A ingerência dos Estados Unidos no Brasil é escancarada e hoje o Brasil é principal contrapeso de Trump na região

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Por Marcia CarmoBrasil 247

A poucos dias do primeiro turno da eleição presidencial brasileira, as atenções da América Latina estão voltadas para o destino do Brasil. “O Brasil é hoje o contrapeso contra a hegemonia buscada pelo presidente Trump na região”, disse o cientista político Juan Olmeda, professor do Colégio do México e integrante do Conversatório Latino-americano (Conlat). Em entrevista ao Brasil 247, falando do México, ele ressaltou que esta é uma eleição importante para o Brasil, mas também para toda a região. “E diria que é uma das mais importantes dos últimos tempos”, disse Olmeda.

‘Soberania x subordinação’

Para ele, com o presidente Lula o Brasil mantém sua soberania e, no caso de uma eventual eleição do senador Flávio Bolsonaro, a “subordinação” seria a base do vínculo com os Estados Unidos, envolvendo a possível inclusão do nosso país no chamado Escudo das Américas. O Escudo das Américas reúne os governos da América Latina e Caribe sintonizados com a administração Trump e seu principal foco é a segurança, incluindo as forças militares. No encontro em março deste ano para o lançamento do Escudo, os poucos ausentes foram o Brasil, o México e a Colômbia que era liderada por Gustavo Petro, mas que deu uma guinada à extrema-direita com a chegada de Abelardo de la Espriella à Presidência do país, no mês de agosto deste ano.

Lula, ‘democracia e soberania’

Doutor em Ciência Política, Olmeda é um estudioso das democracias na América Latina e com seus colegas do Conlat, que reúne acadêmicos prestigiados do Brasil, da Argentina, da Colômbia e do México, analisam, atualmente, o tópico “Democracia e soberania”.

Para ele, as recentes interferências de Trump no processo eleitoral brasileiro e a postura de Lula diante desta atitude do norte-americano acabaram beneficiando (a popularidade) do presidente do Brasil. “Nas últimas vezes que Trump buscou ingerências no Brasil, com aumento de tarifas, Lula acabou beneficiado (com aumento de popularidade)”, observou.

“Ingerências e ameaças”

Além das ingerências, Trump faz ameaças contra os países, na busca de impor sua visão, disse Olmeda durante a entrevista ao Brasil 247, nesta quarta-feira. “É interferência em um país soberano.”, disse. A entrevista foi realizada pouco depois de o governo Trump declarar que o “Brasil falhou em confrontar as organizações terroristas” Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) e ainda atacar o governo do presidente Lula, argumentando que a atuação destas facções criminosas supostamente transformou o país em um “centro de distribuição global de cocaína.”

“EUA, democracia e Venezuela”

Olmeda entende que os Estados Unidos “deixaram de ser referência de democracia”, nestes tempos de Trump. Neste conjunto que envolve a saúde das democracias, as interferências de Trump e a soberania dos países, ele recorda dois exemplos recentes, inesperados e que fogem dos trilhos das relações tradicionais entre os países. Um deles foi a decisão dos Estados Unidos, recordou, de indultar o ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, que cumpria pena de 45 anos nos EUA por tráfico de drogas e que foi liberado por ser aliado do então candidato da direita Nasry Asfura. Asfura foi eleito presidente hondurenho com apoio explícito de Trump. O presidente dos Estados Unidos também se envolveu na campanha presidencial na Colômbia, apoiando De la Espriella, da extrema-direita, e ainda socorreu o governo Milei com um salva-vidas financeiro de US$ 20 bilhões às vésperas das eleições legislativas do ano passado. Milei acabou ampliando a presença do seu partido no Congresso Nacional. Para o analista mexicano, o mais inesperado ainda foi como o governo Trump excluiu Nicolas Maduro da presidência da Venezuela e como a relação seguiu, depois, com Delcy Rodríguez (e o interesse dos EUA no petróleo venezuelano).

“Redes sociais levam a repensar a soberania”

Com a recente prisão do empresário e marqueteiro político da extrema-direita Fernando Cerimedo, foi intensificado o debate sobre a soberania. Cerimedo foi acusado, no mês passado, de tentativa de homicídio na Bolívia e o fato contribuiu para revelar uma série de denúncias em vários países do uso do discurso de ódio e notícias falsas, com fazendas de bots, que atrapalharam a natureza democrática. Na atualidade, com as redes sociais, o poderio de empresas que têm mais recursos até do que as reservas de bancos centrais de nações, as interferências nos processos eleitorais (e além dele) ficaram escancaradas. “Devemos repensar e ampliar o conceito de soberania. Estamos também diante de atores não estatais que influenciam o debate, os rumos. Há muito a ser debatido”, disse o estudioso mexicano. E tudo isso ocorre quando levantamentos sérios, notou, registram que a democracia, que tanto demorou a ser conquistada e reconquistada em nossos países, tem sido desvalorizada por setores das populações da América Latina. “Estão os que pensam que se sua vida vai bem, a democracia não é o principal. Mas não que defendam golpes ou o retorno militar’, disse. Ou seja, os desafios são permanentes e gigantes. E é preciso estar atento.

Fonte: Brasil 247

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