Singer defende que esquerda enfrente austeridade sem romper frente democrática

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Por Aquiles LinsBrasil 247

247 – O cientista político André Singer avalia que a esquerda brasileira precisa manter a ampla aliança democrática construída em torno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas sem abandonar uma agenda própria voltada aos trabalhadores. Para Singer, isso significa confrontar políticas de austeridade, defender mudanças no arcabouço fiscal e pressionar pela redução dos juros.

A análise foi apresentada em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada neste sábado (19), a partir das ideias desenvolvidas por Singer no livro recém-lançado Impasse, da Companhia das Letras. Professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), ele identifica uma contradição no interior da coalizão que sustentou Lula nas eleições de 2022.

Segundo Singer, a formação de uma frente democrática ampla foi necessária diante do cenário político brasileiro, mas reuniu setores sociais com interesses econômicos distintos. De um lado, estão grupos economicamente mais poderosos que defendem austeridade fiscal e redução da presença do Estado. De outro, trabalhadores que esperavam uma melhora das condições de vida semelhante à registrada durante os primeiros governos Lula.

Frente democrática não elimina disputa econômica

Na interpretação do pesquisador, a divergência econômica representa uma das principais tensões dentro da coalizão. O atendimento às expectativas das camadas populares exigiria ampliação de investimentos sociais, enquanto parcelas das elites econômicas pressionam pela contenção dos gastos públicos.

Singer sustenta, por isso, que permanecer na frente democrática não significa abandonar o enfrentamento político em torno da economia. Ele defende que a esquerda se contraponha ao que classifica como política econômica neoliberal, incluindo a defesa de uma revisão das regras fiscais e de juros mais baixos.

A preocupação central é que a coalizão possa se desgastar justamente pela dificuldade de conciliar interesses sociais divergentes. Trabalhadores que esperavam avanços materiais, argumenta Singer, podem se frustrar caso não percebam melhorias suficientes em suas condições de vida.

Organização dos trabalhadores é apontada como questão central

Além da política econômica, Singer coloca a organização de classe no centro do debate sobre o futuro da democracia. Sua tese é que a resistência ao avanço de forças que caracteriza como reacionárias depende da capacidade dos trabalhadores de voltarem a participar politicamente de maneira organizada.

Para o cientista político, o enfraquecimento desse engajamento pode produzir consequências que vão além do desempenho eleitoral da esquerda. Em sua interpretação, a ausência de participação organizada dos trabalhadores tende a esvaziar o próprio regime democrático e a reduzir a vitalidade da esfera pública.

A proposta de Singer, portanto, não passa pelo rompimento da aliança democrática construída nos últimos anos, mas pela atuação da esquerda dentro dessa coalizão com programa e identidade próprios.

Disputa eleitoral expõe impasse

O pesquisador também relaciona essa tensão social às eleições de 2026. Um dos grupos observados por ele é o das famílias com renda entre dois e cinco salários mínimos, segmento no qual identifica oscilação eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL).

A movimentação desse eleitorado é tratada por Singer como um dos desdobramentos políticos do impasse analisado no livro. A capacidade de responder às demandas econômicas dos trabalhadores, nesse diagnóstico, torna-se parte da disputa pela sustentação da coalizão construída em torno de Lula.

Singer foi porta-voz e secretário de imprensa da Presidência da República entre 2003 e 2007, durante os primeiros governos Lula. Professor da USP, também é autor de Os Sentidos do Lulismo, publicado em 2012, obra dedicada às mudanças ocorridas na base social de apoio ao PT e aos governos liderados pelo partido.

Fonte: Brasil 247

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