China e seus US$ 7 trilhões em finanças verdes: quando o crédito vira política industrial

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Por Paulo GalaBrasil 247

Enquanto boa parte do Ocidente ainda debate se “ESG” é tendência ou modismo, a China construiu, em silêncio e com método, o maior mercado de finanças verdes do mundo. Os números impressionam. Hoje o país acumula cerca de RMB 48 trilhões (US$ 7 trilhões) em empréstimos verdes, além de um dos maiores mercados de títulos verdes do planeta, com uns RMB 2,3 trilhões em circulação, e mais de mil fundos de investimento verdes.

A velocidade chama atenção. Segundo Ma Jun, ex-assessor do banco central chinês, o estoque de financiamento verde, somando títulos, empréstimos e ações, saiu de aproximadamente US$ 1 trilhão em 2015 para a casa dos US$ 7 trilhões. Em uma década, o mercado multiplicou-se por sete.

Não é mercado espontâneo, é arquitetura de Estado

O ponto central é que esse mercado não nasceu da “mão invisível”. Ele foi desenhado. Ma Jun descreve um ecossistema de quatro pilares: taxonomia, divulgação de informações, produtos financeiros e incentivos de política pública. A primeira taxonomia verde oficial veio em 2015, justamente para evitar o greenwashing e dar aos investidores um padrão reconhecido.

Esse arcabouço segue sendo refinado. O catálogo de 2025 unificou os critérios de títulos verdes e as regras estatísticas de empréstimos verdes do Banco Popular da China e do regulador financeiro, dando um passo decisivo para integrar trilhos que antes corriam em paralelo.

Os bancos são o motor. No fim do terceiro trimestre de 2025, o saldo de empréstimos verdes chegou a RMB 43,5 trilhões (US$ 6,2 trilhões), alta de 17,5% desde o início do ano, crescendo mais rápido que o restante do crédito. A participação desses empréstimos no total da carteira bancária já passa de 16%. Uma ressalva metodológica importante: os dados de 2025 não são diretamente comparáveis aos anteriores, porque os critérios de elegibilidade foram revistos no começo do ano.

Os títulos oscilam mais, mas voltaram a acelerar. Em 2025, a emissão saltou 56,5% sobre 2024, para RMB 1,09 trilhão, embora ainda abaixo do pico de 2022.

A lição de complexidade econômica

Para quem acompanha o debate de complexidade econômica, a história é familiar. A China não está apenas “financiando o clima”. Está usando o sistema financeiro para direcionar capital a setores de alta sofisticação produtiva: baterias, veículos elétricos, solar, eólica, redes de transmissão, hidrogênio. São exatamente os segmentos em que o país se tornou líder global de exportações.

Isso é política industrial clássica, na tradição de Hamilton, List e dos Estados desenvolvimentistas do Leste Asiático, agora vestida de verde. O crédito dirigido, que no Brasil costuma ser tratado como distorção, na China é instrumento de construção de capacidades. Os bancos, em grande parte estatais, funcionam como braço de uma estratégia que combina metas de descarbonização com ganho de posição nas cadeias globais de valor.

E o Brasil?

O Brasil tem vantagens que poucos países têm: matriz elétrica limpa, potencial em hidrogênio verde, minerais críticos, biocombustíveis e bioeconomia. Tem também uma taxonomia sustentável em construção e bancos públicos com experiência em crédito de longo prazo.

O que falta é coordenação. O exemplo chinês mostra que taxonomia, regulação, incentivos e bancos precisam andar juntos, e a serviço de uma estratégia produtiva clara. Sem isso, corremos o risco de repetir a velha história: exportar a matéria-prima da transição energética e importar os produtos sofisticados feitos com ela.

A transição verde é, antes de tudo, uma disputa por complexidade econômica. A China entendeu isso há dez anos.

Fonte: Brasil 247

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