Mediterrâneo esquenta e fica mais salgado em ritmo acelerado – até nas profundezas

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O Mar Mediterrâneo está ficando mais quente e mais salgado em um ritmo cada vez mais acelerado, e as mudanças não estão restritas à superfície. Um novo estudo identificou sinais de aquecimento e salinização em diferentes regiões da bacia, com alterações que chegam a milhares de metros de profundidade.
A aceleração é mais intensa no Mediterrâneo central e oriental e, sobretudo, no Adriático, onde alcança o fundo do mar. O trabalho, realizado por pesquisadores do Instituto Ruđer Bošković, na Croácia, analisou medições de temperatura e salinidade obtidas por expedições de pesquisa e boias robóticas entre 1950 e 2025.
“É realmente surpreendente que estejamos observando mudanças significativas em todas as regiões, alcançando grandes profundidades”, afirmou Elena Terzić, oceanógrafa física do Instituto Ruđer Bošković e autora principal do estudo.
O trabalho será publicado em 16 de setembro de 2026 na Geophysical Research Letters, revista da American Geophysical Union (AGU).

Aquecimento se acelera
Nos últimos anos, os 100 metros superiores do Mediterrâneo estiveram cerca de 2°C mais quentes do que a média registrada entre 1950 e 1999. Estudos anteriores já haviam identificado sinais de aceleração do aquecimento da superfície, mas o novo trabalho investigou se o fenômeno também estava se intensificando abaixo da superfície em toda a bacia.
Segundo os pesquisadores, temperatura e salinidade estão aumentando em quase toda a região, e o ritmo desse aumento também está acelerando. Em algumas áreas, o aquecimento está se acelerando em até 0,3°C por década. Ao mesmo tempo, cada quilograma de água fica cerca de um décimo de grama mais salgado por década.
Desde 2000, as águas superficiais do Mediterrâneo aqueceram cerca de 0,5°C por década, ritmo duas a três vezes maior que o observado na superfície dos oceanos globais. Na segunda metade do século 20, o aumento era inferior a 0,1°C por década na maior parte da bacia.
“Para nós, o que foi alarmante foi a velocidade com que isso está mudando e as profundidades que essas mudanças significativas alcançam”, disse Terzić. “O aquecimento e a salinização são estatisticamente significativos até três ou quatro mil metros de profundidade, e a própria aceleração chega a cerca de 2.500 metros.”
A densidade da água é um dos fatores que impulsionam a circulação nas profundezas do mar. O aquecimento torna a água mais leve, enquanto o aumento da quantidade de sal a torna mais pesada.
Na maior parte do Mediterrâneo, o aquecimento está prevalecendo. Com isso, a superfície fica mais leve e se mistura com menos facilidade com a água abaixo. O cenário é diferente em regiões onde se formam águas densas, principalmente no Adriático. Ali, os ventos frios do inverno podem tornar a água da superfície densa o suficiente para afundar. Essa água se espalha posteriormente pelo Mediterrâneo central e oriental, levando oxigênio para as profundezas e contribuindo para as condições que sustentam a vida marinha.
Desde 2000, entretanto, as águas profundas do sul do Adriático aqueceram cerca de seis vezes mais rápido do que as águas de uma bacia mediterrânea típica. Enquanto o aumento da salinidade superar o efeito do aquecimento, a água continuará afundando. A diferença é que ela agora leva mais calor para as profundezas do Mediterrâneo.
“Águas densas continuam se formando, mas temos indícios de que a maneira como elas se formam está mudando, e a água que afunda agora é mais quente e mais salgada do que costumava ser”, afirmou Terzić.
O estudo não mediu os níveis de oxigênio, mas os pesquisadores destacam que águas mais quentes conseguem reter menos oxigênio. Reduções na concentração do elemento já foram documentadas em partes do Mediterrâneo.
Ao mesmo tempo, espécies marinhas que tentam escapar do aquecimento encontram cada vez menos áreas de refúgio. O Mediterrâneo é fechado ao norte e as águas profundas também estão aquecendo.
Mediterrâneo como sinal das mudanças no oceano
Os oceanos absorveram mais de um quarto das emissões de dióxido de carbono produzidas pela humanidade e mais de 90% do excesso de calor retido pelos gases de efeito estufa. No Mediterrâneo, a circulação da água entre a superfície e as profundezas ocorre cerca de dez vezes mais rapidamente do que no oceano aberto. Por isso, os autores consideram que a região pode oferecer indicações de como bacias oceânicas maiores podem responder ao aquecimento do clima.
O estudo também levanta questões sobre o que está provocando a aceleração observada. Os pesquisadores pretendem investigar a influência da atmosfera, das mudanças nos padrões de evaporação, chuva e descarga dos rios e da entrada de água do Atlântico pelo Estreito de Gibraltar.
Outra questão é saber se os modelos climáticos atuais conseguem reproduzir a velocidade das mudanças observadas, informação que ajuda a determinar a confiabilidade das projeções para a região.
“O Mediterrâneo é pequeno o suficiente para que possamos observar como um mar responde, em escalas de tempo que podemos acompanhar nós mesmos, e o que vemos é uma mudança sem precedentes”, afirmou Terzić.
“É um alerta sobre a velocidade com que o oceano pode mudar, e isso continuará enquanto nossas economias continuarem dependendo de combustíveis fósseis.”
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Fonte: umsoplaneta

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