Lula compara bets ao crack e fala em “disposição pessoal” para acabar com as apostas
Por Laís Gouveia — Brasil 247
247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva comparou o avanço das apostas eletrônicas, as chamadas bets, ao impacto destrutivo do vício em crack na sociedade brasileira, segundo entrevista concedida nesta quarta-feira (16) ao canal no YouTube Desce a Letra Show. Durante a conversa, o chefe do Executivo revelou sua indisposição com a proliferação dessas plataformas e defendeu a extinção das modalidades de jogatina online, ressaltando que a decisão final exige articulação e ampla escuta dentro do governo e junto à sociedade civil.
“Nós estamos discutindo. Já fiz três reuniões do governo, já fiz reunião com a sociedade. E a minha disposição pessoal é acabar com as bets, mas eu tenho que levar em conta o que pensa a sociedade”, afirmou o presidente ao detalhar as discussões internas sobre o tema.
Lula relatou ter conversado pessoalmente com vítimas de ludopatia para compreender a gravidade do endividamento provocado pelos jogos. O presidente citou o caso de um homem que acumulou uma dívida de R$ 2,2 milhões após perder o terreno do próprio pai, a loja da qual era proprietário e o automóvel. Em outro depoimento, mencionou uma jovem de 27 anos com débitos calculados em R$ 730 mil por conta das apostas.
De acordo com o presidente, o padrão do vício em apostas virtuais reproduz a dinâmica da dependência química sofrida por famílias durante o auge do consumo de crack no país. “Você está lembrado quando surgiu o crack? O que acontecia com o cara que era viciado? Ele chegava em casa, a mãe não estava na cozinha, ele tirava o botijão de gás do fogão para vender e comprar crack. O outro pegava o alimento que estava na prateleira, o arroz e o feijão, para vender e comprar crack. A bet está assim. As pessoas estão vendendo o que não têm, se endividando, para jogar, porque todo mundo acha que vai ficar rico na hora. E ninguém cria jogatina para a gente ficar rico. Um pode ganhar para um milhão perder”, declarou.
O chefe do Governo Federal enfatizou que a facilidade de acesso aos celulares transformou o ambiente doméstico em um espaço vulnerável à compulsão. “Eu ando muito irritado com isso. Eu quero ter muita responsabilidade, mas esse negócio de ‘tem bet boa e bet ruim’ não. Todas as bets vivem de jogo. Agora o jogo está dentro da sua casa, está na sua cama, no seu banheiro. Essa menina que deve R$ 730 mil, ela ia tomar banho escondida do marido, levava um celular e jogava tomando banho”, apontou.
Lula revelou ainda que a crise das apostas afetou funcionários que trabalham diretamente na estrutura governamental e nas instalações da Presidência da República. Segundo ele, dois colaboradores do governo acumularam dívidas relevantes, sendo que um deles deve R$ 10 mil recebendo um salário mensal de R$ 4 mil.
O presidente relatou desfechos trágicos relacionados ao endividamento por jogos, mencionando o suicídio de um jovem de 26 anos, a tentativa de suicídio de uma mulher comovida pela vergonha diante de familiares e o caso de um jovem soldado lotado no Palácio da Alvorada que tirou a própria vida após acumular uma dívida de R$ 200 mil.
“Não dá para você permitir um tipo de jogo que leva as pessoas à morte. É muito triste você ver os caras contar, chorando. Uma mulher já tentou se matar três vezes, com vergonha do marido, do pai, porque enganou o pai, a mãe, o filho, o compadre… A pessoa vai enganando todo mundo”, lamentou o presidente.
Apesar da postura firme contra os cassinos virtuais, Lula garantiu que analisará o cenário com cautela antes de deliberar qualquer medida definitiva. “Se depender da minha vontade pessoal, eu acabo com as bets. Obviamente eu sou presidente e tenho que ouvir outras pessoas, porque não posso tomar uma decisão abrupta, sem pensar nas consequências. Mas, sinceramente, as bets são uma desgraça nesse país para o povo pobre, que trabalha e que perde seu dinheiro jogando. O endividamento de uma parte da sociedade é por conta disso”, concluiu.
Fonte: Brasil 247