Pessoas com deficiência visual têm 2,5 vezes mais risco de comportamento suicida; oftalmologista explica relação

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Por Raunner Vinícius SoaresJornal Opção

Pessoas com deficiência visual têm 2,5 vezes mais risco de comportamento suicida; oftalmologista explica relação

A cada cinco segundos, uma pessoa perde a visão no mundo. Além das limitações físicas, a cegueira e a baixa visão podem comprometer a autonomia, afastar pacientes do trabalho e de atividades cotidianas e provocar impactos na saúde mental. Ao Jornal Opção, o presidente da Sociedade Goiana de Oftalmologia (SGO), Leiser Franco, explicou, nesta sexta-feira, 18, que a perda da independência provocada por doenças oculares severas pode estar associada a quadros de depressão e até à ideação suicida.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que existam 43 milhões de pessoas cegas globalmente. No Brasil, cerca de 550 mil novos casos de cegueira e problemas graves de visão são registrados por ano.

O país tem 1,5 milhão de pessoas cegas e mais de 6 milhões com baixa visão crônica. Os dados apontam ainda que entre 60% e 80% dos casos poderiam ser evitados por meio do diagnóstico precoce ou de cirurgias simples.

Leiser destaca que a visão está diretamente relacionada à independência, ao trabalho, à locomoção e à interação social. Por isso, a perda dessa capacidade pode provocar mudanças significativas na rotina.

Presidente da Sociedade Goiana de Oftalmologia, Leiser Franco | Foto: Acervo Pessoal

“A visão é muito importante para a nossa autonomia, para exercer o nosso trabalho, para a nossa independência, para a nossa locomoção, para a nossa interação com o meio ambiente”, afirmou.

Uma meta-análise publicada na revista JAMA Network Open mostrou que pessoas com deficiência visual têm 2,5 vezes mais probabilidade de apresentar comportamentos suicidas e tentativas de suicídio em comparação com a população em geral.

Segundo o especialista, pacientes que perdem a visão ou passam a conviver com baixa visão enfrentam dificuldades que vão além das limitações físicas, inclusive na manutenção da identidade profissional.

“O trabalho tem muito a ver com a nossa identidade. Às vezes, a perda da visão acaba fazendo a pessoa ter que abandonar aquela atividade e buscar um ressignificado para a sua vida e para sua atividade laboral”, disse.

O médico explicou que a perda gradual da autonomia também pode impactar diretamente o humor. Atividades antes realizadas de maneira independente podem se tornar difíceis ou até impossíveis.

“Vai deixando de fazer atividades que antes tinha prazer em realizar, seja esportes ou algum tipo de hobby. Todos esses processos vão impactando o humor da pessoa e, às vezes, podem ser acompanhados de ideias suicidas”, apontou.

Perda da visão exige rede de apoio

Sobre o suporte emocional e social, o especialista explicou que pacientes que nascem com problemas visuais tendem a desenvolver habilidades de adaptação desde cedo. Já aqueles que perdem a visão ao longo da vida podem precisar de uma rede de apoio para enfrentar as mudanças na rotina.

“Essa pessoa vai ter que encontrar uma rede de apoio junto da família, das pessoas mais próximas. Existem serviços que o Estado oferece, como o aprendizado do braile, programas de computador específicos, audiolivros e serviços que ensinam a se locomover com independência”, disse.

Segundo Leiser, o processo de adaptação pode envolver um período de luto diante da perda da visão e das mudanças provocadas por ela.

“Esses pacientes geralmente passam por um período de luto importante. Muitos conseguem, depois de um ano ou dois, ressignificar suas vidas, mas há pacientes que, apesar de todo o apoio, não conseguem se reerguer”, comentou.

Prevenção pode evitar perda da visão

Ao falar sobre prevenção, o oftalmologista destacou que o acompanhamento periódico é uma das principais formas de identificar precocemente doenças capazes de comprometer a visão.

“A principal prevenção é o conhecimento e o acompanhamento periódico com o médico oftalmologista. Hoje a população tem acesso a profissionais capazes, tanto pelo SUS como pela saúde suplementar. O que eu sinto, muitas vezes, é que falta interesse da população em se cuidar. Muitas pessoas não dão importância aos sinais relevantes e não fazem exames de prevenção”, disse.

Além do diagnóstico precoce, outro desafio está relacionado aos pacientes que já precisam de um transplante. Em Goiás, mais de 1.800 pessoas aguardam por uma córnea, com tempo médio de espera de quase dois anos. A autorização familiar é exigida pela legislação para a retirada do tecido.

O presidente da SGO destacou que Goiás conta atualmente com dois bancos de olhos e defendeu o fortalecimento das equipes responsáveis pela captação.

“No Estado de Goiás existem dois bancos de olhos, a Fundação Banco de Olhos e o Cerof [Centro de Referência em Oftalmologia] da UFG. Uma coisa muito importante é ter equipes de captação bem treinadas e orientadas, porque é preciso abordar a família num momento de dor. Se o processo for demorado, a própria família pode se desincentivar a fazer a doação”, disse.

Estrutura da rede também é desafio para transplantes

Ao comentar a resistência das famílias em autorizar a doação de órgãos e córneas, Leiser afirmou que não considera a recusa o principal obstáculo para ampliar o número de transplantes. Para ele, também é necessário melhorar a estrutura da rede de captação.

“Eu sinceramente acho que não tem tanta resistência, não. Eu acho que a gente precisa estruturar melhor a rede de captação. Os familiares, quando abordados adequadamente, no tempo certo, grande parte doa. Lógico, existem aqueles que às vezes optam por não doar e às vezes é uma questão de foro íntimo. Às vezes a pessoa tá tão transtornada com a perda que, infelizmente, não consegue pensar que pode ajudar outras pessoas”, disse.

A conscientização da população, segundo o médico, precisa caminhar ao lado de uma estrutura capaz de identificar potenciais doadores e realizar a abordagem das famílias.

“Essa conscientização é muito importante. Mas também eu vejo como um fator decisivo a rede de captação estar melhor estruturada. Isso facilitaria muito que pessoas que têm interesse em doar, ou às vezes aceitassem, né, as famílias aceitassem a fazer a doação”, afirmou.

O especialista lembrou que setembro reúne duas campanhas relacionadas aos temas abordados: o Setembro Amarelo, voltado à prevenção do suicídio, e o Setembro Verde, dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos.

“A conscientização da população é fundamental para reduzir o tempo de espera por transplantes e para que mais pacientes possam recuperar a visão”, destacou.

Uso incorreto de lentes pode causar infecções graves

Outro ponto de atenção envolve as lentes de contato. Mais de 2 milhões de brasileiros utilizam lentes, segundo dados da Sociedade Brasileira de Lentes de Contato. Quando usadas de maneira inadequada, elas podem provocar lesões, úlceras e infecções graves na córnea.

“A lente de contato, por mais biocompatível que seja, é um corpo estranho no nosso olho. Então você tem que ter um cuidado de higienização e de armazenamento muito grande para que ela não se contamine. Para que bactérias, protozoários, fungos não fiquem presos na lente e, quando você colocar no olho, possam causar infecções graves”, explicou.

Entre os cuidados necessários estão a troca das lentes dentro do período recomendado, a higienização adequada e o armazenamento correto.

“O importante é ter uma troca do material no tempo adequado, utilizar os produtos de manutenção corretamente, lavar com frequência o estojinho onde a lente é armazenada. Todas essas questões são muito importantes para evitar infecção”, disse.

Ao tratar da educação em saúde ocular, o presidente da SGO reforçou a importância de iniciativas de conscientização.

“Esse tipo de iniciativa que o Jornal Opção está fazendo aqui com a gente é de grande importância, porque ajuda nesse processo de conscientização da população”, apontou.

Para o médico, saúde ocular, saúde mental e doação de córneas são questões que podem se encontrar na trajetória de um mesmo paciente.

“E você veja que os três temas conversam entre si. Eu mesmo tenho pacientes que desenvolveram infecções graves por conta de lente de contato. Nós conseguimos tratar, mas esses pacientes desenvolveram problemas de visão significativos, acabaram tendo quadros depressivos relacionados a isso e estão aguardando na fila de transplante a oportunidade de uma doação de córnea para poder voltar a ter uma qualidade de vida melhor”, finalizou.

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Fonte: Jornal Opção

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