Avaliação inédita da Bacia Amazônica confirma biodiversidade rica e alerta que a janela de conservação está se fechando
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O relatório Peixes Esquecidos, liderado pela The Nature Conservancy, confirma a Bacia Amazônica como a bacia hidrográfica com a maior biodiversidade do planeta e evidencia o papel fundamental que as os peixes de água doce desempenham na conservação, na produtividade econômica e na identidade cultural da região.
Diferentemente de estudos anteriores, voltados sobretudo à biodiversidade, esta edição reúne as vozes de povos indígenas e comunidades locais para explorar sua relação com os peixes de água doce, destacando o papel insubstituível desses grupos como guardiões da conservação do futuro do rio.
O relatório revela que a Amazônia abriga mais de 2.700 espécies de peixes registradas, consolidando sua posição como o sistema de água doce mais biodiverso do planeta. O documento conclui que a Amazônia segue sendo um dos últimos ecossistemas de água doce de relevância global onde ainda é possível evitar a perda de biodiversidade em larga escala. Esse é a quarta edição da série Peixes Esquecido, que reúne contribuições de mais de 50 colaboradores de 30 organizações, também é a primeira a combinar evidências científicas e conhecimento ecológico tradicional.
Publicado em meio à previsão de um evento de “Super El Niño” que ameaça causar impactos de longo prazo na bacia, o relatório chega em um momento em que os autores classificam como decisivo: a janela de oportunidade para conservar um dos maiores e últimos ecossistemas de água doce do mundo, ainda em pleno funcionamento, está se fechando rapidamente.
Ameaças múltiplas, oportunidade urgente
Entre os riscos identificados no relatório estão o desenvolvimento hidrelétrico, o desmatamento, a poluição, a pesca excessiva e as mudanças climáticas — fatores que, combinados, interrompem a conectividade dos rios, fragmentam habitats, alteram os padrões naturais de fluxo e degradam a qualidade da água. Segundo os autores, embora exista uma janela real de oportunidade caso as ações de conservação sejam rapidamente intensificadas, a ausência de uma atuação coordenada em toda a bacia pode levar a Amazônia ao mesmo caminho de degradação já observado em outros grandes sistemas fluviais do mundo.
“Em todo o mundo, os esforços de conservação estão cada vez mais voltados à restauração dos ecossistemas depois que os danos já ocorreram. Ao contrário da narrativa predominante na mídia, nosso estudo confirma que a Amazônia oferece uma oportunidade diferente: proteger um sistema de água doce de importância global enquanto ele ainda está em pleno funcionamento”, afirma Fernanda Silva, principal autora do relatório e cientista de conservação da pesca de água doce na Amazônia da TNC.
A cientista destaca ainda o papel das iniciativas territoriais já em curso. “Nosso relatório também mostra como iniciativas centradas na gestão indígena, em áreas protegidas e na colaboração em toda a bacia já estão gerando resultados que, embora ainda precisem ser fortalecidos e ampliados, representam um modelo para o futuro da conservação da água doce não apenas na Amazônia, mas em todo o mundo.”
Silva explica por que agir agora é mais eficaz — e mais barato — do que restaurar depois: “Muitos rios amazônicos ainda mantêm seus ciclos naturais de cheias e secas e a conectividade que permite a migração de peixes, o transporte de nutrientes e a dinâmica entre rios, florestas e áreas úmidas. Por isso, conservar esses processos é não apenas mais eficaz, mas também muito menos custoso do que tentar recuperá-los depois de perdidos.”
“Além de proteger áreas específicas, precisamos manter a conectividade da bacia como um todo, fortalecer iniciativas de conservação lideradas por comunidades locais e povos indígenas e promover a cooperação entre os países amazônicos, já que o que acontece em uma parte da bacia afeta o sistema inteiro.” diz Silva.
A boa notícia é que ainda temos uma janela de oportunidade para conservar essa extraordinária biodiversidade; a má notícia é que ela está se fechando rapidamente diante do avanço do desmatamento, das barragens, da mineração, da introdução de espécies invasoras e das mudanças climáticas
Peixes como base da segurança alimentar e da economia
A pesquisadora também detalha a dimensão do impacto socioeconômico da biodiversidade de peixes na região: “A extraordinária diversidade de peixes da Amazônia sustenta muito mais do que os ecossistemas aquáticos. Ela é fundamental para a segurança alimentar, a economia, a cultura e o modo de vida de milhões de pessoas.” Segundo Lima, “em muitas regiões, os peixes fornecem até 75% da proteína animal consumida e diferentes espécies contribuem com diferentes nutrientes, tornando a biodiversidade essencial para dietas saudáveis e resilientes.”
A cientista acrescenta que os peixes cumprem funções ecológicas que vão além da alimentação, com funções ecológicas como dispersão de sementes, ciclagem de nutrientes e a conexão entre rios e florestas alagadas. Além de fazerem “parte da identidade cultural, dos conhecimentos tradicionais e das práticas de povos indígenas e comunidades locais em toda a bacia amazônica.” Por fim, destaca um dado ambiental relevante: “as pescarias continentais representam uma das fontes de proteína animal com menor emissão de carbono do mundo.”
Ciência e conhecimento tradicional lado a lado
O relatório reuniu mais de 50 especialistas de diversos países amazônicos, incluindo cientistas, gestores, especialistas em pesca e representantes de povos indígenas e comunidades locais. O objetivo, segundo a cientista Fernanda Lima, é que os saberes não forrem hierarquizados, ao invés de tratar o conhecimento tradicional como mero complemento da ciência, foi criado um diálogo entre os mundos. “O conhecimento tradicional e o manejo liderado por comunidades indígenas e locais têm se mostrado algumas das estratégias mais eficazes para conservar a biodiversidade, sustentar os meios de vida e aumentar a resiliência dos ecossistemas amazônicos diante das crescentes pressões ambientais.”
As práticas indígenas de governança protegem os rios mais preservados e biodiversos da bacia, mantendo a conectividade fluvial diante de pressões cada vez maiores — uma liderança que, somada aos paradigmas de conservação de base ocidental, reforça uma premissa central do estudo: apoiar os direitos dos povos indígenas e das comunidades tradicionais é fundamental para conservar a biodiversidade e garantir comunidades prósperas para as próximas gerações, na Amazônia e no mundo.
Fany Kuiru Castro, coordenadora-geral da Coordenadora das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA) e autora do relatório, reforça essa centralidade. “Para os povos indígenas, os peixes não são simplesmente um recurso. Eles fazem parte da nossa identidade, dos nossos sistemas alimentares, das nossas histórias e da nossa relação com os rios vivos.” E defende: “Qualquer estratégia para conservar a Amazônia deve reconhecer os direitos territoriais indígenas, respeitar os conhecimentos ancestrais e fortalecer a liderança indígena na proteção das águas que conectam toda a bacia.”
Essa dimensão do conhecimento tradicional é confirmada na prática por Manoel Pinheiro, coordenador do Movimento dos Pescadores e Pescadoras da Bacia Amazônica (Mopebam). Para ele, a relação entre pescador, pesca e peixe é “marcada por uma profunda afinidade”.
“Nas comunidades ribeirinhas e de várzea da Amazônia, o peixe constitui a principal fonte de alimentação básica e a base da renda das famílias.” Segundo ele, trata-se de “uma prática de grande valor cultural e patrimonial, transmitida continuamente de geração em geração.”
Segundo Pinheiro, “o planejamento das atividades pesqueiras depende da observação dos ciclos naturais, como as fases da lua, que determinam a passagem dos peixes e as épocas de safra.” Esse saber, explica, “abrange também a navegação noturna guiada pelas estrelas, a identificação do momento oportuno para o lançamento de redes e a seleção dos apetrechos adequados para cada espécie de peixe” — uma sabedoria prática que “permanece viva ao ser repassada entre as gerações nas comunidades.”
O alerta do “Super El Niño”
Questionada sobre os riscos do fenômeno climático anunciado para os próximos períodos, Fernanda explica que ele funciona como um catalisador de ameaças já existentes. “O ‘Super El Niño’ intensifica os impactos das mudanças climáticas sobre os rios amazônicos e agrava ameaças que já colocam a biodiversidade de peixes sob forte pressão. Períodos de seca extrema reduzem o volume de água dos rios, isolam habitats, dificultam as migrações e aumentam a mortalidade de peixes, especialmente das espécies migradoras que dependem da conectividade entre diferentes ambientes ao longo da bacia.”
Os números citados por ela dão a dimensão do problema: “mais de 8 milhões de hectares de áreas úmidas foram perdidos, o desmatamento altera os regimes de chuva e intensifica as secas, e alguns grandes rios podem perder até 40% de sua vazão.” Há ainda um risco adicional ligado à mineração ilegal: “temperaturas mais altas podem aumentar a toxicidade e a absorção do mercúrio proveniente do garimpo, ampliando os riscos para os peixes e para as populações que dependem deles.” Sua conclusão é enfática: “O Super El Niño funciona como um amplificador de todas essas pressões, tornando a conservação dos rios e da biodiversidade amazônica ainda mais urgente.”
Por que “Peixes Esquecidos”?
“O nome ‘Peixes Esquecidos’ não significa que esses peixes tenham sido esquecidos pelos povos da Amazônia. Pelo contrário. Para os povos indígenas, comunidades ribeirinhas e pescadores que convivem com esses rios há gerações, os peixes fazem parte da cultura, da alimentação, da economia e da própria identidade dos territórios.” O esquecimento, explica Lima, está em outro lugar. “O que tem acontecido é que os peixes e os ecossistemas de água doce foram frequentemente deixados de lado nas políticas públicas, nos investimentos e nas prioridades globais de conservação.”
E alerta para as consequências dessa omissão. “Há um custo para esse esquecimento: a biodiversidade de água doce está diminuindo mais rapidamente do que a de qualquer outro ecossistema, e populações de grandes peixes e peixes migradores de água doce já sofreram declínios dramáticos em todo o mundo.” Por isso, resume, o relatório “foi criado justamente para tornar lembrada e visível essa riqueza extraordinária, destacar sua importância para as pessoas e para a natureza e chamar atenção para a urgência de conservar os rios e seus peixes antes que seja tarde demais.”
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Fonte: umsoplaneta