‘A gente só quer um teto’: famílias travam linha do trem contra despejo na Zona Leste de SP

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Por Jessica SantosPonte

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‘A gente só quer um teto’: famílias travam linha do trem contra despejo na ZL de SP


18/09/2026 3h09

Gabriela Moncau

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Moradores da Ocupação Jardim Nova Esperança, onde vivem 270 famílias e 115 crianças, protestam contra a reintegração de posse marcada para terça-feira, 22 de setembro, e afirmam não ter alternativa habitacional

Pneus queimam no meio de uma via enquanto manifestantes da Ocupação Jardim Nova Esperança seguram faixas durante protesto contra o despejo na zona leste de São Paulo.
Manifestantes da Ocupação Jardim Nova Esperança bloqueiam via com pneus em chamas durante protesto contra a reintegração de posse marcada para terça-feira (22), na zona leste de São Paulo. | Foto: Pedro Stropasolas

A Linha 12-Safira da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), a ponte Cumbica e a Avenida Dr. Assis Ribeiro, na zona leste de São Paulo, amanheceram bloqueadas nesta sexta-feira (18/9). Com fogo em pneus e faixas reivindicando moradia, famílias da Ocupação Jardim Nova Esperança, no distrito de Ermelino Matarazzo, protestaram contra a reintegração de posse marcada para a próxima terça-feira (22/9) às 6h. Depois de uma hora, a PMESP (Polícia Militar do Estado de São Paulo) reprimiu a manifestação com bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral.

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O despejo foi decretado pelo juiz Henrique Maul Brasilio de Souza, da 3ª Vara Cível do Foro Regional V – São Miguel Paulista, acatando pedido da família Srur, proprietária da empresa São Joaquim Administração e Participação Ltda. A notícia da reintegração de posse chegou às famílias no último domingo (13/9), nove dias antes da data agendada para a remoção. 

Policiais militares observam barricada em chamas durante protesto de moradores da Ocupação Jardim Nova Esperança contra o despejo na zona leste de São Paulo.
Policiais militares acompanham protesto de moradores da Ocupação Jardim Nova Esperança contra a reintegração de posse, na zona leste de São Paulo; manifestantes bloquearam vias com fogo durante o ato. | Foto: Pedro Stropasolas

De acordo com a petição original, dos três autores da ação, dois residem em Portugal. O Grupo São Joaquim, proprietário do terreno, tem sete ramos de atuação. Está nos setores imobiliário, do agronegócio e de logística, além de gestão comercial e operacional de prédios corporativos, do shopping SP Market e do Parque da Mônica.  

A área da empresa onde a comunidade se fixou desde abril, no entanto, estava abandonada antes de ser ocupada. De acordo com o advogado Gilmar Barbosa, que faz a defesa dos ocupantes, ali vivem atualmente 270 famílias, incluindo 47 idosos, dez pessoas com deficiência e 115 crianças em período letivo. 

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“Os nossos filhos valem menos do que o mato que estava crescendo lá?”, questiona Cícera Augusta de Souza. Pernambucana de 41 anos, Cícera é mãe solo de quatro filhos e trabalha, em escala 6×1, em uma lanchonete. “Quando que eu, com um salário mínimo, vou conseguir comprar uma casa?”, argumenta.

Duas crianças correm em área de terra da Ocupação Jardim Nova Esperança, diante de moradias construídas com madeira e outros materiais, na zona leste de São Paulo.
Crianças brincam na Ocupação Jardim Nova Esperança, na zona leste de São Paulo, onde 270 famílias vivem sob ameaça de reintegração de posse. | Foto: Pedro Stropasolas

“A gente tem mesmo que lutar pelos nossos direitos, porque a gente é pobre, mas a gente é gente. Também sangra, também trabalha, também têm filhos na escola. A gente só quer ter direito ao básico, que é um teto. É o mínimo: dignidade”, enfatiza Cícera. Se for despejada, alega não ter para onde ir. “Vou morar na rua com os meus quatro filhos”.

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Natan Henrique da Silva, morador de 35 anos, frisa que até agora a comunidade não foi ouvida nem recebeu visita de nenhum órgão público – com exceção da PM. “Não veio assistência social, conselho tutelar, secretaria de habitação, nada. A gente está abandonado”, sintetiza, preocupado com a situação de pessoas com baixa mobilidade – como Rita Santos que, aos 80 anos, depende de cilindro de oxigênio para sobreviver.

Rita Santos, de 80 anos, sentada ao lado da cama em sua casa na Ocupação Jardim Nova Esperança, cercada por cilindros de oxigênio que utiliza para respirar.
Rita Santos, 80 anos, moradora da Ocupação Jardim Nova Esperança, depende de cilindros de oxigênio e está entre as pessoas ameaçadas de despejo na zona leste de São Paulo. | Foto: Pedro Stropasolas

Outro caso é o de Damião Lima da Silva, de 64 anos. Com um câncer de próstata, uma perna amputada e a medula operada, está há nove anos em uma cama hospitalar. Aceitou receber a reportagem na casa de madeira onde vive com a filha, Aline, o genro e dois netos. Quando a baixa renda fez com que tivessem que escolher entre pagar aluguel ou comer, ficaram com o segundo. “E aí gente veio parar aqui”, contou.

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Com o semblante sério ao lado da cama do pai, Aline, de 36 anos, se indignou com o tempo curto com o qual foram avisados da remoção. “Como que a gente sai com ele nessa condição? Não temos para onde ir. Precisaria encontrar uma casa adaptável, térrea. Não tenho condição. E vamos perder tudo o que a gente construiu aqui”, afirmou, sem plano B. “Ontem eu passei mal, fiquei de cama”.

Três manifestantes seguram faixas diante de uma barricada em chamas durante protesto da Ocupação Jardim Nova Esperança contra o despejo na zona leste de São Paulo.
Moradores da Ocupação Jardim Nova Esperança seguram faixas diante de barricada em chamas durante protesto contra a reintegração de posse na zona leste de São Paulo. | Foto: Pedro Stropasolas

Para a Ponte, moradores relataram que a tensão aumentou desde que, no último domingo, uma viatura da PM foi até o terreno. De lá, uma equipe teria descido entregando um panfleto. O papel diz que o despejo poderia ocorrer entre os dias 18 e 22 e pede a “colaboração de todos”. O material tem os logos da PM, da seccional São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) e da empresa Doutor Depositário. 

Nesta sexta-feira (18/9), o juiz Henrique Brasilio de Souza publicou nova decisão, reforçando o despejo na terça e afirmando que “os panfletos foram distribuídos por iniciativa própria do depositário indicado pelos autores”. Questionado pela reportagem, o TJ-SP informou que não autorizou o uso de seu logo no material. A PM, a OAB-SP, a empresa Doutor Depositário e os proprietários da área não responderam aos pedidos de posição. 

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Procurada por e-mails e telefone, a prefeitura de São Paulo, sob gestão de Ricardo Nunes (MDB), informou que pretende retornar, mas não há previsão de quando. 

Elizabeth Santos de Lima, de 45 anos, não conseguiu ir à manifestação, mas escutou as bombas e os helicópteros da ocupação. Com uma hérnia estrangulada, teve que parar de trabalhar e se locomove com a ajuda de um cabo de vassoura enquanto aguarda por uma cirurgia no SUS. “A gente precisa da terra”, resume. 

Elizabeth Santos de Lima em frente à sua casa de tijolos na Ocupação Jardim Nova Esperança, apoiada em um cabo de vassoura para se locomover.
Elizabeth Santos de Lima, 45 anos, em frente à casa onde vive na Ocupação Jardim Nova Esperança, na zona leste de São Paulo. Com uma hérnia estrangulada, ela aguarda cirurgia pelo SUS e se locomove com a ajuda de um cabo de vassoura. | Fonte: Gabriela Moncau

Histórico de disputa pela área

Não é a primeira vez que este terreno de 12,9 mil metros quadrados, localizado ao lado da estação Comendador Ermelino da CPTM, é disputado. Em agosto de 2021, foi ocupado por cerca de 300 pessoas. Anos depois, em março de 2025, foram despejadas. De lá para cá, relata Cícera Augusta, a área não foi usada para nada. Em abril deste ano, aconteceu a mais nova ocupação.

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Em um agravo contra a reintegração de posse apresentado pela Associação de Moradores do 1º de Maio Jardim Queralux e negado pelo juiz, os ocupantes argumentam que a terra não cumpria sua função social e que não houve uma atualização de cadastros, nem de audiência de mediação. 

“A população está bem revoltada”, afirma Natan da Silva: “As pessoas estão dizendo que estão dispostas a morrer pela terra”. 

O que dizem as autoridades

A Ponte solicitou um posicionamento oficial ao TJ-SP questionando se haverá audiência de solução fundiária sobre o caso e se o órgão teria firmado, com seu logo, o panfleto sobre o despejo entregue às famílias da Ocupação Jardim Nova Esperança. 

O TJ-SP enviou a decisão da reintegração de posse, informando que o mandado tem “seus próprios fundamentos”. O órgão acrescentou que o panfleto e o logotipo não pertencem ao TJ-SP. 

A Ponte também questionou a OAB-SP, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) e a empresa Doutor Depositário a respeito do panfleto, mas não obteve retorno. 

A empresa São Joaquim e membros da família Srur, autores da ação de reintegração de posse, foram contatados por e-mail e não responderam à reportagem. 

A respeito do atendimento habitacional e da situação das famílias, a Ponte enviou dois e-mails para a Secretaria de Habitação da Prefeitura de São Paulo. Após ligação telefônica, a assessoria de imprensa confirmou o recebimento da solicitação, mas disse não ter previsão para o retorno. 

Da mesma forma, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Estado de São Paulo (SDUH) se limitou a perguntar pelo número do processo de reintegração de posse, mas não respondeu se atuará por uma alternativa habitacional às famílias. 

Fonte: Ponte

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