PT lança novo conteúdo para dialogar com eleitorado evangélico

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Por Otávio RossoBrasil 247

247 – A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) preparou uma nova ofensiva voltada ao eleitorado evangélico, um dos segmentos em que o petista enfrenta maior resistência desde 2018. A estratégia inclui panfletos, filipetas e adesivos com linguagem religiosa, referências bíblicas e defesa do voto “livre, consciente, responsável e secreto”.

Segundo a Folha de São Paulo, uma das peças elaboradas pela campanha começa com a pergunta “Por que votamos em Lula?” e busca apresentar, a partir da perspectiva de evangélicos que apoiam o presidente, argumentos para justificar a escolha eleitoral. O material foi produzido por um núcleo ligado ao time lulista e deve circular nos próximos dias nos comitês eleitorais da campanha.

A iniciativa ocorre em meio à dificuldade do PT de ampliar sua presença entre evangélicos. De acordo com a reportagem, o partido tem mantido, nas pesquisas, apoio próximo de três em cada dez eleitores desse segmento, enquanto adversários bolsonaristas consolidaram vantagem expressiva no grupo nos últimos ciclos eleitorais.

O objetivo do material é enfrentar a rejeição ao PT nos templos e, ao mesmo tempo, tentar dar respaldo público a fiéis que já declaram apoio a Lula. Uma das mensagens afirma que o voto não deve ser definido “por imposição de outros, seja pastor, liderança ou conhecido”. Em outro trecho, a peça diz: “Na hora de digitar na urna eletrônica, somente você e Deus sabem sua escolha”.

Os panfletos também recorrem a passagens bíblicas para relacionar a decisão eleitoral a temas como justiça social, solidariedade e políticas públicas. Uma das peças cita Provérbios 29:2 — “quando os justos governam, o povo se alegra” — e João 13:34 — “amem uns aos outros” — para defender a eleição como um exercício de responsabilidade e amor ao próximo.

Outro conteúdo, intitulado “Como será o futuro do nosso país?”, tenta aproximar versículos bíblicos de bandeiras defendidas pelo governo Lula. A peça usa, por exemplo, Timóteo 5:18 — “o trabalhador é digno do seu salário” — para fazer referência à valorização salarial e ao fim da escala 6×1.

O material aposta em uma linguagem visual de contraste. Em uma das imagens, uma estrada se divide em dois caminhos. À esquerda, aparecem flores, uma família, um posto do SUS e um cenário ensolarado. À direita, há tempestade, uma placa com a palavra “vacinação” riscada, referência à “fila do osso” e uma multidão sem assistência.

Para Luís Sabanay, reverendo presbiteriano e coordenador do Núcleo de Evangélicos do PT, a campanha de 2022 deixou lições para a disputa atual. Naquele ano, segundo ele, a mensagem dirigida aos evangélicos era “você não está sozinho”, voltada ao eleitor que apoiava Lula, mas sofria pressão em ambientes religiosos.

“Agora, ele dá visibilidade a esses apoiadores e apresenta as razões que orientam sua escolha, estimulando o diálogo entre os próprios evangélicos”, afirmou Sabanay à Folha.

O coordenador do núcleo petista afirma que a estratégia também passa por um diálogo permanente com mais de 60 candidaturas evangélicas do PT, além de nomes de partidos aliados. Entre os quadros mais conhecidos está a deputada Benedita da Silva, que tenta chegar ao Senado. Seu suplente é o cantor gospel Kléber Lucas, que participou do ato de lançamento da chapa Lula-Geraldo Alckmin.

A meta da campanha é imprimir pelo menos 10 milhões de cópias dos materiais, somando os seis formatos previstos: um folder, duas filipetas e três adesivos.

A movimentação marca mais uma tentativa do PT de se reconectar com um segmento que já teve peso importante nas vitórias de Lula. Segundo dados agregados pelo Estudo Eleitoral Brasileiro, da Unicamp, evangélicos deram ao petista 63% dos votos no segundo turno de 2002 e 65% em 2006. Nos últimos anos, porém, a relação se deteriorou, especialmente com o avanço do bolsonarismo nas igrejas.

O partido já havia lançado iniciativas semelhantes em outros momentos. Em 2002, a campanha produziu a chamada Carta aos Evangélicos, uma espécie de versão religiosa da Carta ao Povo Brasileiro. Em 2022, a equipe lulista divulgou material sob o mote “é tempo de esperança, o Brasil tem jeito — o que os evangélicos realmente querem para o Brasil”.

Apesar da nova ofensiva, especialistas veem limites na estratégia. O sociólogo Alexandre Landim, doutor pela Universidade Federal do Ceará e autor de “O Deus das Urnas: Evangélicos e Católicos em Eleições Presidenciais no Brasil”, avalia que a resistência evangélica ao PT não surgiu recentemente e vem sendo construída desde a eleição presidencial de 1989.

Para Landim, ações concentradas na reta final da campanha podem soar artificiais se não vierem acompanhadas de presença contínua nas comunidades religiosas. “O que falta ao partido é oferecer um espaço que as igrejas evangélicas têm oferecido. Um trabalho de base, de participação, nas comunidades”, afirmou.

O pesquisador também aponta a teologia da prosperidade, presente em muitos templos, como um desafio adicional para o PT. Segundo ele, parte do eleitorado evangélico tende a associar melhoria de vida ao esforço individual, e não necessariamente a políticas públicas. “O sucesso cai na lógica do esforço individual”, disse.

Landim afirma ainda que panfletos lançados muito perto da eleição podem produzir efeito contrário ao desejado. “Pode ter um efeito contrário, inclusive, de afastar o eleitor religioso”, declarou. Como exemplo, ele citou a campanha de José Serra (PSDB) em 2010, quando o tucano tentou reforçar uma imagem religiosa, mas acabou desgastado por controvérsias durante a disputa.

A aposta do PT, agora, é tentar deslocar o debate da pauta de costumes para temas concretos do cotidiano, como salário, saúde pública, alimentação, família e trabalho. A campanha avalia que, embora a identidade religiosa pese contra Lula em parte do eleitorado evangélico, há no segmento um perfil social — majoritariamente feminino, negro e de baixa renda — que historicamente tende a se aproximar das agendas defendidas pelo petista.

Fonte: Brasil 247

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