Escalada entre Arábia Saudita e houthis desloca mais de 100 mil iemenitas e ameaça rotas estratégicas para o petróleo
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – A escalada entre Arábia Saudita e houthis deslocou mais de 100 mil iemenitas, levou famílias a fugir em pequenas embarcações pelo Mar Vermelho e ampliou os riscos para as rotas estratégicas usadas no transporte mundial de petróleo e gás.
Segundo a Reuters, forças sauditas e rebeldes houthis apoiados pelo Irã realizaram novos ataques nesta quinta-feira (17) em áreas próximas à fronteira do Iêmen. A intensificação dos combates ocorre enquanto o tráfego pelo Estreito de Ormuz permanece limitado e o conflito no Oriente Médio avança sobre outra importante passagem marítima.
Emissoras controladas pelos houthis informaram que a aviação saudita atacou a província de Hajjah, localizada na costa do Mar Vermelho e próxima ao território da Arábia Saudita. Também teriam sido atingidos pontos nos arredores de Taiz, cidade situada mais ao sul e no interior do Iêmen.
Do lado saudita, a Defesa Civil anunciou que um cidadão iemenita residente no país morreu após ser atingido por destroços de um drone interceptado sobre Taif, no oeste da Arábia Saudita. Trata-se da primeira morte confirmada por Riad desde que os ataques houthis voltaram a se intensificar, na semana passada.
As autoridades sauditas já haviam registrado mais de 80 feridos em episódios anteriores. Os houthis, por sua vez, afirmam que centenas de ataques aéreos foram realizados pela Força Aérea da Arábia Saudita nos últimos dias. Na quarta-feira (16), o grupo declarou ter abatido um caça saudita F-15.
Em pronunciamento televisionado, o líder houthi Abdul Malik al-Houthi apresentou como condição para o fim das hostilidades a suspensão das operações militares e das restrições impostas ao território iemenita.
“Queremos que os sauditas encerrem o bloqueio e a ocupação de nosso país e parem sua agressão contra nós. Esta é a nossa exigência!”, afirmou.
Mais de 100 mil pessoas deixam suas casas
A Organização Internacional para as Migrações (OIM) calcula que mais de 100 mil iemenitas tenham sido obrigados a abandonar suas casas desde o início da atual ofensiva. A maior parte permanece deslocada dentro do próprio Iêmen, mas alguns civis passaram a atravessar o estreito de Bab el-Mandeb em direção ao Djibuti, na costa africana.
A passagem, cujo nome em árabe significa “Portão das Lágrimas”, liga o Mar Vermelho ao golfo de Áden e representa um dos pontos marítimos mais sensíveis para o comércio internacional.
Entre os refugiados está Wahida Omer, de 50 anos. Ela deixou a aldeia de Dhubab quando os houthis avançaram sobre a região e chegou ao Djibuti após atravessar o estreito em uma pequena embarcação. Seu marido permaneceu para trás, sem que ela soubesse se ele havia morrido, sobrevivido ou sido capturado.
“O mar estava assustador, difícil”, relatou Wahida em entrevista gravada pela OIM.
Segundo ela, os passageiros estavam “chorando durante todo o caminho, e chegamos ainda chorando”, sem alimentos para a travessia.
O avanço dos houthis permitiu ao grupo assumir o controle de toda a costa iemenita do Mar Vermelho desde a semana passada. A mudança no campo de batalha aumenta a pressão sobre Bab el-Mandeb, rota que ganhou importância adicional diante das restrições à navegação no Estreito de Ormuz.
Incêndio atinge petroleiro no Estreito de Ormuz
A Marinha da Guarda Revolucionária do Irã informou que um petroleiro com bandeira do Togo pegou fogo após ser atingido ao tentar realizar o que Teerã classificou como uma “passagem ilegal” pelo Estreito de Ormuz. A embarcação teria interrompido sua viagem depois do incêndio.
Antes da guerra, aproximadamente um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados mundialmente passava pelo estreito, localizado entre o Irã e a península Arábica.
O governo iraniano afirma que Ormuz está fechado e permanecerá nessa condição até que os Estados Unidos suspendam o bloqueio aos portos do país. Teerã também busca um acordo com os demais Estados do Golfo que permita a cobrança de tarifas sobre embarcações que utilizem a passagem.
A Marinha dos Estados Unidos tenta conduzir navios pelo estreito, ao mesmo tempo que mantém o bloqueio aos portos iranianos. Com Ormuz sob restrições, a expansão dos combates para o Iêmen e a Arábia Saudita coloca em risco também a principal alternativa pelo Mar Vermelho para o escoamento das exportações energéticas do Golfo.
Os preços internacionais do petróleo recuaram ligeiramente nesta quinta-feira, mas continuaram acima de US$ 100 por barril, depois de atingirem os maiores níveis desde maio. Nos Estados Unidos, o preço médio do diesel no varejo alcançou um recorde, pouco abaixo de US$ 6,40 por galão.
Trump avalia novos ataques ao Irã
Em meio ao agravamento da crise, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou estar próximo de tomar uma decisão sobre a eventual retomada de ataques de grande escala contra o Irã.
“Tenho uma grande decisão pela frente. Quero entrar e aniquilá-los ou não? É uma grande decisão. Qualquer coisa pode acontecer comigo”, disse Trump em entrevista ao site Axios.
O presidente norte-americano já fez ameaças semelhantes anteriormente sem concretizá-las. Desta vez, a declaração ocorre em um cenário de alta dos preços da energia e de preocupação entre republicanos com possíveis perdas nas eleições legislativas de novembro.
Os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em fevereiro. Desde então, o aumento dos combustíveis tornou-se um problema político para o governo Trump. Washington e Teerã não mantêm negociações para encerrar a guerra desde que um acordo provisório alcançado em junho fracassou poucas semanas depois.
Trump também rejeitou os pedidos da Arábia Saudita por apoio militar norte-americano contra os houthis. O grupo havia acertado um cessar-fogo com os Estados Unidos no ano passado, após dois meses de bombardeios realizados por Washington.
Apesar da ausência de diálogo direto, a guerra deverá ser discutida durante a Assembleia Geral das Nações Unidas na próxima semana. O Departamento de Estado norte-americano informou que uma delegação iraniana poderá participar das reuniões em Nova York.
Fonte: Brasil 247