Banco de Edir Macedo comprou R$ 271 mi em papéis sem valor para inflar balanço
Por Ana Gabriela Sales — GGN
O Banco Digimais, controlado pelo Grupo Record e pertencente ao bispo Edir Macedo, adquiriu R$ 271,4 milhões em papéis sem valor de mercado do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). A operação foi revelada pela Folha de S.Paulo. A manobra financeira utiliza um fundo de investimento chamado Betel e se assemelha às práticas adotadas pelo Banco Master para inflar balanços de forma artificial e ampliar a captação de recursos no mercado.
O montante investido no Fundo Betel equivale a 82% do patrimônio líquido do Digimais, avaliado em R$ 331 milhões no último balanço. Todo o valor do fundo estava alocado em “cártulas” do Besc — antigos certificados físicos de ações que perderam a validade comercial em 2008, quando a instituição catarinense foi incorporada pelo Banco do Brasil, passando a ter apenas valor histórico.
Ponte entre Reag, Master e Digimais
A articulação das operações envolve a gestora Reag, liquidada pelo Banco Central em janeiro por descumprimento de normas do sistema financeiro. A Reag administrava tanto os fundos do Banco Master, comandado por Daniel Vorcaro, quanto o Fundo Betel, do Digimais.
As cártulas em posse do Betel foram compradas dos fundos SDG II e BB Claim, veículos vinculados a familiares de João Carlos Mansur, ex-dono da Reag. O mesmo fundo SDG II foi utilizado pelo Banco Master para ocultar R$ 5,4 bilhões em empréstimos de empresas correlatas. Mansur apresentou proposta de delação premiada à Procuradoria-Geral da República (PGR), que aguarda análise no Supremo Tribunal Federal (STF).
Impacto nas demonstrações financeiras
A Polícia Federal investiga o Digimais por suspeita de manipular relatórios financeiros para ocultar sua real situação de caixa. O uso de papéis sem liquidez permitia ao banco simular uma estrutura patrimonial mais robusta perante os órgãos reguladores, expandindo a margem legal para captar recursos do público via Certificados de Depósito Bancário (CDBs).
Apesar de dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) enviados à CPI do Crime Organizado do Senado apontarem o Digimais como único cotista do Betel até janeiro, o fundo não aparece listado no balanço oficial da instituição nem no conglomerado prudencial informado ao Banco Central.
Contradições e investigações da PF
Procurado, o Digimais sustentou que o Fundo Betel deixou de integrar seu portfólio em outubro de 2025, mas não explicou os valores da eventual transação nem justificou a divergência com os registros oficiais da CVM. A Reag não se manifestou.
A apuração da Polícia Federal sobre a instituição de Edir Macedo abrange suspeitas de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos e concessão de financiamentos vedados pela legislação. Em balanço recente, o Digimais reportou um prejuízo de R$ 581,4 milhões relativo ao primeiro semestre deste ano.
LEIA TAMBÉM:
Fonte: GGN