Petróleo a US$ 105 e eleição binária: o dilema do Banco Central
Por Paulo Gala — Brasil 247
As decisões de política monetária da semana vieram sem surpresa. O Banco Central cortou a Selic para 13,75%, como esperado, e o Federal Reserve elevou os juros americanos para 4%, também dentro do previsto. O que mudou o jogo não foi a decisão dos bancos centrais, mas o petróleo.
O barril a US$ 105 não tem resolução à vista. A crise logística no Oriente Médio se agravou com os ataques no estreito de Bab el-Mandeb, na entrada do Mar Vermelho que dá acesso ao Canal de Suez, e se estendeu ao oleoduto saudita que leva o petróleo de uma ponta à outra do país justamente para contornar aquele gargalo. Com as duas rotas sob pressão, o efeito chega rápido à bomba: o galão de gasolina nos Estados Unidos voltou aos US$ 4.
O reflexo já aparece nos índices americanos. O PPI da semana passada rodou a 5%, com a inflação ao consumidor em torno de 3,5%. O Fed subiu os juros e deve subir mais. O mercado já precifica pelo menos mais uma alta de 0,25 ponto neste ano e possivelmente duas ao longo do próximo.
Isso complica a vida do Banco Central brasileiro. Aqui, o quadro doméstico até melhorou: a inflação corre a 4,22% no ano, deve fechar próximo disso e ficar entre 4,2% e 4,3% em 2027, com projeção de 3,2% no horizonte relevante da meta, o primeiro trimestre de 2028. Há espaço para mais um corte em novembro. Mas entramos numa zona mais frágil. Enquanto o juro estava absurdamente elevado, havia folga. À medida que ele cai, o juro americano sobe e o petróleo segue caro, a conta tende a bater no câmbio.
E não dá para montar cenário sem saber quem ganha a eleição, porque os desdobramentos são binários.
Uma vitória de Flávio, com agenda mais à direita, viria acompanhada de um corte de gastos da ordem de R$ 200 a R$ 300 bilhões por ano. O efeito imediato seria um rali do real — foi o que aconteceu na Colômbia e no Chile — com a moeda abaixo de R$ 5. Isso ajuda muito o Banco Central a controlar a inflação e tira pressão de demanda. Garantia de crescimento, porém, não existe. Basta lembrar do período Temer-Bolsonaro, quando o Brasil cresceu 1,5% na média sob contração fiscal, mesmo com Campos Neto levando a Selic a 2% durante a covid. Nas últimas duas décadas, o Brasil só cresceu com expansão fiscal. Pode ser que desta vez seja diferente, mas eu não vi isso acontecer no período que acompanho.
Com Lula reeleito, é mais do mesmo. Já vimos o aumento de R$ 20 bilhões no Bolsa Família. Há impulso de demanda, e o PIB cresce, porque todo o crescimento recente veio por essa via. O problema é que a estratégia está esgotada. Com o investimento parado em 16,5% do PIB, não se amplia a capacidade instalada, e sem nova capacidade a transferência de renda vira inflação. Isso obriga o Banco Central a manter o juro alto. Se o plano não mudar — caneta de graça no SUS, mais Bolsa Família e medidas do gênero —, o BC para de cortar e também não crescemos, porque o juro segue proibitivo. Nesse cenário, o câmbio provavelmente vai a R$ 5,50, com um pouco mais de inflação e algum crescimento na veia.
O dilema é esse, e a saída é conhecida: mudar para um modelo liderado por investimento. Precisamos levar a taxa de investimento para 20%, 25% do PIB e elevar a produtividade. Não há outro caminho para crescimento sustentado e aumento real de salário. E as pessoas estão irritadas com razão: a média salarial brasileira é de R$ 3.700.
Não dá para saber o que acontece nas urnas nas próximas semanas. Do ponto de vista macro, é mais ou menos isso que temos. Sigo comentando conforme os próximos dados chegarem.
Fonte: Brasil 247