinculativo que fortaleça a segurança no Ártico e no Atlântico Norte e, consequentemente, a nossa segurança comum na Otan e na Europa, respeitando sempre as linhas vermelhas do Reino [da Dinamarca]”, acrescentou.
O governo dinamarquês informou oficialmente que o pacto deverá reconhecer a soberania e a integridade territorial do Reino da Dinamarca, assim como o direito da população da Groenlândia à autodeterminação.
Dinamarca e Groenlândia vêm insistindo nos últimos meses que a ilha não está à venda e que qualquer negociação de segurança com Washington deve preservar sua atual situação política.
Trump fala em “controle permanente”
A descrição feita por Trump, entretanto, foi mais abrangente. Em publicação na Truth Social, o presidente afirmou que os Estados Unidos terão permanentemente capacidade para adotar as medidas que considerarem necessárias para defender tanto a Groenlândia quanto o território estadunidense.
Segundo Trump, o acordo “dá aos Estados Unidos controle permanente sobre a segurança e todas as outras necessidades na Groenlândia”.
Ele acrescentou que nenhum adversário dos Estados Unidos poderá instalar bases, manter presença militar ou realizar investimentos considerados sensíveis na Groenlândia sem autorização expressa de Washington.
A diferença entre a formulação de Trump e as declarações de Copenhague e Nuuk deixou em aberto qual será, na prática, a extensão dos poderes concedidos aos Estados Unidos.
Groenlândia destaca autodeterminação
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, recebeu positivamente o entendimento, mas destacou que a soberania e os direitos políticos dos groenlandeses estão preservados.
“O acordo reconhece a soberania e a integridade territorial do nosso Reino e o direito do povo groenlandês à autodeterminação”, afirmou Nielsen, segundo a Reuters.
Em comunicado oficial divulgado pelos governos envolvidos, Nielsen disse ainda que o pacto deverá reforçar a segurança da Groenlândia, do Reino da Dinamarca, dos Estados Unidos e da aliança ocidental.
O acordo deve ser assinado durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, na próxima semana. Depois da assinatura, ainda deverá passar pelos procedimentos parlamentares nacionais necessários antes de entrar plenamente em vigor.
Meses de pressão sobre Copenhague e Nuuk
A negociação ocorre depois de meses de tensão provocados pelas declarações de Trump sobre a Groenlândia. O presidente estadunidense sustentou repetidamente que controlar a ilha seria fundamental para os interesses de segurança dos Estados Unidos, provocando reação de autoridades dinamarquesas e groenlandesas e desconforto dentro da própria Otan.
A posição estratégica da Groenlândia, entre a América do Norte e o Ártico, torna o território relevante para sistemas de defesa, vigilância e operações militares na região. Os Estados Unidos já mantêm presença militar na ilha, onde funciona a Base Espacial de Pituffik.
O professor de ciência política Mikkel Vedby Rasmussen, da Universidade de Copenhague, avaliou que o acordo não necessariamente encerrará o interesse de Trump pela ilha.
“Este provavelmente não é o fim das ambições do presidente Trump para a Groenlândia e certamente não é o fim do interesse estratégico dos Estados Unidos no território e em seus recursos”, afirmou.
Segundo o pesquisador, uma eventual transferência formal de poderes de Copenhague para Washington poderia alimentar, entre os groenlandeses, o debate sobre se a histórica relação com a Dinamarca estaria sendo substituída por uma nova dependência em relação aos Estados Unidos.
Por enquanto, os governos da Dinamarca e da Groenlândia apresentam o pacto como um reforço da defesa do Ártico sem alteração da soberania. Trump, por sua vez, descreve o mesmo entendimento em termos muito mais amplos, atribuindo a Washington um “controle permanente” da segurança. O conteúdo final do documento deverá esclarecer até onde irá essa presença estadunidense.
Fonte: Brasil 247