Super quarta: Brasil deve cortar juros enquanto o Fed se prepara para subir
Por Paulo Gala — Brasil 247
Esta quarta-feira reúne as decisões de juros do Banco Central do Brasil e do Federal Reserve, e a expectativa é de movimentos em direções opostas. No Brasil, o Copom deve cortar a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75%. Nos Estados Unidos, o Fed deve finalmente elevar a taxa básica de 3,75% para 4%.
A economia americana tem dado sinais claros de aquecimento. As vendas no varejo divulgadas hoje vieram bem acima do esperado: alta de 1,2% contra projeção de 0,8%. Excluindo automóveis, o avanço foi de 1,4%, ante expectativa de 0,6%. O payroll de agosto mostrou a criação de mais de 150 mil vagas, e os dados de inflação também decepcionaram, tanto o índice de preços ao consumidor (CPI) quanto, sobretudo, o índice de preços ao produtor (PPI). Some-se a isso o petróleo de volta acima de US$ 100 o barril com a escalada do conflito no Oriente Médio e o discurso duro de Kevin Warsh em Jackson Hole, sinalizando que o Fed não hesitará em controlar a inflação. O mercado precifica praticamente 100% de chance de alta hoje e mais uma elevação até o fim do ano, o que levaria os juros americanos a 4,25%.
Por trás desse aquecimento estão dois motores. O primeiro é o boom de investimentos em inteligência artificial, com a construção de data centers respondendo por quase metade do crescimento do PIB americano. O segundo é uma política fiscal extremamente expansionista do governo Trump, com déficit superior a US$ 2 trilhões neste ano, impulsionado pelo aumento dos gastos militares e de defesa. Desde a pandemia, ainda no governo Biden, os Estados Unidos convivem com um impulso fiscal permanente, com déficits primários da ordem de 5% a 6% do PIB. O resultado foi uma dívida pública que chegou a US$ 40 trilhões e juros longos pressionados: o título de 10 anos acima de 5% e o de 30 anos acima de 5,30%. Nesse aspecto, os Estados Unidos se parecem um pouco com o Brasil: crescem com impulso fiscal, que pressiona a curva longa e acaba obrigando o banco central a apertar a política monetária.
No Brasil, o quadro é de desaceleração. O IBC-Br, indicador de atividade do Banco Central considerado uma prévia do PIB, mostrou contração em julho. As vendas no varejo caíram 0,8%, e a Pesquisa Mensal de Serviços ficou estagnada no mesmo mês, dado relevante porque os serviços representam cerca de 70% da economia e a PMS cobre aproximadamente metade dessas atividades. O PIB do segundo trimestre também veio fraco, entre 0,3% e 0,4%, com queda do consumo das famílias, e a produção industrial segue decepcionando. O boletim Focus ainda projeta crescimento de 2% para este ano, mas tudo aponta para uma perda de fôlego da atividade, ainda que o desemprego permaneça em 5,3%, o menor patamar em cerca de quatro décadas.
A inflação brasileira, por sua vez, teve um trimestre muito favorável. O IPCA ficou praticamente zerado em junho, registrou leve deflação em julho e recuou quase 0,4% em agosto, com a queda nos preços das passagens aéreas e o bônus de Itaipu, que reverteu parte do aumento da energia elétrica. Em doze meses, a inflação roda em 4,22%, abaixo inclusive do resultado fechado do ano passado. A expectativa do Focus para 2026 está em 4,90%, bem distante do pico recente. O petróleo mais caro é um fator de risco, mas o câmbio bem comportado, com o dólar entre R$ 5,10 e R$ 5,15, ajuda a conter as pressões.
Diante desse cenário, a Selic de 14% se mostra excessivamente alta. Pelas contas do próprio Banco Central, o juro real neutro está em torno de 5%. Mesmo considerando uma inflação de 5%, a taxa atual implica juro real próximo de 10%, o dobro do nível neutro. Há, portanto, amplo espaço para iniciar o ciclo de cortes, o que também traria alívio ao custo da dívida pública.
O retrato desta super quarta é o de duas economias em trajetórias divergentes: um Brasil que desacelera com inflação em queda e uma economia americana aquecida, impulsionada pelo gasto público e pela corrida da inteligência artificial, com a inflação voltando a incomodar.
Fonte: Brasil 247