A “Segurança” dos Bolsonaro exposta no Rio

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Por Daniel LeviCombate Racismo Ambiental

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

A “Segurança” dos Bolsonaro exposta no Rio

Porosidade entre milícias e governo vai muito além das armas. Captura decisões políticas, contratos e recursos. Caso Master, desvios da RioPrevidência e fortalecimento do crime organizado revelam novo patamar

Por Carlos Fidelis Ponte*, em Outras Palavras

O Rio de Janeiro está doente há décadas. E não apenas no sentido metafórico. Para a nossa concepção, saúde é muito mais do que ausência de doença. Ela compreende as condições necessárias a uma vida digna — moradia, educação, trabalho, renda, alimentação, serviços públicos e segurança — e a possibilidade de viver sem medo: medo da violência, do abandono, do futuro e, talvez o mais perturbador, medo daqueles que deveriam proteger a cidadania, os direitos e a lei. Saúde física, mental e institucional são inseparáveis.

No Rio, todas elas estão comprometidas. Cerca de 4 milhões de pessoas, 34,9% da população da Região Metropolitana, viviam em 2024 sob controle ou influência de grupos armados. Milícias e facções não se limitam ao tráfico: exploram gás, internet, televisão, transporte, imóveis, segurança e outros negócios. Cobram, autorizam, proíbem e impõem regras. Em extensas áreas, organizações criminosas disputam com o poder público uma prerrogativa elementar do Estado: determinar como as pessoas vivem.

A degradação alcançou também as instituições. A história recente produziu uma sequência extraordinária de governadores e ex-governadores presos, condenados, investigados ou afastados. Benedita da Silva, que governou o estado em 2002, destaca-se como honrosa exceção nessa história recente. Mais do que uma sucessão de escândalos, o que aparece é a profundidade de uma crise institucional que atravessou governos, partidos e diferentes grupos políticos.

Na segurança pública, responsabilidade central do governo estadual, a contradição é brutal. Há décadas, operações de enorme letalidade e chacinas são apresentadas como resposta à criminalidade, enquanto facções e milícias ampliam seu poder territorial e econômico. Para parte da população, tornou-se plausível até suspeitar de que determinados confrontos possam envolver disputas entre grupos criminosos capazes de estabelecer relações com agentes do próprio Estado. Quando uma suspeita dessa gravidade encontra acolhida social, o problema já não é apenas policial: é também a perda de confiança nas instituições.

O espetáculo dantesco se repete: mortos, famílias desesperadas, escolas fechadas, comunidades paralisadas. Quando há execuções, pratica-se algo equivalente a uma pena de morte sem processo, defesa ou sentença. Um Estado que mata muito não é necessariamente forte. Forte é o Estado capaz de investigar, prender, julgar, proteger seus cidadãos e impedir que criminosos governem territórios. Depois de décadas de sangue, o crime continua organizado, armado, rico e poderoso. E o Rio continua a se degradar.

Essa violência adoece mesmo quando não atinge diretamente o corpo. Milhões de pessoas organizam a vida pelo medo: quando sair, por onde passar, se haverá aula, se o ônibus circulará, se será possível trabalhar ou chegar a um hospital. A criminalidade deixa de ser apenas problema policial e transforma-se em determinante permanente da saúde física e mental.

Talvez a face mais inquietante dessa crise apareça quando o crime atravessa a fronteira entre território e instituição. Episódios distintos, vistos em conjunto, expõem a porosidade das instituições fluminenses. TH Joias tornou-se réu acusado de integrar organização criminosa ligada ao Comando Vermelho e de participar de esquema que envolvia corrupção e vazamento de informações policiais. Rodrigo Bacellar, então presidente da Alerj e personagem importante das articulações políticas de Flávio Bolsonaro no estado, também foi alcançado pelas investigações relacionadas a TH.

O quadro se amplia. Chiquinho e Domingos Brazão foram condenados pelo STF pelo planejamento dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes e por organização criminosa armada. No mesmo processo, o ex-chefe da Polícia Civil Rivaldo Barbosa foi condenado por corrupção passiva e obstrução da Justiça. Adriano da Nóbrega, posteriormente apontado pelas autoridades como liderança miliciana e associado ao Escritório do Crime, recebeu de Flávio Bolsonaro a Medalha Tiradentes quando este era deputado estadual; a mãe e a ex-mulher de Adriano trabalharam em seu gabinete.

Há outros fios nessa trama. Gutemberg Fonseca, amigo e aliado de Flávio, apareceu numa planilha apreendida pela Polícia Federal e atribuída ao contraventor Adilsinho, com registros associados a R$ 727 mil; Gutemberg nega relação com o contraventor. Márcio Canella, outro aliado importante de Flávio, foi alvo da Operação Unha e Carne, que investiga lavagem de dinheiro e possíveis conexões entre organizações criminosas e agentes públicos, e permanece investigado.

Os episódios têm pesos e situações processuais diferentes. O que interessa é o padrão institucional que emerge do conjunto: políticos, agentes públicos, investigados, condenados e organizações criminosas aparecem em relações que atravessam as fronteiras entre poder político, administração pública e criminalidade. Num estado onde grupos armados já controlam territórios e mercados, essa porosidade é especialmente grave. A trajetória de quem disputa a Presidência apresentando o combate ao crime organizado como credencial merece ser examinada também por suas alianças e escolhas políticas.

A saúde oferece outro retrato dessa degradação. No episódio do “Fala com a Márcia”, durante a prefeitura de Marcelo Crivella, político ligado aos círculos bolsonaristas, o próprio prefeito orientou lideranças evangélicas a procurar sua assessora Márcia Nunes para encaminhar pessoas que necessitassem de cirurgias de catarata e tratamentos de varizes. Márcia afirmou posteriormente que não marcava cirurgias nem possuía senha do Sisreg. Diante de um direito universal, surgia a intermediação pessoal e política como caminho para chegar ao serviço público.

As acusações mais recentes sobre os hospitais federais são ainda mais graves. Em 2026, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou na Câmara dos Deputados que Flávio Bolsonaro indicara diretores e controlara a gestão dessas unidades durante o governo de Jair Bolsonaro. A suspeita de influência política sobre hospitais federais já havia aparecido anteriormente em declarações de Wilson Witzel. Diante disso, as perguntas são inevitáveis: quem indicava os dirigentes, quem decidia os contratos, como funcionavam as licitações e quem se beneficiava dessas decisões?

A experiência do bolsonarismo na saúde também é conhecida. Jair Bolsonaro teve quatro ministros da Saúde durante a maior emergência sanitária em um século. Mais de 700 mil brasileiros morreram de Covid-19 enquanto seu governo acumulava conflitos sobre distanciamento social, medicamentos sem eficácia comprovada, aquisição de vacinas e condução da pandemia. Investigações parlamentares e estudos científicos apontaram decisões, omissões e mortes potencialmente evitáveis, e a CPI da Pandemia recomendou o indiciamento de autoridades e outros envolvidos. A responsabilização política e jurídica apontada ao final daquele processo, entretanto, ficou muito aquém da gravidade das acusações formuladas. O que essa experiência colocou em evidência vai além da gestão temerária de uma emergência sanitária: alcança a própria concepção de Estado, ciência, responsabilidade pública e saúde que orientou aquelas escolhas e produziu consequências igualmente graves.

Essa concepção encontrou convergências com uma perspectiva neoliberal de redução das responsabilidades estatais e ampliação do espaço do mercado. Ricardo Barros, ministro da Saúde no governo Temer e posteriormente aliado parlamentar de Bolsonaro, defendeu maior participação privada na saúde e entrou em controvérsia com a Fiocruz em torno da produção pública de medicamentos. Poucos anos depois, a pandemia demonstraria o valor estratégico da capacidade acumulada por instituições como Fiocruz, Bio-Manguinhos e Instituto Butantan. Capacidade pública não se improvisa durante uma emergência.

O domínio sobre o público não ocorre apenas pela arma; pode ocorrer também pela captura de decisões, contratos e recursos. O fuzil e a captura das estruturas públicas operam de formas distintas. O ponto de encontro está naquilo que ambos corroem: a capacidade do Estado de proteger o que pertence à coletividade.

Essa constatação torna particularmente incômoda uma contradição do Rio. O estado é um dos berços do bolsonarismo, e segurança e combate ao crime estão entre as bandeiras mais insistentes desse campo político. A decadência fluminense começou muito antes de sua ascensão. O que importa aqui é observar o que ocorreu no lugar onde o bolsonarismo construiu raízes profundas, acumulou poder e produziu algumas de suas principais lideranças. Facções e milícias continuam controlando territórios, diversificaram negócios e alcançaram estruturas políticas.

O Banco Master acrescenta outra dimensão. Durante a gestão de Cláudio Castro, aliado político dos Bolsonaro, a RioPrevidência aplicou R$ 3,6 bilhões em letras financeiras e fundos ligados ao banco de Daniel Vorcaro. A Polícia Federal investiga a regularidade dessas operações e, segundo decisão judicial que autorizou buscas contra Castro, os indícios reunidos apontavam que o então governador exerceu “papel politicamente relevante” na viabilização dos aportes. Estamos falando de patrimônio previdenciário destinado a garantir aposentadorias e pensões dos servidores do Rio.

É nesse contexto que a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro ganha outra dimensão. Flávio tornou-se investigado por suspeitas relacionadas às transações envolvendo o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Documentos e mensagens analisados pela Polícia Federal apontam sua participação direta nas negociações com Vorcaro. Segundo a PF, Flávio pediu R$ 131 milhões ao banqueiro para a produção do filme, dos quais R$ 60 milhões teriam sido pagos. Flávio e Eduardo Bolsonaro negam irregularidades relacionadas ao financiamento.

Mas dinheiro privado não é sinônimo de dinheiro lícito. A investigação procura esclarecer de onde vieram os valores, por onde circularam e quem deles se beneficiou. Não há demonstração de que o dinheiro destinado ao filme tenha saído da RioPrevidência. Há, entretanto, uma questão incontornável: o banqueiro que negociava milhões para um projeto ligado à família Bolsonaro controlava uma instituição que captou volumes bilionários de recursos administrados por entidades públicas e posteriormente foi colocada no centro de investigações sobre fraudes financeiras.

Há ainda um problema de credibilidade. Por que Flávio negou uma relação que depois precisou admitir? De onde vieram efetivamente os milhões negociados? Por quais caminhos circularam e quem foram seus beneficiários finais? São perguntas de interesse público quando dirigidas a alguém que disputa a Presidência sob as bandeiras da ordem, da segurança e do combate à corrupção.

O Rio oferece, afinal, uma experiência concreta. Milhões de pessoas organizam a vida pelo medo; grupos armados controlam territórios e mercados; sucessivos escândalos corroeram a confiança nas instituições. Uma sociedade submetida a essas condições não pode ser considerada saudável. Saúde física, mental e institucional dependem de dignidade, segurança, direitos e confiança no futuro.

A longa decadência do Rio não começou com o bolsonarismo e não cabe numa única explicação. Mas o passado de quem pretende governar o país importa: suas alianças, suas declarações, suas propostas e, sobretudo, aquilo que ocorreu quando seu grupo político exerceu o poder. Prometer ordem é fácil. O exercício do poder deixa um registro. É esse registro que precisa ser examinado.

Depois de décadas de chacinas, corrupção, expansão do crime organizado e deterioração institucional, já não estamos falando apenas de segurança pública. Estamos falando da saúde de uma sociedade, da qualidade de suas instituições e da capacidade do Estado de continuar sendo verdadeiramente público.

Queremos isso para o Brasil?

*Pesquisador da Fiocruz, membro do Conselho Nacional de Saúde e Presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes)

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Fonte: Combate Racismo Ambiental

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