Por Luis Cosme PintoBrasil 247

Agnaldo é cordial. Fala mansa, olhar maroto, não regula “obrigado”, “por favor”, “gratidão, senhora”.

Minha mãe definiria como “homem de bons modos”.

Minha avó chamaria de “fidalgo de quatro costados”.

Muitos imaginam que um cidadão gentil segue as boas maneiras da convivência: do bom dia, do boa tarde, do sorriso no elevador.

Não, não é esse o caso de Agnaldo. Educado ele é, mas não mostra os dentes à toa.

Conheci Agnaldo em um dia especial: ganhara de minha filha duas camisetas, dessas de ir à academia ou bater perna. Tirei outras duas da gaveta para doar. A verde interessou a uma vendedora de chicletes na rua.

Logo vi Agnaldo. O homem magro me encarou com a palma da mão esticada.

– Por favor, tem um real para inteirar meu almoço?

– Não tenho. Você quer essa camiseta?

Agnaldo aprovou o modelo e me desconcertou com sua franqueza.

– O senhor desculpe, não quero, não. Eu durmo na calçada, moço. Essa camiseta branca fica imunda na primeira noite. A gente não tem onde tomar banho, muito menos lavar roupa. Se fosse preta, marrom, eu ficava.

– Tá certo.

Concordei pensando na sinceridade da resposta. Agnaldo podia pegar a camiseta pra vender, pra dar pra alguém ou mesmo para usar e depois jogar no lixo. Escolheu a verdade.

Ele mesmo interrompeu meus pensamentos.

– Moço, vai embora não. Esfriou esses dias. O senhor não tem meia? Se tiver, traz dois pares, eu uso uma por cima da outra que esquenta. Pode ser branca, que eu boto por dentro, entendeu?

Agnaldo riu da observação e eu também ri. Fui em casa e desci com a encomenda. Ele colocou duas em cada pé.

Agnaldo sobrevive das latas e embalagens que encontra no lixo, também divide com um amigo uma carroça. Os dois recolhem papelão e sucata, depois vendem e repartem. Mal dá pra comer.

– Sorte que tem pessoal da igreja e voluntários que ajudam. Já a galera que passa na rua, diz que nunca tem.

Diante da enxurrada de recusas, ele esbanja gentileza.

“Obrigado”.  “Deus te dê em dobro”. “Que nunca falte nada, moça”.

Não é a primeira vez que escrevo sobre esses vizinhos. A Vila Buarque, no centro, tem imensa quantidade de pessoas que dependem da generosidade alheia. As roupas que usam, a barraca em que se abrigam; também o cigarro, a cachaça, o pão na chapa. Tudo doado.

Agnaldo é da área. Quando me vê, acena, sorri, brinca. “Quando tiver camiseta escura traz, pode ser do Botafogo também…”.

Agnaldo pega chuva, passa frio.

Agnaldo sua no verão, treme no inverno.

Agnaldo sobrevive sem alimentação, com pouco descanso, quase nada de higiene.

Um dia perguntei.

– Agnaldo, você já ficou doente?

– Tive diarreia uma vez. Fui no SUS, tomei remédio e fiquei bom. Febre, gripe, dor de cabeça, essas doenças de rico nunca tive. Na rua a gente fica cascudo.

Forte, comunicativo, inteligente, Agnaldo podia ser muitos “eiros”: porteiro, faxineiro, jardineiro. Aposto que também aprenderia a pintar paredes, lavar carros, fazer barba, cabelo e bigode.

Com mais estudo, seria médico, astronauta, maestro.

– E se desse pra escolher, Agnaldo?

– Cobrador de ônibus. Adoro rodar pela cidade, ver gente, aqueles prédios. Cobrador tem uniforme, trabalha sentado. Lá dentro não chove e soube que agora o busão tem ar-condicionado.

– Já tentou?

– Nunca.

Talvez invasivo, dia desses perguntei a Agnaldo.

– O que aconteceu pra você morar na rua?

– Foi a Marli.

– Quem é Marli?

– Marli foi minha mulher por cinco anos. É mãe da Tamires e do Bruno.

– E?

– Ela não aguentou.

– Não aguentou o quê?

– Não me aguentou. Foi embora. Tá morando em Serra Grande, na Bahia. Já avisou para eu não aparecer lá. Acho que se arrumou.

Então, Agnaldo acende a ponta de cigarro que estava atrás da orelha e me cutuca com sua franqueza

– Não tenho nada pra falar disso. Deixa quieto. Conta de você. Tu é casado, solteiro ou lesco-lesco?

Fonte: Brasil 247

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