Por Murillo Ferreira PintoCarta Capital

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Irmã de Vorcaro está livre para movimentar milhões entre empresas ligadas aos seus familiares presos

Enquanto Daniel Vorcaro, seu pai, Henrique, e o cunhado Fabiano Zettel seguem presos em meio às investigações do escândalo do Banco ­Master, Natália Vorcaro, irmã, filha e esposa dos citados, continua podendo movimentar milhões entre empresas ligadas ao grupo. Advogada formada, Natália tem em seu nome 58 CNPJs, quase todos ativos e funcionando livremente, mesmo que seus sócios em parte destes empreendimentos sigam presos.

De acordo com dados da Receita Federal, as empresas que são de propriedade de Natália, ou nas quais ela configura como sócia, têm, somados, mais de 760 milhões de reais em capital social. Embora esse valor não seja revelador da quantidade de dinheiro disponível para movimentação, o montante indica que, mesmo com parte da família presa, ainda existe o suficiente para que os negócios não fiquem parados, sejam eles lícitos ou não.

No dia 17 de agosto deste ano, ­logo após a prisão do patriarca Henrique ­Vorcaro, veio à tona a informação de que ele era um dos intermediários do filho para continuar pagando 400 mil ­reais mensais a um grupo formado por policiais, milicianos e bicheiros recrutados para obter informações sigilosas, realizar monitoramento de investigações e intimidar desafetos do grupo. A pergunta que ficava na ocasião era como o grupo, mesmo sob intensa fiscalização da PF, seguia pagando esses valores. A resposta pode estar no fato de que Henrique está associado a 54 empresas, que somam quase meio bilhão de reais em capital social.

A Multipar Empreendimentos, que Henrique Vorcaro preside e tem Natália como única sócia, informou para a Receita Federal que seu capital social é de 270 milhões. A empresa segue ativa, sem qualquer tipo de sanção. Em sua ficha junto ao órgão a empresa afirma funcionar no sétimo andar de um luxuoso prédio em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte. Mas os seguranças do prédio, que ocupa o número 132 da Alameda Oscar Niemeyer, afirmam que não existe nada funcionando no local. Pai e filha também são sócios na Eukaryota Participações, que supostamente gerencia o aluguel de imóveis próprios.

No endereço, que fica na mesma alameda de Nova Lima, a atendente informa que no andar indicado não funciona nada. Na portaria, um documento da administração do prédio lista 54 empresas que já ocuparam o sexto e o sétimo andar, todas elas ligadas à família Vorcaro, que não está mais no local. “Solicitamos que qualquer notificação, documentos ou encomendas sejam direcionadas exclusivamente para o endereço informado acima”, informa o impresso. O endereço, no caso, é justamente o número 132, onde as salas não são usadas.

Imagem: Redes Sociais

Outros CNPJs da família seguem um padrão interessante, se concentram em locais repetidos, onde não há nada funcionando. Tendo participação em 20 empresas, Fabiano Zettel agrupa dez delas em um espaço de quatro salas no terceiro andar de uma torre comercial na Avenida Raja Gabaglia, em Belo Horizonte. No local, nenhuma placa, e os vizinhos dizem que quase não existe movimentação no local. Outro endereço comercial deixado pela família é o prédio Amadeus Business Tower, na Savassi, ponto nobre da capital mineira. Anos depois de ter migrado ­suas empresas para outras paragens, o local segue recebendo oficiais de Justiça, notificações e correspondências dos antigos locatários do 15º andar.

O clã também cria CNPJs usando endereços onde já não estão mais, como, por exemplo, a Vale do Ouro Participações, criada em abril de 2024 com endereço do Amadeus Business, espaço deixado um ano antes pelo grupo. A profusão de empreendimentos e, principalmente, a falta de sanções para as entidades envolvidas motivaram os deputados petistas ­Maurici e Kiko Celeguim, federal e estadual por São Paulo, respectivamente, a enviar uma representação para o Ministério Público Federal. O objetivo é que sejam apurados os indícios de ocultação de patrimônio, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e fraude a credores de Natália ­Vorcaro, Fabiano Zettel e Henrique Vorcaro.

De acordo com os parlamentares, existem fortes e fartamente documentados indícios de autoria e ­materialidade de possíveis crimes de ocultação de patrimônio, lavagem de dinheiro e fraude a credores. Segundo os petistas, a pulverização societária em dezenas de empresas indica um possível esquema de blindagem. Os dados apresentados também mostram que, além dessa pulverização, também são encontradas sociedades cruzadas tendo os mesmos proprietários, uma manobra que é recorrente entre quem deseja driblar sanções, ao interpor diversas pessoas jurídicas, dificultando cobranças e rastreamentos financeiros.

Segundo o documento apresentado pelos deputados, a Ephesus Empreendimentos e Participações foi registrada como Sociedade Simples, o que a deixa dentro de uma zona de sombra da fiscalização. A empresa acumula capital social de pouco mais de 2 milhões de reais, mas integra outras 14 sociedades que acumulam 23 milhões em capital social. Além de Natália, são sócios da Ephesus a já citada ­Multipar e a Sozo Participações, de propriedade de Henrique Vorcaro. Segundo a representação, em abril de 2024 o grupo acelerou a fragmentação patrimonial com a criação de sete novas holdings “limpas”, com o objetivo de neutralizar os 26 prontuários de Protesto de Alienação de Bens expedidos pela 3ª Vara de Falências de São Paulo.

Deputados petistas pedem apuração de ocultação de patrimônio, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e fraude a credores

Para Maurici, a intenção da representação é chamar a atenção do Ministério Público dos graves indícios de fraude dos envolvidos. “O que temos é que perto de 640 milhões que circulam dentro do grupo estão livres para que a estrutura empresarial continue a realizar ocultação patrimonial, sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e fraude nas execuções judiciais”, destacou. Para o parlamentar, é fundamental que ações sejam tomadas o quanto antes, para impedir que o grupo siga buscando formas de driblar a Justiça.

Outro ponto identificado pelos ­deputados foi a subcapitalização estrutural, manobra em que um CNPJ é drenado para impedir a execução financeira. A Alliance Participações, de Henrique e Natália, atualmente tem capital declarado de 800 reais, enquanto transitam execuções de 7 milhões. Enquanto o bloqueio das empresas não chega, novas movimentações são feitas a todo instante. Em fevereiro deste ano, um mês antes de ser preso, Zettel criou a SL 18 Participação, desta vez com um endereço residencial nunca usado. Em 19 de abril de 2024, cinco empresas foram criadas, todas elas com Natália e a Ephesus como únicos sócios.

As advogadas de Zettel não responderam aos contatos realizados e os advogados de Henrique Vorcaro não souberam dizer qual seria o escritório responsável pelo tema. Não conseguimos falar com Natália Vorcaro ou seus representantes. A reportagem solicitou para a Polícia Federal, Ministério Público Federal e o Supremo Tribunal Federal explicações sobre o motivo de apenas parte das empresas da família Vorcaro estar com bloqueio ou recuperação judicial. A PF respondeu que não comenta investigações em andamento nem realiza avaliações sobre situações específicas de pessoas físicas ou jurídicas. O MPF não respondeu e o STF sugeriu que o jornalista “procure um especialista e que acompanhe os processos que tramitam no STF sobre o caso em questão”, uma resposta exemplar.

Enquanto as instituições não respondem e pouco agem, o risco é encontrar apenas centavos onde antes havia milhões e a fortuna do clã Vorcaro parar na conta de uma série de laranjas. •

Publicado na edição n° 1431 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Negócios à parte’


Felipe Castanheira

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Fonte: Carta Capital

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