ÁUDIO: Cantor gospel propõe usar ONG como ‘laranja’ para receber dinheiro de emenda de irmã de Edir Macedo
Por Eduardo Goulart — Intercept Brasil
O empresário e cantor gospel Samuel Modesto tentou usar uma ONG como “laranja” para receber verba pública, via emenda parlamentar, da deputada estadual Edna Macedo, do Republicanos de São Paulo, candidata à reeleição e irmã de Edir Macedo, líder da Igreja Universal. A proposta foi registrada em áudio gravado durante uma reunião em 23 de maio de 2026, e o Intercept Brasil obteve a gravação com exclusividade.
Na conversa, Modesto propõe que a entidade Jesus Cristo Por Um Mundo Melhor, a JCPM, da zona norte de São Paulo, aceite receber uma verba “muito alta mesmo”. Como ele é legalmente impedido de receber o recurso de forma direta, o esquema previa que a ONG embolsasse e repassasse uma parte do valor para a empresa de eventos gospel do cantor, a SGM.
A manobra tentava burlar a legislação paulista, que só autoriza a destinação de emendas para entidades privadas que sejam organizações da sociedade civil sem fins lucrativos – exatamente o perfil da JCPM. Atualmente, cada deputado estadual de São Paulo pode indicar até cerca de R$ 12 milhões em emendas. Na prática, é uma fatia do orçamento do estado que os parlamentares controlam e enviam para onde decidirem.
“Ela [Edna Macedo] vai me dar a verba e a gente vai distribuir essa verba dentro daquilo que a gente achar legal, onde a gente vai colocar. Pelo que entendi, pelo que eu conversei com o rapaz [assessor da Edna], a verba não é pequena. A verba é muito alta. É muito alta mesmo”, detalhou Modesto na reunião.
O empresário transita no meio gospel e na própria Igreja Universal. Ele já foi diretor do prêmio Troféu Talento, um concurso tradicional de músicos cristãos, e cantou no Gospel Day, evento da Universal patrocinado por emendas de deputados do Republicanos.
A justificativa para o repasse milionário seria uma dívida de gratidão. No áudio, o cantor afirma que ajudou um familiar da deputada e, por isso, seria retribuído com o dinheiro público. Ao revelar o nome de sua benfeitora pela primeira vez na reunião, Modesto se gaba: “É uma deputada muito grande, muito forte. (…) Ela é irmã do bispo Macedo. Só isso”.
O histórico mostra que esse fluxo de dinheiro não é novidade. Reportagem do Intercept publicada em agosto mostrou que Edna destinou R$ 2,2 milhões em emendas parlamentares para eventos da igreja do irmão. No total, desde 2023, parlamentares já enviaram pelo menos R$ 16,8 milhões para eventos da Universal. Os valores foram repassados por meio do Instituto Paulo Kobayashi, o IPK, entidade que realiza vários eventos da igreja.
Durante a reunião, os líderes da JCPM reagiram à proposta com cautela, alertando sobre o risco de envolvimento em corrupção e destacando que decidiriam coletivamente. Modesto tentou garantir que a contratação seria lícita, mas admitiu a possibilidade de ter que devolver parte do recurso para a deputada – a clássica prática de rachadinha.
“Eu não sei se tem repasse, não falaram nada disso para mim. ‘Olha, eu vou te dar 2 milhões, mas você tem que devolver 400 aqui’. Eu não sei se vai acontecer isso. Eu não sei de nada. Eu vou ter uma reunião com eles”, ponderou o cantor.
Amiga do Dark Horse
Para tentar provar que não tinha interesse em esquemas ilícitos, Modesto citou como mau exemplo uma antiga conhecida da Igreja Renascer, chamada Karina.
“Foi a minha amiga na Renascer, nunca mais a vi, sumiu e tal. Aí me liga um fotógrafo amigo (…) e falou: ‘Rapaz, você viu a Karina? Ela está ferrada’. Então, aconteceu que ela está envolvida até os dentes, ela foi pega agora com R$ 108 milhões. Acho que está ligada também ao Banco Master. Então, eu acho que tem coisa que não vale a pena. Aí a gente não vai dormir, a gente não dorme. A gente tem que ver: ‘olha, até essa página dá para andar, passou dessa página aí não dá mais’. Eu tenho nome na praça há muitos anos. Vou pegar meu nome e jogar na lama nessa altura do campeonato? Não dá.”
A mulher citada pelo cantor é Karina Ferreira da Gama, produtora do filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, e investigada pela Polícia Civil de São Paulo por suspeita de desvios em um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de Wi-Fi na capital.
A conexão de Karina com a gestão do prefeito Ricardo Nunes foi revelada em reportagem do Intercept em dezembro do ano passado.
Mais de R$ 2 milhões
Segundo Modesto, foi um assessor da deputada Edna Macedo que sugeriu a busca por uma ONG de confiança para receber os repasses de emenda. O cantor chegou à JCPM por intermédio de um amigo guitarrista, Edson Lopes Queiroz, então vice-presidente da organização.
Ao contrário dos demais líderes da JCPM, Queiroz defendia que a organização aceitasse a proposta. Cinco dias antes da reunião de Modesto com a cúpula da ONG, o guitarrista enviou um áudio à tesoureira da entidade pressionando pela aceitação do acordo.
“Essa verba passa de R$ 2 milhões. É muito dinheiro. É a oportunidade de a ONG ganhar dinheiro, entendeu? É muita grana. (…) Estou até vendo com o Samuel, se caso não der certo nada, aí eu vou abrir uma ONG com ele. Mas a gente precisava de um negócio urgente, de uma ONG que já esteja funcionando, aberta, que vai entrar muito dinheiro. (…) Precisa da ONG só para constar o nome para liberar a verba, entendeu?”, disse Queiroz.
A manobra, no entanto, esbarrou na presidente da JCPM, Eliete de Almeida Lima Delmutti Ramos da Silva. Áudios gravados nos dias seguintes à reunião com Modesto mostram que ela recusou a proposta do cantor gospel mesmo se o vice-presidente Queiroz aceitasse.
O professor Caio César de Medeiros Costa, doutor em Administração Pública e Governo, do Departamento de Administração da Universidade de Brasília, a UnB, explica que o acordo fere frontalmente o princípio da impessoalidade – a regra de que toda escolha na administração pública deve ser baseada no interesse da sociedade, e não em vantagens pessoais.
“Tem um desvio de finalidade no uso do recurso, que ao invés de atender ao interesse público atende ao privado, que nesse caso seria ‘pagar’ a dívida de gratidão da parlamentar. A contratação deveria atender a critérios objetivos. E sim, esse princípio tem que ser considerado para qualquer ação envolvendo o poder público, mesmo que não haja repasse de recurso”, detalhou Costa.
A avaliação é endossada pelo doutor em Administração Pública Marcelo Marchesini, professor do Insper. Ele aponta que destinar uma emenda a uma organização com o objetivo oculto de repassar o dinheiro a terceiros, ou de garantir algum tipo de retorno, é uma afronta direta à lei.
“Os processos estão sendo deturpados para gerar um benefício privado claro e está sendo usado um subterfúgio de enviar para a OSC [Organização da Sociedade Civil] para se ocultar os verdadeiros beneficiários”, resumiu Marchesini.
Todas as pessoas mencionadas no texto foram procuradas pela reportagem, mas não responderam aos questionamentos. O espaço segue aberto.
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Fonte: Intercept Brasil